Decisões de vida e a ação da Providência
Contexto doutrinário
Há momentos em que a vida exige escolha pesada: qual carreira seguir, se trocar de emprego, se casar com aquela pessoa, se romper um casamento, se ter filhos, como cuidar de um pai doente. Quem chega à Doutrina nesses momentos costuma esperar uma de duas coisas — uma resposta pronta dada pelo plano espiritual, ou um conselho de quietismo (“tenha fé, Deus resolve”). A Codificação não oferece nem uma nem outra.
O texto que trata mais diretamente desta situação está no Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XXVII (“Pedi e obtereis”), particularmente nos itens 7, 8, 11 e 22. A tese é dupla e firme:
- A Providência age — mas por inspiração, não por substituição. Os bons Espíritos sugerem ideias; o homem decide e age. O mérito da escolha permanece com ele.
- O que se pode pedir com confiança é o discernimento, não o desfecho. Coragem, paciência, resignação, ideias sãs — sim. Que a prova se abrevie ou que a riqueza venha — não.
Tudo o mais decorre disso: o livre-arbítrio “em toda a sua plenitude” (LE q. 843); o critério moral em lugar do critério de êxito; o horizonte largo da reencarnação a enquadrar a decisão presente. Esta página articula esses eixos e aplica-os a seis casos típicos.
Análise por eixos
Eixo 1 — A Providência age por inspiração, não por substituição
O item 7 do cap. XXVII fixa o princípio operativo:
“O que Deus lhe concederá sempre, se ele o pedir com confiança, são a coragem, a paciência e a resignação. Também lhe concederá os meios de se tirar por si mesmo das dificuldades, mediante ideias que fará lhe sugiram os bons Espíritos, deixando-lhe dessa forma o mérito da ação. Ele assiste os que se ajudam a si mesmos, de conformidade com esta máxima: ‘Ajuda-te, que o céu te ajudará’.” (ESE, cap. XXVII, item 4)
A formulação é essencial: Deus não decide pelo homem. O socorro espiritual chega como ideia, não como ordem nem como fato consumado. Cabe ao homem reconhecer a ideia, deliberar, agir.
O item 8 ilustra com a alegoria do viajante perdido no deserto:
“Tomemos um exemplo. Um homem se acha perdido no deserto. A sede o martiriza horrivelmente. Desfalecido, cai por terra. Pede a Deus que o assista, e espera. Nenhum anjo lhe virá dar de beber. Contudo, um bom Espírito lhe sugere a ideia de levantar-se e tomar um dos caminhos que tem diante de si. Por um movimento maquinal, reunindo todas as forças que lhe restam, ele se ergue, caminha e descobre ao longe um regato. Ao divisá-lo, ganha coragem. Se tem fé, exclamará: ‘Obrigado, meu Deus, pela ideia que me inspiraste e pela força que me deste.’ Se lhe falta a fé, exclamará: ‘Que boa ideia tive!‘” (ESE, cap. XXVII, item 8)
Três pontos pedagógicos esclarecidos pelo próprio Kardec no item:
- Por que o Espírito não falou claramente? “Para lhe ensinar que cada um deve ajudar-se a si mesmo e fazer uso das suas forças.”
- Por que a incerteza? “Pela incerteza, Deus põe à prova a confiança que nele deposita a criatura e a submissão desta à sua vontade.”
- Por que sem aparição? Aqui Kardec invoca o livro de Tobias: “Se o anjo que acompanhou a Tobias lhe houvera dito: ‘Sou enviado por Deus para te guiar’, nenhum mérito teria tido Tobias.”
A consequência operativa é radical: não existe consulta espiritual que substitua a deliberação própria. O médium honesto, em casa espírita honesta, devolve quem chega “perguntar se deve casar” ao próprio discernimento — porque a resposta moralmente válida é a que o consulente constrói, não a que recebe pronta. Ver por-que-a-acao-dos-espiritos-e-oculta.
O item 11 completa o quadro com o mecanismo:
“Pela prece, obtém o homem o concurso dos bons Espíritos que acorrem a sustentá-lo em suas boas resoluções e a inspirar-lhe ideias sãs. Ele adquire, desse modo, a força moral necessária a vencer as dificuldades e a volver ao caminho reto, se deste se afastou.” (ESE, cap. XXVII, item 11)
A prece atrai inspiração — não modifica o decreto. O canal é a comunhão de pensamentos: o pensamento do orante vibra no fluido universal e atrai pensamentos afins (ESE XXVII, item 10; Gênese, cap. XIV). Quem ora com humildade e moral elevada atrai inspiração elevada; quem ora egoisticamente atrai sintonia inferior, inclusive obsessores que confirmam o que a vaidade quer ouvir. Este é o mecanismo objetivo por trás da máxima — não há misticismo aqui, há física fluídica.
Eixo 2 — O que pedir na prece
Se a Providência inspira mas não decide, o pedido precisa ajustar-se ao que a Providência efetivamente concede. Pedir o desfecho material é pedir o que não está sendo dado. O pedido legítimo é por discernimento e força moral.
O texto canônico está no item 22 do cap. XXVII, instrução transmitida por Espírito assinado V. Monod (Bordéus, 1862):
“A vossa prece deve conter o pedido das graças de que necessitais, mas de que necessitais em realidade. Inútil, portanto, pedir ao Senhor que vos abrevie as provas, que vos dê alegrias e riquezas. Rogai-lhe que vos conceda os bens mais preciosos da paciência, da resignação e da fé. (…) Pedi, pois, antes de tudo, que vos possais melhorar e vereis que torrente de graças e de consolações se derramará sobre vós.” (V. Monod, ESE, cap. XXVII, item 22)
A formulação é cirúrgica: o que se pede com fruto é (a) paciência — para sustentar o tempo da prova; (b) resignação — para aceitar o resultado que escapar à vontade própria; (c) fé — para não desistir; (d) melhoria moral própria — porque é da melhoria que decorrem as “graças e consolações”, não delas para a melhoria.
Convergências escriturais matrizes:
- Tiago 1:5 — “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.” A sabedoria — e não o desfecho — é o que se pede com confiança.
- Tiago 4:3 — “Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.” Diagnóstico do pedido egoísta. Eco direto do item 7 do cap. XXVII (“Deus não pode mudar a ordem da Natureza ao gosto de cada um”).
- Filipenses 4:6-7 — “Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações.” Tríplice movimento: súplica + entrega + agradecimento. A “paz que excede o entendimento” é o efeito experimentável do pedido bem feito — descrição fenomenológica do estado de discernimento que a prece bem orientada produz. Ver prece.
A questão pontual em o-que-devemos-pedir-na-prece desenvolve este eixo a partir do item 22.
Eixo 3 — Critério moral acima de critério de êxito
Aqui está a inversão mais incômoda do método espírita aplicado à decisão. O senso comum pergunta “vai dar certo?” — pressupondo que o sucesso material é o critério da boa escolha. A Doutrina inverte: a boa escolha é a que aproxima do bem moral, independentemente do desfecho material.
O ESE cap. III (“Meu reino não é deste mundo”) fixa o princípio:
“Cuidai, pois, em primeiro lugar, do reino de Deus e da sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo.” (Mt 6:33, citado em ESE cap. III)
E o ESE cap. V (“Bem-aventurados os aflitos”) explica por que a Providência permite que provas pesadas atravessem decisões corretas: provas legítimas pertencem ao plano da expiação e do progresso, não são castigo nem fracasso. Ver bem-aventuranca-dos-aflitos e resignacao (resignação como aceitação ativa, não passividade).
Consequência prática: uma decisão boa moralmente pode “dar errado” materialmente sem que isso signifique que foi má decisão. Casar com pessoa de caráter pode resultar em viuvez precoce; pedir demissão de cargo eticamente comprometedor pode trazer pobreza temporária; cuidar do pai doente pode esgotar a saúde própria. Nenhum desses desfechos invalida a escolha — porque o critério de avaliação não era o desfecho.
Inversamente: uma decisão “que deu certo” materialmente pode ter sido moralmente má. Enriquecer mediante fraude, casar por interesse, abortar para preservar carreira — todas decisões com “êxito” mensurável e dívida invisível. A Lei de Causa e Efeito (LE q. 626 e seguintes) registra; o presente apenas adia.
Atenção pastoral: este eixo não é fatalismo. Não diz “qualquer escolha está bem”. Diz que o critério para escolher é o eixo moral, não o eixo do êxito provável. O homem prudente avalia probabilidades, calcula consequências, busca conselho. Mas ao final — quando as probabilidades se equilibram e o cálculo se exaure — o que decide a escolha é a fidelidade ao bem, não a aposta no resultado.
Eixo 4 — Livre-arbítrio, responsabilidade e horizonte longo
Sem o livre-arbítrio “em toda a sua plenitude” (LE q. 843), todo o resto desaba. Se a decisão fosse pré-determinada, o mérito da escolha desapareceria, e com ele a justiça da Lei de Causa e Efeito. Por isso a Lei de Liberdade (LE q. 825-872) é a contrapartida indispensável da Lei de Causa e Efeito: só responde quem podia escolher.
A consequência é exigente: o homem é o autor de suas decisões. Não pode transferir a decisão para “a vontade de Deus”, para “o que o Espírito disser”, para “o que estava no plano”. Estas formulações — populares no neopentecostalismo brasileiro e em parte da literatura de autoajuda espiritual contemporânea — colidem com o ensino kardequiano. A Doutrina não admite que Deus tenha “um plano específico para cada vida” no sentido pré-determinista. O que admite é que cada Espírito escolheu provas e missão antes de reencarnar (planejamento reencarnatório) — mas a escolha foi do próprio Espírito, e a execução, no corpo, exige novas escolhas livres a cada decisão.
O horizonte longo entra como enquadramento, não como roteiro: a vida atual é uma escola dentro de uma série de existências. A decisão presente vale pelo que forma o caráter, não pelo que produz na conta corrente desta encarnação. Ver Léon Denis, O Problema do Ser, do Destino e da Dor (cap. XXIII) — a vida como “escola para a alma”, crescimento moral como sentido último.
Por isso o método é simples mas exigente:
- Orar para discernir, não para receber a resposta pronta.
- Buscar informação, conselho, experiência — Deus dá ideias por mil canais, inclusive humanos.
- Avaliar pela moral primeiro, pelas consequências segundo.
- Decidir e assumir — o mérito ou demérito é do escolhedor.
- Aceitar o resultado com paciência e resignação — o desfecho material não valida nem invalida a escolha moral.
Aplicação a casos típicos
Os seis casos abaixo são situações reais que chegam a casas espíritas. O esquema acima — quatro eixos — aplica-se a todos. O que muda é a lei moral predominante e o conjunto de referências mobilizadas.
1. Qual faculdade ou carreira seguir
Lei do trabalho (LE q. 674-685): o trabalho não é castigo, é meio de progresso e de utilidade ao próximo. A escolha de carreira é, antes de tudo, escolha de serviço — que utilidade posso prestar com os talentos que tenho? A parábola dos talentos (ESE cap. XX, itens 4-9) e 1Co 12 (dons distintos repartidos no corpo) dão o vocabulário: cada um recebeu disposições particulares, e o dever é cultivá-las, não enterrá-las nem invejar as do vizinho. Tensão típica: vocação genuína colide com rentabilidade ou com pressão familiar. O método é o dos quatro eixos — orar por discernimento (não por sucesso garantido), pesar pelas inclinações reais e pela utilidade, decidir, e aceitar que carreiras “menos prestigiosas” mas alinhadas ao caráter valem mais que carreiras prestigiosas e dissonantes.
2. Trocar de emprego
Mesma lei, ângulo diferente. Aqui a tensão é entre insatisfação legítima (ambiente moralmente tóxico, exploração real, descompasso vocacional confirmado pela experiência) e impulso fugitivo (não querer atravessar provas legítimas, busca de gratificação imediata, expectativa de que o próximo lugar resolverá problemas que são internos). O ESE cap. V ensina a distinguir: as provas que pertencem ao progresso devem ser atravessadas, não evitadas. O sinal a observar é o pensamento sugerido no momento da prece. Inspiração elevada vem com paz, com clareza sobre o que se quer construir, com responsabilidade pelos compromissos atuais (prazo de transição, pessoas que dependem, dever profissional). Sugestão inferior vem com agitação, fantasia de fuga, raiva acumulada que projeta no emprego problemas mais profundos.
3. Casamento
Lei de sociedade (LE q. 766-775) + lei de reprodução (LE q. 695, “o casamento é progresso da humanidade”). O ESE cap. XXII (“Não separeis o que Deus uniu”) fixa a moldura: a união conjugal é compromisso real, com peso moral próprio, não contrato cancelável à conveniência. Para o vocabulário pastoral aplicado, [[wiki/obras/vida-e-sexo|Vida e Sexo]] (Emmanuel/Chico Xavier, 1970) traz três passagens decisivas: o cap. 6 descreve a comunhão afetiva como “circuito de forças” entre os parceiros, em que cada um passa a alimentar-se das energias do outro; o cap. 7 fixa o casamento como “assistência mútua e responsabilidade recíproca”, ancorado em LE q. 695; o cap. 11 trata da passagem da paixão à afinidade real — Emmanuel chama de “ouro vivo do amor puro” o vínculo que se forma quando o brilho inicial da atração cede a uma comunhão construída. Tensão típica: paixão genuína ≠ afinidade espiritual ≠ compromisso compatível com a vida prática. O método não promete certezas; promete que orar por discernimento, conviver bastante antes da decisão, observar o caráter sob pressão e escolher com vontade real produzem decisão moralmente válida — independentemente do resultado conjugal.
4. Separação e divórcio
Espelho ético do caso 3. O ponto pastoral mais delicado da seção. ESE cap. XXII e Mt 19:8 (“por causa da dureza dos vossos corações”) deixam claro que a separação não é o ideal — mas reconhecem que há situações em que o vínculo, se mantido, dilapida moralmente os envolvidos. A posição de Kardec sobre o divórcio civil (RE 1862, “Lei do divórcio na França”) é favorável ao seu reconhecimento legal, sem que isso signifique estímulo moral. O cap. 8 de [[wiki/obras/vida-e-sexo|Vida e Sexo]] dá o vocabulário pastoral mais aplicável: divórcio como “bênção necessária quando há dilapidação moral” — admissível, jamais estimulado. O cap. 9 sustenta que muitas uniões infelizes são educandário cármico em que “recebemos no companheiro os reflexos de nós próprios”, ou seja, antes de romper é preciso ter feito o trabalho interior de reconhecer a própria parte; e o cap. 12 trata dos desajustes como matéria de aceitação mútua e estudo, não rendição imediata. O critério: o casamento se mantém quando a permanência for caminho de progresso para os dois (mesmo que custoso); rompe-se quando a permanência se converte em destruição moral mútua. Decisão própria, indelegável, com consciência do peso — e da responsabilidade pelos filhos e pelo cônjuge lesado.
5. Engravidar e ter filhos
Lei de reprodução (LE q. 686-701) + paternidade como missão (ver paternidade-como-missao). Decisão dupla: aceitar a vinda (ou não) e, vindo, assumir o papel. O cap. 10 de [[wiki/obras/vida-e-sexo|Vida e Sexo]] desenha o dever bilateral; o cap. 17 trata do aborto criminoso como fuga ao dever, com sequela obsessiva (LE q. 358); o cap. 18 (apoiado em ESE cap. XIV item 9) afirma a bilateralidade — pais e filhos foram, originariamente, “filhos livres de Deus”, e o vínculo carnal é convocação para tarefa moral mútua, não posse. Tensão típica: liberdade reprodutiva real (Kardec não condena planejamento familiar; LE q. 692-693 admite limites) confrontada com receio do compromisso, com pressão social, com circunstância material precária. O método: a prece honesta nesse caso pede sabedoria para distinguir receio legítimo (ainda não temos condição moral ou material para acolher) de fuga ao dever (não queremos perder o conforto). A decisão de não ter filhos pode ser legítima; a decisão de abortar uma gravidez já iniciada não o é, porque ali o Espírito convocado já estabeleceu vínculo perispiritual — a regra fixada em LE q. 358 é categórica: “há crime sempre que tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento, porque impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando”. A única exceção admitida pelos Espíritos está em LE q. 359: quando o nascimento põe em risco real a vida da mãe, “preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe” — é o aborto terapêutico em sentido estrito, decisão clínica diante de risco vital documentado, não ampliável por analogia a sofrimento psíquico, dificuldade material, malformação fetal ou inviabilidade do projeto familiar. Fora desse cenário, a Doutrina não abre brecha: não há aborto “por gravidez indesejada”, “por carreira”, “por idade”, “por estupro” — situações em que a dor é real e merece acolhimento espiritual e prático, mas que não autorizam interromper a encarnação do Espírito já vinculado. A pergunta de quem chega ao centro grávida em crise não é “posso abortar?” — é “como atravesso esta prova?”, e a resposta passa por rede de apoio, atendimento fraterno, eventualmente entrega para adoção (LE q. 692-693, sobre planejamento e responsabilidade), nunca pelo desfazimento do vínculo perispiritual já estabelecido.
6. Cuidar de familiar dependente
Lei de conservação (LE q. 702-727) + caridade prática + dever filial. O quinto mandamento (“honra teu pai e tua mãe”) e Mt 15:4-6 (Jesus repreendendo quem usa o “korban” para escapar do dever filial) são referências escriturais. lar-como-fortaleza e bem-aventuranca-dos-aflitos dão o enquadramento. Tensão típica: dever filial real ≠ heroísmo exaustivo que destrói o cuidador. A Doutrina não exige sacrifício até a aniquilação — a lei de conservação preserva a vida e a saúde de quem cuida. O método permite arranjos: cuidado em casa, internação em casa de cuidados, divisão entre irmãos, contratação de auxílio. O critério moral não é “qual arranjo evita a internação?” mas “qual arranjo permite cuidar com dignidade sem destruir o cuidador, e mantém o vínculo afetivo vivo?“. É um caso muito frequente nas casas espíritas hoje, à medida que a população envelhece — e onde a culpa católica (“eu deveria fazer mais”) se mistura mal com o quietismo neopentecostal (“Deus me dará forças para tudo”). A resposta espírita é mais sóbria: orar por discernimento, ouvir os limites do próprio corpo e da própria família, decidir pelo arranjo viável e sustentado, aceitar que cuidar bem de quem está partindo é uma forma cabal da caridade.
Síntese
A Doutrina Espírita não dá fórmulas de decisão — dá um método. Os quatro eixos formam o esqueleto:
- Inspiração, não substituição — a Providência sugere ideias, o homem decide.
- Pedido calibrado — pede-se discernimento, paciência, resignação, fé; não se pede o desfecho material.
- Critério moral acima do critério de êxito — boa decisão é a que aproxima do bem, não a que “dá certo”.
- Livre-arbítrio + responsabilidade + horizonte longo — o homem assume a escolha; o sentido da vida é formação do caráter.
Aplicado a casos reais — carreira, emprego, casamento, separação, filhos, cuidado de dependente — o método produz decisões mais lentas, mais firmes, e moralmente sustentáveis. Não promete acertos. Promete que escolher pelo bem moral, com discernimento orado e responsabilidade assumida, é o que se pode pedir com confiança que se receba.
Aprofundamento
O que distingue inspiração elevada de sugestão inferior
Quem está orando para decidir recebe pensamentos. Como saber se são inspiração dos bons Espíritos ou sugestão de Espíritos inferiores (ou da própria mente em estado emocional)? Os critérios são os mesmos do discernimento dos Espíritos em mediunidade — coerência moral, coerência racional, humildade — aplicados ao foro íntimo. Sinais de inspiração elevada: paz, caridade, reforço da responsabilidade própria, conformidade com a moral do Cristo, racionalidade preservada. Sinais de sugestão inferior: agitação, impulso egoísta, delegação (“o Espírito decide por mim”), desejo de gratificação imediata, descolamento da realidade prática.
O equívoco do “Deus tem um plano específico para você”
Esta fórmula — corrente no neopentecostalismo brasileiro e em parte da literatura de autoajuda cristã contemporânea — colide com o livre-arbítrio “em toda a sua plenitude” (LE q. 843). O ensino espírita admite que cada Espírito escolheu provas e missão antes de encarnar (planejamento reencarnatório), mas a escolha foi do próprio Espírito, é elástica, e a execução exige decisões livres a cada bifurcação. Não há “vontade específica de Deus” para a sua escolha de carreira ou de cônjuge. Há a vontade de Deus de que você se aperfeiçoe moralmente — e para isso lhe foi dada razão, livre-arbítrio, e o concurso dos bons Espíritos pela inspiração. O resto é com você.
O equívoco do mediunismo de consulta
“Vou ao centro perguntar se devo casar.” Sintoma de um espiritismo distorcido. ESE cap. XXVII item 7 + LE q. 459 (a ação dos Espíritos é oculta) já desarmam a pretensão. Médiuns honestos devolvem o consulente à própria deliberação, justamente porque o mérito da decisão precisa permanecer com quem decide. Casa espírita não é oráculo grego nem terreiro de consulta — é escola de reforma íntima. Ver por-que-a-acao-dos-espiritos-e-oculta.
Conceitos relacionados
- prece — natureza, eficácia e qualidades da prece (cap. XXVII inteiro).
- lei-de-liberdade — livre-arbítrio “em toda a sua plenitude” (LE q. 825-872).
- comunhao-de-pensamentos — mecanismo da inspiração (transmissão pelo fluido universal).
- discernimento-dos-espiritos — critérios para distinguir inspiração elevada de sugestão inferior.
- planejamento-reencarnatorio — horizonte longo, escolha de provas.
- resignacao — aceitação ativa do resultado, não passividade.
- bem-aventuranca-dos-aflitos — provas legítimas no plano do progresso.
- lei-de-justica-amor-e-caridade — critério moral último.
- o-que-devemos-pedir-na-prece — Q&A pontual ancorada em ESE XXVII 22.
- por-que-a-acao-dos-espiritos-e-oculta — por que o socorro não é direto.
- paternidade-como-missao — caso 5 (filhos).
- lar-como-fortaleza — caso 6 (cuidado familiar) e casos 3-4 (vida conjugal).
- sexualidade-em-emmanuel — sistematização de Vida e Sexo (referência para casos 3-5).
- decisoes-dificeis — trilha prática para quem está vivendo a situação.
Fontes
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. III (“Meu reino não é deste mundo”); cap. V (“Bem-aventurados os aflitos”); cap. XIV (“Honrai vosso pai e vossa mãe”); cap. XXII (“Não separeis o que Deus uniu”); cap. XXVII (“Pedi e obtereis”), itens 1-22, com ênfase nos itens 7, 8, 11 e 22 (V. Monod, Bordéus, 1862); cap. XX (“Os trabalhadores da última hora”), itens 4-9.
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Q. 358-360 (aborto: regra geral, exceção do risco vital materno, respeito ao feto); q. 459-472 (influência dos Espíritos sobre nossos pensamentos); q. 626 e seguintes (lei de causa e efeito); q. 658-673 (lei de adoração; prece); q. 674-685 (lei do trabalho); q. 686-701 (lei de reprodução); q. 692-693 (planejamento familiar); q. 695 (casamento como progresso); q. 702-727 (lei de conservação); q. 766-775 (lei de sociedade); q. 825-872 (lei de liberdade); q. 843 (livre-arbítrio em toda a sua plenitude).
- Bíblia Sagrada (Almeida Corrigida e Fiel). S. Mateus 6:25-34; 7:7-11; 15:4-6; 19:8. Tiago 1:5; 4:3. Filipenses 4:6-7. 1 Coríntios 12:4-11.
- XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Vida e Sexo. Rio de Janeiro: FEB, 1970. Caps. 6 (compromisso afetivo), 7 (casamento), 8 (divórcio), 9 (união infeliz), 10 (filhos), 11 (alterações afetivas), 12 (desajustes), 17 (aborto), 18 (pais e filhos). Edição: vida-e-sexo. Página: vida-e-sexo.
- DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Cap. XXIII (sentido moral da vida).