Revista Espírita — Ano de 1860

Terceiro volume da Revue Spirite, redigido por allan-kardec entre janeiro e dezembro de 1860. 86 artigos em doze fascículos mensais. É o ano em que sai a 2ª edição definitiva de O Livro dos Espíritos (anunciada em mar/1860) — fim da gestação do primeiro pilar do Pentateuco. O volume consolida a metodologia kardequiana de duas maneiras complementares: (1) prudência crítica diante de teorias científicas dos Espíritos — caso-modelo da Teoria da Incrustação Planetária (abr/1860, Sr. Jobard), explicitamente rejeitada por Kardec, e do “Exame crítico” das dissertações de Charlet sobre os animais (jul/1860); (2) recusa programática das categorias “sobrenatural” e “milagre” — artigo-matriz “O maravilhoso e o sobrenatural” (set/1860) em refutação a Louis Figuier, posição que entrará intacta em genese caps. XIII–XV. O ano também marca a primeira grande viagem doutrinária de Kardec — Lyon, set/1860, com banquete de homenagem em 19/09 cuja resposta fixa a profecia “Paris é o cérebro, Lyon será o coração” e a recomendação programática de organização em pequenos grupos.

“Fora da moral, que não pode ter duas interpretações, não devem ser aceitas teorias científicas dos Espíritos, senão com muitas reservas, porque, uma vez mais, não estão encarregados de nos trazer a Ciência acabada; estão longe de tudo saber, sobretudo no que concerne ao princípio das coisas; enfim, é preciso desconfiar das ideias sistemáticas, que alguns dentre eles querem que prevaleçam e às quais não têm escrúpulo de dar uma origem divina.” — Kardec, RE, abr/1860, “Formação da Terra — Teoria da incrustação planetária”.

Dados bibliográficos

Posição no projeto editorial

Em 1860 Kardec consolida o que os volumes anteriores haviam aberto. A 2ª edição definitiva de O Livro dos Espíritos é anunciada na Revista de mar/1860 (“O Livro dos Espíritos — Aviso sobre a 2ª edição”); essa edição “completamente refundida” é a versão canônica que circulará daí em diante e a base sobre a qual O Livro dos Médiuns (1861) se assentará. O volume documenta, portanto, o momento de transição da fase fundadora (1858–1859) para a fase de codificação sistemática (1861–1868) — fase em que a Revista passará progressivamente a antecipar e ensaiar conteúdo das obras maiores.

A SPEE (Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas), que em 1859 havia mudado para a rue Montpensier, 12 (Palais-Royal), em julho/1860 transfere-se para a rue Sainte-Anne, 59 — mesmo endereço onde Kardec passa a residir, integrando-se trabalho doutrinário e vida doméstica. As sessões são divididas formalmente em gerais (abertas a ouvintes não-sócios) e particulares (apenas membros) por novo regulamento adotado em jun/1860.

Marcos cronológicos

MêsMarcos do fascículo
Janeiro”O Espiritismo em 1860” (editorial-balanço); ⭐ “O magnetismo perante a academia” (sobre o reconhecimento do hipnotismo pela Academia de Ciências via Dr. Broca, 5/12/1859); ⭐ “Espírito de um lado, corpo do outro — Palestra com o Espírito de um vivo” (primeira evocação programada de pessoa viva: o Conde de R… C…, capitão da marinha imperial, 25/11 e 02/12/1859); “Conselho de família” (caso de evocação para arbitrar disputa hereditária); “As pedras de Java” (Bruxelas, manifestação física espontânea); “Boletim” das sessões de outubro/novembro/1859.
Fevereiro”Boletim”; ⭐ “Os Espíritos glóbulos” (recusa metodológica de ilusão fisiológica — pontos opacos do humor aquoso tomados por Espíritos; antiespiritualismo crédulo); “Médiuns especiais” (introdução à Désirée Godu, médium curadora); “Bibliografia — A condessa Matilde de Canossa” (resenha do romance do Pe. Bresciani); “História de um danado” (caso de Castelnaudary, Espírito de Castelnaudary perturbador exorcizado, evocado e progressivamente convertido); “Comunicações espontâneas”.
Março”Boletim”; ⭐ “Os pré-adamitas” (resposta longa de Kardec; matriz da doutrina da raça adâmica que entrará em Gênese cap. XI item 38); “Um médium curador” (continuação sobre Désirée Godu); “Manifestações físicas espontâneas — O padeiro de Dieppe”; ⭐ “Estudo sobre o Espírito das pessoas vivas — Dr. Vignal” (segunda evocação de pessoa viva, Dr. Vignal, 03/02/1860); “Bibliografia — Slamora, a druidesa”; “Ditados espontâneos”; ⭐ “O Livro dos Espíritos — Aviso sobre a 2ª edição” (anúncio do lançamento da edição definitiva); “Aos leitores da Revista — Cartas não assinadas”.
Abril”Boletim”; ⭐ “Formação da Terra — Teoria da incrustação planetária” (carta do Sr. Jobard propondo cosmologia em que a Terra teria sido formada pela fusão de quatro planetas, cada um trazendo uma raça; Kardec rejeita a doutrina e fixa o princípio metodológico capital sobre os limites da autoridade dos Espíritos em matéria científica — ver incrustacao-planetaria); “Cartas do Dr. Morhéry sobre a Srta. Désirée Godu” (152 casos clínicos controlados pelo médico em Plessis-Bloudet); “Variedades — O fabricante de São Petersburgo / Aparição tangível”; “Ditados espontâneos e dissertações espíritas”.
Maio”Boletim”; “História do Espírito familiar do senhor de Corasse” (caso histórico do início do séc. XV em Foix); “Correspondência” (incluindo evocações da convulsionária “grande Françoise” sobre Diácono Pâris); “Palestras familiares de além-túmulo”; “Variedades”; “Ditados espontâneos e dissertações espíritas”.
Junho”Boletim”; “O Espiritismo na Inglaterra”; “Um Espírito falador”; “O Espírito e o cãozinho”; “O Espírito de um idiota”; “Palestras familiares de além-túmulo — Sra. Duret”; “Medicina intuitiva”; “Uma semente de loucura”; “Tradição muçulmana”; “Erro de linguagem de um Espírito”; “Ditados espontâneos”; “Bibliografia”.
Julho⭐ “Aviso” (transferência do escritório da Revista e domicílio de Kardec para rue Sainte-Anne, 59); “Boletim”; ⭐ “A frenologia e a fisiognomia” (recusa do determinismo materialista de Gall e Lavater; o cérebro é instrumento, não causa do pensamento — vínculo com idiotia, loucura, livre-arbítrio); “Os fantasmas” (recusa da imagética sepulcral; Espíritos aparecem em qualquer hora e lugar, não em “horas fatais”); “Recordação de uma vida anterior” (caso do oficial de marinha Sr. V… que se recorda de ter sido morto no massacre de São Bartolomeu como Gaston Vincent — evocação do anjo da guarda); ⭐ “Dos animais” (oito dissertações longas do Espírito Charlet sobre a inteligência, o senso moral e o progresso do princípio inteligente animal; ver alma-dos-animais); ⭐ “Exame crítico (Das dissertações de Charlet sobre animais)” (controle universal aplicado em tempo real; princípio: entre animal e homem há “solução de continuidade”); “Bibliografia”.
Agosto”Boletim”; ⭐ “Concordância espírita e cristã” (carta do Dr. Grand-Boulogne, antigo vice-cônsul; profissão de fé em 19 proposições articulando Decálogo + Mateus 22 + expiação reparadora + encarnação como condição da virtude; brochura Carta de um católico sobre o Espiritismo publicada autonomamente); ⭐ “O trapeiro da Rue des Noyers” (manifestação física espontânea célebre na casa do Sr. Lesage, ecônomo do Palácio da Justiça; projéteis arremessados por Espírito invisível; evocado, identifica-se como “Jeannet”, trapeiro morto há ~50 anos); “Palestras familiares de além-túmulo — Thilorier, o físico”; “Variedades”; “Ditados espontâneos e dissertações espíritas”; “Instrução prática sobre as manifestações espíritas”.
Setembro”Boletim”; ⭐ “O maravilhoso e o sobrenatural” (artigo programático de refutação a Louis Figuier; recusa das duas categorias para os fenômenos espíritas; matriz de genese caps. XIII–XV; ver maravilhoso-e-sobrenatural); ⭐ “História do maravilhoso e do sobrenatural — Por Louis Figuier” (resenha-refutação do prefácio e dos dois primeiros volumes da obra do cientista materialista; identificação do ponto de partida ateísta); “Correspondência — Ao Sr. Presidente da SPEE” (do Sr. Mathieu, sobre os ensaios de Thilorier); “Dissertações espíritas”.
Outubro⭐ “Resposta do Sr. Allan Kardec à Gazette de Lyon” (texto integral do artigo zombeteiro assinado por “C.M.” na Gazette de Lyon de 02/08/1860, que ridicularizava operários espíritas lioneses como “alucinados que romperam com toda crença religiosa”); ⭐ “Resposta do Sr. Allan Kardec ao Sr. Redator da Gazette de Lyon” (refutação programática lembrando que “Jesus era operário” e escolheu seus apóstolos entre o povo; firma defesa social do Espiritismo entre as classes laboriosas); ⭐ “Banquete oferecido pelos espíritas lioneses ao Sr. Allan Kardec — 19 de setembro de 1860” (discurso-resposta de Kardec; três categorias de espíritas — curiosos, filósofos teóricos, espíritas cristãos; recomendação dos pequenos grupos em vez de uma grande sociedade; profecia “Se Paris é o cérebro, Lyon será o coração”); “Sobre o valor das comunicações espíritas (pelo Sr. Jobard)”; “Observações”; “Dissertações espíritas”.
Novembro”Boletim”; “Bibliografia — Carta de um católico sobre o Espiritismo, pelo Dr. Grand” (resenha da brochura citada); ⭐ “Homero” (comunicação espontânea via dois médiuns desconhecidos de Sens; revelação espontânea do apelido infantil “Melesígeno” — informação ignorada pelos médiuns, depois confirmada em dicionário mitológico; caso-modelo de prova de identidade por dado externo ao saber do médium; ver homero); “Palestras familiares — Baltazar, o Espírito gastrônomo” (caso doutrinário sobre a fisiologia espiritual: o Espírito sensual sente pelo olfato o que comia em vida — “suplício maior do que pensais”); “Um espírita ao seu Espírito familiar — Estâncias” (poema espírita); “Relações afetuosas dos Espíritos” (precisão sobre o ditado de “Georges”: isolamento dos Espíritos errantes não é universal nem absoluto); “Dissertações espíritas”; ⭐ “Maria d’Agreda — Fenômeno de bicorporeidade” (caso histórico da freira espanhola que, entre 1622 e 1630, teria evangelizado os índios do Novo México em êxtase, sem deixar fisicamente o convento de Castela; confirmação posterior pelos missionários franciscanos do Pe. Alonzo de Benavides); “Aviso” (anúncio de O Espiritismo Experimental — futuro livro-dos-mediuns — para dezembro).
Dezembro”Aos assinantes da Revista Espírita” (balanço editorial do triênio); “Boletim”; ⭐ “Arte pagã, arte cristã, arte espírita” (Alfred de Musset comunicante: “a arte pagã é o verme; a arte cristã é o casulo; a arte espírita será a borboleta”; mapeamento dos campos temáticos abertos à futura arte espírita); ⭐ “História do maravilhoso (pelo Sr. Louis Figuier)” (refutação do quarto volume de Figuier sobre mesas girantes e médiuns; demolição da teoria da hipnose-sugestão como causa única; nota sobre o desconhecimento histórico do autor — Tertuliano, chineses, sânscritos); “Palestras familiares de além-túmulo”; “Dissertações espíritas”.

Linhas-de-força do volume

1. Ano da 2ª edição definitiva de O Livro dos Espíritos

O “Aviso sobre a 2ª edição” publicado em mar/1860 anuncia o lançamento da edição definitiva — “completamente refundida” — que é a base canônica de circulação daí em diante e o ponto de assentamento sobre o qual O Livro dos Médiuns (1861) será construído. A 1ª edição (18/04/1857) tinha 501 questões; a 2ª edição (1860) tem 1.019, com a estrutura tripartite (Causas Primárias / Mundo Espírita ou Mundo dos Espíritos / Leis Morais) consolidada e o Prolegômenos ampliado. Toda a fase de laboratório aberto da Revista desde jan/1858 alimenta diretamente esta edição: a escala espírita (RE fev/1858 → LE q. 100–113), a doutrina da pluralidade das existências (RE nov/1858 → LE Parte 4), os agêneres e a pneumatografia (RE fev e ago/1859 → comentários nos itens correspondentes), os mundos intermediários ou transitórios (RE mai/1859 → LE q. 175–188).

2. Estudos pioneiros do desprendimento em vida

Em jan/1860 Kardec evoca pela primeira vez de forma programada o Espírito de uma pessoa viva: o Conde de R… C… (capitão da marinha imperial), que ele próprio se ofereceu para a experiência, “pondo-se à vossa disposição para um ensaio desse gênero” enquanto retido em casa por gota. Em duas sessões (25/11 e 02/12/1859), com o corpo dormindo em casa, o Espírito do Conde dialoga com a SPEE confirmando a fenomenologia: “Neste momento o corpo me é simples acessório. Sou Eu que aqui estou”. Em fev/1860 repete-se a experiência com o Dr. Vignal, sócio titular (sessão de 03/02/1860) — confirmação independente.

Esses dois casos são base empírica direta da doutrina da emancipação da alma que entrará em LM, 2ª parte, cap. VIII (“Da bicorporeidade e da transfiguração”). O Dr. Vignal será evocado de novo em mar/1865, depois de morto, e estabelecerá explicitamente o contraste: “antes a matéria me apertava com rede inflexível; agora estou livre” (C&I, 2ª parte, cap. II) — ver doutor-vignal.

3. Os pré-adamitas — matriz da doutrina da raça adâmica

A resposta a leitor anônimo que estranha a tese de homens anteriores a Adão (mar/1860, “Os pré-adamitas”) fixa oito anos antes do Pentateuco a posição que entrará em genese cap. XI:

“Para nós é evidente que as raças primitivas da Terra provêm de origens diferentes. Qual é o princípio? Eis a questão, e até provas concretas, não é permitido a respeito fazer mais do que conjecturas. […] Adão, que viveu há 6000 anos, como tendo povoado uma região ainda desabitada.” (RE, mar/1860, “Os pré-adamitas”)

O argumento é articulado em três tempos: (a) a Bíblia é texto figurado que admite interpretação, como já se admitiu no caso da rotação da Terra e dos seis dias da Criação; (b) a Geologia mostra o dilúvio universal anterior ao aparecimento do homem, e o cataclismo geológico distinto do dilúvio de Noé; (c) a diversidade fisiológica das raças não permite tronco único, e a cronologia bíblica (6.000 anos) é insuficiente. Material que a Gênese (1868) consagra. Ver raca-adamica.

4. Teoria da Incrustação Planetária — caso-modelo da prudência kardequiana

A carta do Sr. Jobard (de Bruxelas) publicada em abr/1860 propõe uma cosmologia em que a Terra teria sido formada pela fusão de quatro planetas (Ásia, África, Europa, América), cada um trazendo raça humana já constituída — “a Lua persistiu em sua autonomia, porque os globos também possuem o livre-arbítrio”. Vários médiuns desconhecidos uns dos outros teriam transmitido versões da teoria.

Kardec não a aceita e usa o caso para fixar o princípio metodológico mais explícito do volume sobre os limites da autoridade dos Espíritos em matéria científica:

“Não basta ser Espírito para possuir a ciência universal, pois assim a morte nos faria quase iguais a Deus. […] No mundo dos Espíritos, são encontradas todas as variedades morais e intelectuais existentes entre os homens, e outras mais. […] Há, ainda, os meio sábios, os falsos sábios, os presunçosos, os sistemáticos e até os hipócritas. […] Para melhor enganar, não receiam enfeitar-se com os mais respeitáveis nomes.” (RE, abr/1860, “Formação da Terra — Teoria da incrustação planetária”)

A regra é assentada: “fora da moral, que não pode ter duas interpretações, não devem ser aceitas teorias científicas dos Espíritos, senão com muitas reservas”. O artigo introduz, separadamente, o conceito de alma da Terra (Espírito diretor de mundo, “de uma ordem superior, e tanto mais elevado quanto mais adiantado for o mundo”) — esse Kardec admite. Material que entrará em LM, 2ª parte, cap. XX–XXIV. Ver incrustacao-planetaria.

5. Os Espíritos glóbulos — antiespiritualismo crédulo

Em fev/1860 Kardec dedica artigo integral a refutar uma ilusão fisiológica: pequenos discos irisados flutuantes vistos em sessões e tomados por Espíritos. A análise é precisa — pontos opacos do humor aquoso em suspensão, cuja mobilidade “nunca se afasta de um certo ângulo” porque a sede da aparência “está em nós, e não fora de nós”. A regra fixada vale para toda a metodologia espírita ulterior:

“Enquanto um efeito não for inteligente por si mesmo e independente da inteligência dos homens, devemos examiná-lo duas vezes antes de atribuí-lo aos Espíritos.” (RE, fev/1860, “Os Espíritos glóbulos”)

Esse princípio — inteligência efetiva e independente como critério único de presença espiritual — entra em LM, 2ª parte, cap. X, item 133, como definição de “manifestação inteligente”.

6. Doutrina da alma dos animais — Charlet + “Exame crítico”

Em jul/1860 o Espírito de Charlet (Nicolas-Toussaint Charlet, 1792–1845, caricaturista francês das litografias napoleônicas) ditou em sessões da SPEE oito dissertações longas sobre a inteligência, o senso moral e o progresso do princípio inteligente animal. Tese central: “Tudo o que vive, pensa, logo, não se pode viver sem pensar” (referindo-se à vida animal); o animal tem instintos morais em germe, sente gratidão e arrependimento, e progride dentro de seu reino. Charlet correlaciona o aperfeiçoamento moral dos animais com o aperfeiçoamento moral do homem — em mundos superiores como Júpiter, os animais são “de tal modo superiores que a mais rigorosa ordem lhes é dada pela palavra” (cf. charlet).

Kardec acompanha as oito dissertações com o “Exame crítico das dissertações de Charlet sobre animais” — modelo do controle universal do ensino dos Espíritos aplicado em tempo real ao próprio Espírito comunicante, mesmo quando o teor é elogiável. O princípio doutrinário decisivo é fixado: entre animal e homem há “solução de continuidade”:

“É certo que se nota uma gradação contínua na série animal; mas entre o animal e o homem há uma solução de continuidade. […] Nenhum homem é a encarnação do espírito de um animal.” (RE, jul/1860, “A frenologia e a fisiognomia”)

Material que entrará em LE q. 597–613 (2ª edição, 1860) e Gênese cap. III. Ver alma-dos-animais.

7. Polêmica com Louis Figuier — matriz de Gênese caps. XIII–XV

A Histoire du merveilleux dans les temps modernes de Louis Figuier (1819–1894, cientista materialista francês) é publicada em 1860 em quatro volumes — “o cunho da última palavra da Ciência contra esta doutrina”, segundo a imprensa do tempo. Kardec dedica três artigos longos à refutação:

  • “O maravilhoso e o sobrenatural” (set/1860) — artigo programático que recusa as duas categorias como aplicáveis aos fenômenos espíritas. Tese central:

“Para nós nada há de sobrenatural. […] O milagre não se explica; os fenômenos espíritas, ao contrário, se explicam da maneira mais racional. […] A partir do momento que um fato se repete, por assim dizer, à vontade, e por intermédio de diversas pessoas, não pode ser um milagre.” (RE, set/1860)

  • “História do maravilhoso e do sobrenatural — Por Louis Figuier” (set/1860) — resenha-refutação do prefácio e dos dois primeiros volumes; identifica o ponto de partida ateísta: “Dizer que é por uma instintiva e injustificada desconfiança em suas próprias forças que o homem é levado a colocar acima de si forças invisíveis […] não é apenas materialismo, mas ateísmo”.

  • “História do maravilhoso (pelo Sr. Louis Figuier)” (dez/1860) — refutação do quarto volume; demolição da teoria da hipnose-sugestão como causa única dos fenômenos das mesas; nota sobre o desconhecimento histórico do autor (“como ignora o Sr. Figuier que Tertuliano fala em termos explícitos das mesas girantes e falantes? Que os chineses conheciam esse fenômeno desde tempos imemoriais?”).

A posição do volume é matriz de genese caps. XIII–XV (Os fluidos / Os milagres / Os fluidos espíritas). Ver maravilhoso-e-sobrenatural e louis-figuier.

8. Viagem a Lyon e Banquete de 19 de setembro de 1860

A primeira grande viagem doutrinária de Kardec ocorre em setembro de 1860, com etapa principal em Lyon. Em 19/09 os espíritas lioneses oferecem-lhe banquete de homenagem cuja resposta de Kardec é um dos textos mais importantes do volume. Três pontos doutrinários decisivos:

  1. Três categorias de espíritas. “Os primeiros se limitam a acreditar na realidade das manifestações […] Os segundos veem mais do que os fatos. Compreendem o seu alcance filosófico […] mas não a praticam. Os terceiros, enfim, não se contentam em admirar a moral: praticam-na e aceitam todas as suas consequências. […] Estes são os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas cristãos.” Estabelecimento da categoria espírita cristão como ideal regulador.

  2. Pequenos grupos como modelo organizacional. Recomendação programática contra a tentação da grande sociedade: “Sabe-se que as melhores comunicações são obtidas em reuniões pouco numerosas, nas quais reina a harmonia e uma comunhão de sentimentos. […] Vinte grupos de dez pessoas, por exemplo, inquestionavelmente obterão mais, e farão mais prosélitos do que uma reunião única de duzentas pessoas.” Material que estrutura LM, 2ª parte, cap. XXIX (Das reuniões espíritas) e a Constituição do Espiritismo de 1868.

  3. Profecia “Paris é o cérebro, Lyon será o coração”. Resposta espontânea recebida na própria viagem: “Por que admirar-te? Lyon foi a cidade dos mártires. A fé aqui é viva. Ela fornecerá apóstolos ao Espiritismo. Se Paris é o cérebro, Lyon será o coração.”

Imediatamente antes, a resposta à Gazette de Lyon (out/1860) refuta artigo zombeteiro do crítico “C.M.” que ridicularizara operários espíritas lioneses. Kardec firma a defesa social: “esqueceis que Jesus era operário […] Por que Jesus escolheu seus apóstolos entre o povo, e não entre os homens de letras?” — argumento que prepara a aliança Espiritismo + classes laboriosas que dominará o discurso de Lyon na década seguinte.

9. Maria d’Agreda — bicorporeidade como ponte com a tradição religiosa

Em nov/1860 Kardec publica o caso histórico de María de Jesús de Ágreda (1602–1665), franciscana espanhola que, entre 1622 e 1630, em mais de 500 êxtases, teria evangelizado os índios do Novo México sem deixar fisicamente o convento da Imaculada Conceição em Castela. O caso é confirmado pelos missionários franciscanos do Pe. Alonzo de Benavides, que encontraram tribos já cristianizadas relatando uma “mulher de hábitos religiosos” pregadora; o Geral da Ordem identifica essa mulher na figura de Maria d’Agreda; Benavides viaja a Madri e a Agreda em 1630 para verificar pessoalmente. A própria Maria d’Agreda nunca afirmou translocação corporal e tendia a pensar que tudo se passava em espírito; seu confessor, ao contrário, sustentava translocação corporal pelas marcas físicas (mudança de clima, fadiga real, conhecimento topográfico preciso).

Kardec usa o caso como ponte explícita entre a fenomenologia espírita (LM cap. VII) e a hagiografia católica: “para certas pessoas as crenças religiosas não são mais autoridade que as crenças espíritas, mas quando essas crenças se apoiarem nas demonstrações dadas pelo Espiritismo e nas provas patentes de sua possibilidade […], há que render-se à evidência”. Material que sustenta o tratamento do tema bicorporeidade em livro-dos-mediuns cap. VII. Ver bicorporeidade e maria-dagreda.

10. O trapeiro da Rue des Noyers — caso-paradigma da manifestação física espontânea

Em ago/1860 Kardec analisa o caso célebre da Rue des Noyers, em Paris: na casa do Sr. Lesage (ecônomo do Palácio da Justiça), projéteis (carvões, pedaços de tições, pesos) eram lançados por agente invisível, ferindo a criada e os agentes de polícia postos em vigia. O caso obrigou a rescisão do contrato e inspirou ofensiva jornalística no jornal Le Droit (26/06/1860) que foi processado pelo Sr. Lerible (vítima de caso paralelo na Rua des Grès, 1849).

Evocado pela SPEE em 29/06/1860, o Espírito perturbador identifica-se: “Há bem uns cinquenta anos. Não era grande coisa. Catava molambos pelo bairro, e diziam-me tolices, porque gostava muito do licor vermelho do bom Noé.” Chama-se Jeannet. Confirma o uso de uma criada da casa como médium auxiliar inconsciente: “Eu me servi da natureza elétrica daquela moça, adicionada à minha, menos material. Assim pudemos juntos transportar aqueles diversos materiais.” Pediu prece após a evocação.

Caso-modelo da teoria que entra em LM, 2ª parte, cap. V (Das manifestações físicas espontâneas): Espírito perturbador + médium auxiliar inconsciente. Ver jeannet-trapeiro e manifestacoes-espiritas.

11. Concordância espírita e cristã — Dr. Grand-Boulogne

A carta do Dr. Grand-Boulogne, antigo vice-cônsul da França, à SPEE em ago/1860 sintetiza em 19 proposições uma profissão de fé que articula dogma cristão e doutrina espírita. Pontos centrais: Decálogo + Mateus 22 = leis morais; livre-arbítrio = condição do pecado e da virtude; expiação = lei reparadora da harmonia universal; encarnação dos Espíritos = condição necessária das grandes virtudes (“sem o sofrimento não há caridade; sem o perigo não há coragem; sem a desgraça não há devotamento”); caridade > saber.

A carta é publicada como brochura autônoma em set/1860 sob o título Carta de um católico sobre o Espiritismo e resenhada em nov/1860. Modelo de catolicismo + espiritismo coerentes que Kardec promove ativamente, antecipando a tensão eclesiástica da década seguinte:

“O Espiritismo bem compreendido é a salvaguarda das ideias verdadeiramente religiosas que se extinguem; […] não está longe o tempo de os homens compreenderem que nesta doutrina encontrarão o mais fecundo elemento da ordem, do bem-estar e da prosperidade dos povos.” (RE, ago/1860, observação à carta)

12. Homero — prova de identidade pelo apelido “Melesígeno”

Em nov/1860 dois médiuns ignorados de Sens, em comunicação espontânea, recebem ditado assinado por Homero. O ditado, em si, “sem ter nada de muito saliente relativamente às ideias”, contém uma frase reveladora: “Passei a juventude entre os caniços do Mélès; banhei-me e embalei-me muitas vezes em suas ondas. Por isso, na minha juventude, eu era chamado Melesígeno.” Os médiuns desconheciam o termo. Kardec, surpreso, “encontramo-lo depois no dicionário mitológico” — Melesígeno (do rio Mélès, em Esmirna) é apelido tradicional do poeta grego.

Caso-modelo de prova de identidade por revelação espontânea de informação ignorada pelo médium:

“Suponhamos que aquele que mais protesta contra o que chama capricho ou má vontade do Espírito, se apresente numa casa declinando o seu nome. Que faria, se o acolhessem e lhe pedissem à queima-roupa que provasse ser ele mesmo? Voltaria as costas. É o que fazem os Espíritos. […] As provas de identidade dadas espontaneamente pelos Espíritos são sempre as melhores.” (RE, nov/1860, “Homero”)

Material que entra em LM, 2ª parte, cap. XXIV (Da identidade dos Espíritos). Ver homero.

A Sociedade Parisiense em 1860 — operação consolidada

Em julho/1860 a SPEE muda do Palais-Royal (rue Montpensier, 12) para a rue Sainte-Anne, 59 — mesmo endereço onde Kardec passa a residir, integrando trabalho doutrinário e vida doméstica. As sessões dividem-se formalmente em gerais (com ouvintes não-sócios) e particulares (apenas membros) por novo regulamento adotado em jun/1860. A Sociedade em 1860 começa a receber regularmente correspondentes de Lyon, Bordeaux, Bruxelas, São Petersburgo, Sens, Bordéus, Plessis-Bloudet, Hennebon — rede internacional crescente.

Comunicantes recorrentes

  • sao-luis — orientador habitual; responde sobre Espíritos glóbulos, sobre o caso de Castelnaudary, sobre o Espírito perturbador da Rue des Noyers, sobre o estudo do Espírito vivo (Conde de R… C… e Dr. Vignal).
  • charlet — Espírito autor das oito dissertações sobre os animais (jul–ago/1860).
  • Santo Agostinho — comunicante espontâneo em ditados sobre o despertar do Espírito.
  • conde-de-r-c — Espírito vivo evocado em jan/1860.
  • doutor-vignal — Espírito vivo evocado em fev/1860.
  • homero — comunicação espontânea via dois médiuns de Sens em nov/1860.
  • jeannet-trapeiro — Espírito perturbador da Rue des Noyers, evocado em jun/1860.
  • francois-paris — evocação adicional em jun/1860 (a “grande Françoise” se retrata sobre o diácono).
  • Charles Nodier — comunicante recorrente em ditados (out/1860).
  • Lamennais — comunicante recorrente em ditados sobre o desespero, a fatalidade.
  • Alfred de Musset — comunicante recorrente em ditados literários e sobre arte espírita.
  • Delphine de Girardin — autora do ditado “Primeiras impressões de um Espírito” (mai/1860) e do “Despertar do Espírito” / “O isolamento dos Espíritos errantes”.
  • Vauvenargues — pensamentos morais em jun/1860.
  • Carlos Nodier, Sócrates, Espírito Georges (familiar) — autores de ditados espontâneos diversos.
  • Espírito de Castelnaudary — Espírito sofredor e violento progressivamente convertido pela prece (fev–mar/1860); ver espirito-de-castelnaudary.

Conceitos tratados

Personalidades citadas

  • allan-kardec — diretor; viagem a Lyon (set/1860); banquete de 19/09/1860.
  • sao-luis — orientador habitual.
  • charlet — autor das oito dissertações sobre os animais (jul–ago/1860); primeira aparição doutrinária.
  • desiree-godu — médium curadora de Hennebon; primeira aparição doutrinária.
  • dr-morhery — médico que controlou clinicamente as curas de Désirée Godu.
  • maria-dagreda — freira espanhola; caso histórico de bicorporeidade.
  • homero — primeira evocação; prova de identidade pelo apelido Melesígeno.
  • louis-figuier — adversário; autor de História do Maravilhoso e do Sobrenatural.
  • conde-de-r-c — primeiro voluntário para estudo do Espírito de pessoa viva.
  • jeannet-trapeiro — Espírito perturbador da Rue des Noyers.
  • sr-jobard — autor da carta sobre a teoria da incrustação planetária (abr/1860); membro correspondente de Bruxelas.
  • doutor-vignal — segundo voluntário para estudo do Espírito de pessoa viva (fev/1860).
  • francois-paris — caso retomado em jun/1860 (a “grande Françoise” se retrata).
  • Dr. Grand-Boulogne — antigo vice-cônsul; autor da Carta de um católico sobre o Espiritismo.
  • Pe. Alonzo de Benavides — superior franciscano que verificou o caso Maria d’Agreda em 1630.
  • Sr. Lesage, ecônomo do Palácio da Justiça; Sr. Lerible, vítima do caso paralelo da Rua des Grès (1849); Sra. Goubert, padeiro de Dieppe — testemunhas de manifestações físicas espontâneas.
  • Dr. Broca, Dr. Velpeau, Dr. Follin — cirurgiões da Academia de Ciências de Paris que reconhecem o hipnotismo via Dr. Braid (jan/1860).
  • Pe. Bresciani — jesuíta italiano, autor de A condessa Matilde de Canossa; demonologia tradicional refutada por Kardec (fev/1860).
  • C.M. — autor anônimo do artigo zombeteiro da Gazette de Lyon (02/08/1860), refutado por Kardec.

Divergências

Nenhuma com o Pentateuco. A Revista é redigida pelo próprio codificador (nível 2 da hierarquia de autoridade). A teoria da Incrustação Planetária (Sr. Jobard) não constitui divergência kardec×complementar — é hipótese de Espíritos transmitida por Jobard (encarnado), explicitamente rejeitada por Kardec na própria Revista. As dissertações de Charlet sobre os animais idem — Kardec aplica em tempo real o controle universal via “Exame crítico”, retificando os pontos onde o Espírito ultrapassa o que a observação confirma. Ambos os casos são tratados como exemplos metodológicos do princípio de discernimento-dos-espiritos, não como divergências doutrinárias registradas.

Fontes

  • KARDEC, Allan. Revue Spirite — Journal d’Études Psychologiques, ano 1860. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1860.
  • Edição brasileira: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1860. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Edicel.
  • Edição FEB: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1860. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
  • Disponível online: Kardecpédia — Revista Espírita 1860.
  • Edição local: 1860 (86 artigos integrais baixados da Kardecpédia).