Perfeição moral
Definição
Culminação das dez leis morais. Tratada na Parte 3, Cap. XII (q. 893–919). Discute virtudes, vícios, paixões, egoísmo, o homem de bem e o conhecimento de si.
A virtude mais meritória
“Toda virtude tem seu mérito próprio, porque todas indicam progresso na senda do bem. Há virtude sempre que há resistência voluntária ao arrastamento dos maus pendores. A sublimidade da virtude, porém, está no sacrifício do interesse pessoal, pelo bem do próximo, sem pensamento oculto.” (LE, q. 893)
A mais meritória é a que assenta na caridade mais desinteressada.
Discernimento no bem
Pessoas desinteressadas mas sem discernimento, que prodigalizam seus haveres sem utilidade, têm o mérito do desinteresse, mas não o do bem que poderiam fazer (LE, q. 896). Acumular sem fazer o bem, ainda que para legar aos herdeiros, “é um compromisso com a consciência má” (LE, q. 900).
Moral sem ação
“A moral sem as ações é o mesmo que a semente sem o trabalho.” (LE, q. 905)
Escrever belas obras morais sem praticá-las é semente estéril.
Vencer as más inclinações
“Sim, e, frequentemente, fazendo esforços muito insignificantes. O que lhe falta é a vontade. Ah! quão poucos dentre vós fazem esforços!” (LE, q. 909)
O vício radical: egoísmo
“Temo-lo dito muitas vezes: o egoísmo. Daí deriva todo mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos há egoísmo.” (LE, q. 913)
Enquanto o egoísmo não for atacado pela raiz, os demais vícios não se extirpam.
Destruição do egoísmo
“De todas as imperfeições humanas, o egoísmo é a mais difícil de desenraizar-se porque deriva da influência da matéria, influência de que o homem, ainda muito próximo de sua origem, não pôde libertar-se e para cujo entretenimento tudo concorre: suas leis, sua organização social, sua educação.” (LE, q. 917)
A resposta está na reforma moral individual e no progresso geral — educação, leis e costumes que desencorajem o egoísmo.
No ESE
O cap. XVII do ESE — “Sede perfeitos” — retoma e aprofunda o tema da perfeição moral à luz do Evangelho. Kardec detalha os caracteres da perfeição e apresenta o célebre retrato do homem de bem (ESE, cap. XVII, item 3): aquele que pratica a lei de justiça, de amor e de caridade na sua maior pureza; que interroga a consciência sobre seus atos e pergunta se não violou a lei de Deus.
O capítulo também discute os bons espíritas — distinguindo a crença teórica da prática efetiva — e retoma a parábola do semeador para ilustrar que a palavra do bem só frutifica quando cai em terreno preparado pela boa vontade.
Ver homem-de-bem · parabola-do-semeador · evangelho-segundo-o-espiritismo.
Reverberação paulina: imitadores de Deus
Paulo formula em Efésios 5:1–2 a fórmula compacta da perfeição moral cristã:
“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós […].” (Ef 5:1–2)
Gêmea de “Sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5:48; ESE cap. XVII), a “imitação” paulina é conformação progressiva do caráter ao caráter divino — não cópia exterior, e tampouco estado adquirido em uma só encarnação. Articula-se ao homem novo de Ef 4:22–24 (“criado em verdadeira justiça e santidade”) como dois movimentos do mesmo trabalho: despojar do velho, revestir do novo, andar em amor.
Páginas relacionadas
- lei-de-justica-amor-e-caridade · progresso-espiritual · lei-natural
- homem-velho-homem-novo — moldura paulina da reforma íntima
- epistola-aos-efesios — Ef 4:22–24; 5:1–2
Fontes
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Parte 3, Cap. XII (q. 893–919). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVII — “Sede perfeitos”. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Bíblia Sagrada (ACF). Epístola aos Efésios, 4:22–24; 5:1–2. Ver epistola-aos-efesios.