Homero

Identificação

  • Nome: Homero (em grego antigo, Ὅμηρος, Hómēros)
  • Datação tradicional: poeta grego do séc. VIII a.C., usualmente situado entre c. 750 e c. 700 a.C.
  • Origem: Esmirna ou Quios (cidades do litoral jônico), conforme a tradição antiga; sete cidades disputaram a honra de ter sido seu berço (Esmirna, Quios, Cólofon, Salamina, Rodes, Argos e Atenas)
  • Apelido infantil: Melesígeno (Μελησιγενής), do rio Mélès em Esmirna, “porque passou a juventude entre os caniços do Mélès”
  • Obra: os poemas épicos Ilíada e Odisseia — fundadores da literatura ocidental
  • Tradição: descrito como cego (origem do epíteto “o Cego de Esmirna”); a tradição é antiga, embora não confirmada historicamente

Papel

Espírito comunicante espontâneo em sessão privada de dois médiuns desconhecidos de Sens, em outubro de 1860 — sem que os médiuns soubessem quem ditava. A comunicação foi apresentada à SPEE em 26/10/1860 e publicada em revista-espirita-1860 (nov/1860, “Homero”). Caso-modelo de prova de identidade por revelação espontânea de informação ignorada pelo médium.

A função doutrinária é dupla:

  1. Prova de identidade pelo apelido “Melesígeno”. Os médiuns ignoravam totalmente o termo. Quando Kardec, surpreso, recebeu a comunicação, foi consultar e confirmou em dicionário mitológico o apelido tradicional do poeta. Este é o tipo de prova que o Espiritismo considera mais forte do que a confirmação simples de nomes ou fatos amplamente conhecidos — porque o pensamento dos médiuns, como reflexo, não poderia ter produzido informação ignorada.

  2. Caso da Antiguidade greco-romana evocada como autora consciente. Continuação da abertura feita em mar/1859 com Plínio, o moço — figuras do mundo clássico responderam pessoalmente a perguntas sobre suas próprias obras e contextos. Em ambos os casos, as comunicações relativizam o autor literário (“os poemas da Ilíada e da Odisseia foram alterados”, diz Homero) e firmam a continuidade da consciência através dos séculos.

Citações relevantes

Comunicação espontânea inicial:

“Meu Deus! Como são profundos os vossos desígnios e impenetráveis as vossas vistas! Em todos os tempos os homens têm procurado a solução de uma porção de problemas que ainda não foram resolvidos. Eu também procurei durante toda a minha vida, e não consegui resolver o que de todos parece o mais simples: o mal, aguilhão de que vos servis para impelir o homem a fazer o bem por amor.” (RE, nov/1860, “Homero”)

Revelação da identidade:

“Passei a juventude entre os caniços do Mélès; banhei-me e embalei-me muitas vezes em suas ondas. Por isso, na minha juventude, eu era chamado Melesígeno. […] Minha mocidade foi embalada nas ondas; a poesia me deu cabelos brancos. Eu sou aquele a quem chamais Homero.” (RE, nov/1860, “Homero”)

Sobre a integridade dos poemas:

”— Os poemas da Ilíada e da Odisseia, que nós temos, são exatamente aqueles que vós compusestes?
— Não. Eles foram alterados.”
(RE, nov/1860, “Homero”)

Sobre a sua origem:

”— Várias cidades disputaram a honra de vos ter sido o berço. Poderíeis esclarecer-nos a respeito?
— Procurai a cidade da Grécia que possuía a casa do cortesão Cleanax. Foi ele que expulsou minha mãe do lugar do meu nascimento, porque ela não quis ser sua amante, e sabereis em que cidade vim à luz. Sim, elas disputaram essa suposta honra, mas não disputavam por me haverem dado hospitalidade.”
(RE, nov/1860, “Homero”)

Sobre a morte:

”— Pediríamos que nos falásseis dos últimos instantes de vossa vida terrena.
— Oh! meus amigos, Deus permita que não morrais tão infelizes quanto eu! Meu corpo finou-se na última das misérias humanas. A alma fica muito perturbada em tal estado. O despertar é mais difícil, mas também é muito mais belo!”
(RE, nov/1860, “Homero”)

Observação metodológica de Kardec

“O fato mais marcante desta comunicação é a revelação do apelido de Homero, e é tanto mais notável quanto os dois médiuns, que reconhecem e deploram a insuficiência de sua instrução, o que os obriga a viver do trabalho manual, não podiam ter a menor ideia a respeito. E tanto menos se pode atribuí-lo a um reflexo qualquer do pensamento, dado o fato de que no momento estavam sós.” (RE, nov/1860, observação)

“Suponhamos que aquele que mais protesta contra o que chama capricho ou má vontade do Espírito, se apresente numa casa declinando o seu nome. Que faria, se o acolhessem e lhe pedissem à queima-roupa que provasse ser ele mesmo? Voltaria as costas. É o que fazem os Espíritos. […] As provas de identidade dadas espontaneamente pelos Espíritos são sempre as melhores.” (RE, nov/1860, observação)

Obras associadas

A Ilíada e a Odisseia — obras terrenas atribuídas a Homero — não são tratadas doutrinariamente na codificação espírita. A figura permanece ligada à comunicação de 1860 e ao caso de prova de identidade.

Páginas relacionadas

  • identidade-dos-espiritos — caso-modelo de prova por revelação espontânea de dado ignorado pelo médium.
  • evocacao — neste caso, comunicação espontânea (não evocação programada).
  • plinio-o-moco — antecedente em mar/1859, primeira evocação programada de figura clássica.

Fontes

  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, nov/1860, “Homero”. Edição local: 1860.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXIV (Da identidade dos Espíritos). FEB.