Identidade dos Espíritos

Definição

Questão prática central do Espiritismo: como verificar se o Espírito que se comunica é realmente quem diz ser. Kardec a considera “uma das mais controvertidas, mesmo entre os adeptos do Espiritismo” (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 255).

Ensino de Kardec

Não há prova material absoluta

Os Espíritos “não nos trazem um ato de notoriedade” e tomam com facilidade nomes alheios (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 255). Até caligrafia e assinatura podem ser imitadas: “Há falsários no mundo dos Espíritos, como os há neste” (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 260).

O nome é secundário; a qualidade é primária

“Desde que o Espírito só diz coisas aproveitáveis, pouco importa o nome sob o qual as diga.” (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 255)

Espíritos superiores formam “um todo coletivo” cujas individualidades nos são em grande parte desconhecidas. Podem usar o nome de uma personagem conhecida “cuja natureza mais identificada seja com a deles” — sem que haja fraude (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 256).

O critério fundamental: a linguagem

“A linguagem dos Espíritos está sempre em relação com o grau de elevação a que já tenham chegado” — regra invariável e sem exceção (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 263). Julga-se o Espírito como se julga um correspondente desconhecido: pelo estilo, pelas ideias, pelo conjunto (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 263).

26 critérios de discernimento (item 267)

Kardec resume os critérios em 26 pontos. Os principais:

  1. Único critério: o bom senso (1.º).
  2. Linguagem dos superiores: digna, nobre, simples, modesta — sem trivialidade nem jactância (4.º, 9.º).
  3. Coerência: a linguagem é idêntica quanto ao fundo, em qualquer tempo e lugar (6.º).
  4. Bons Espíritos aconselham sem impor — se não são ouvidos, retiram-se (10.º).
  5. Nunca lisonjeiam (11.º).
  6. Não predizem o futuro com datas (8.º).
  7. Calam-se sobre o que não sabem (7.º).
  8. Nomes extremamente venerados usados com facilidade devem inspirar desconfiança (14.º).
  9. Toda prescrição meticulosa é sinal de inferioridade (12.º).
  10. Inalterável pureza dos sentimentos morais é a verdadeira pedra de toque (22.º).

Ver análise completa em veracidade-das-mensagens-psicografadas.

Comunicações apócrifas

O cap. XXXI do LM apresenta comunicações sob nomes de Vicente de Paulo, Napoleão, Jesus e Bossuet que Kardec desmonta criticamente, mostrando que a falta de exame é o convite ao embuste (LM, 2ª parte, cap. XXXI, comunicações XXIX–XXXIV).

Identidade de contemporâneos

Mais fácil de comprovar: “os hábitos, de que eles ainda não tiveram tempo de despojar-se, são que os fazem reconhecíveis” — particularidades espontâneas (linguagem familiar, fatos desconhecidos dos assistentes) são as provas mais seguras (LM, 2ª parte, cap. XXIV, itens 257–258).

Casos-modelo em RE 1862

A [[wiki/obras/revista-espirita-1862|Revista Espírita de 1862]] traz dois casos editoriais paradigmáticos:

Caso Carrère (RE mar/1862) — subchefe de turma da estação ferroviária de Bordeaux, morto em 18/12/1861 no comando de uma manobra. A Sra. Beautey, esposa do chefe da estação, vê o Espírito de Carrère em vigília (sem ser médium iniciada) e o descreve com tal exatidão que o marido o reconhece imediatamente. Particularidade decisiva: a Sra. Beautey jamais o vira em vida. Caso-modelo do princípio “particularidade desconhecida do médium como prova de identidade”.

Caso Sanson (RE mai–out/1862) — membro da SPEE morto em 21/04/1862, evocado no dia do enterro pelo médium Leymarie, que jamais o conhecera em vida. Leymarie descreve seu caráter (“o tipo do verdadeiro filósofo”, sua paciência na doença, sua serenidade ante a morte) com exatidão depois confirmada por todos os assistentes que o conheceram. Caso-modelo do critério da linguagem como prova — o estilo do Espírito coincide com o do encarnado conhecido por outros.

Caso N. G. Bach / Henrique III (RE jul/1865 + continuação RE fev/1866 “A Espineta de Henrique III”) — bisneto de Sebastian Bach, professor de piano em Paris; após receber em 04/05/1865 uma espineta de 1564, sonha com personagem da corte de Henrique III; ao acordar encontra na cama folha de música com escrita microscópica antiga — letra e melodia cuja ortografia “absolutamente não é familiar ao Sr. Bach”. Caso paradigmático cruzando escrita direta nocturna, audição mediúnica e prova histórica.

“Identidade dos Espíritos nas comunicações particulares” (RE jul/1866, “Questões e problemas”) — artigo metodológico especificamente dedicado ao discernimento da identidade em comunicações pessoais (mais difíceis que em sessões coletivas, porque a sugestão íntima do médium pode mascarar a comunicação real). Reforça os critérios já fixados em LM cap. XXIV.

Caso Thomas Martin de Gallardon (RE dez/1866) — caso paradigmático com prova de identidade externa e múltipla: previsão antecipada de eventos verificados (encontros, viagens), conhecimento de língua estrangeira (inglês) ignorada pelo médium, reconhecimento das advertências pelo próprio rei Luís XVIII em 02/04/1816. Demonstra que a identidade do Espírito é demonstrável por convergência de provas externas independentes — não apenas pelo conteúdo subjetivo da mensagem.

Aplicação prática

O discernimento não é opcional — é dever de todo espírita. São Luís recomenda: “submeter ao controle da razão mais severa todas as comunicações que receberdes” (LM, 2ª parte, cap. XXIV, item 266).

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Caps. XXIV (itens 255–268), XXVII (itens 297–303), XXXI (comunicações apócrifas).