O Livro dos Espíritos

Primeira obra da codificação kardequiana e marco fundador do Espiritismo. Publicado em Paris em 18 de abril de 1857 por Allan Kardec, apresenta os princípios da Doutrina Espírita em forma de 1.019 perguntas feitas aos Espíritos, com respostas por eles ditadas e comentários do codificador.

“Os princípios da doutrina espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da humanidade — segundo os ensinos dados por Espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns.” — subtítulo da obra.

Dados bibliográficos

  • Autor: Allan Kardec (Hippolyte Léon Denizard Rivail)
  • Publicação original: 18 de abril de 1857 (1ª edição), Paris.
  • 2ª edição (definitiva): 1860, Paris — reorganizada e ampliada; é a edição de referência. Kardec fundiu a parte suplementar ao corpo principal e conferiu “à distribuição das matérias uma ordem bem mais metódica” (LE, Nota sobre esta nova edição).
  • Tradução usada nesta wiki: Guillon Ribeiro (FEB).
  • Texto integral: livro-dos-espiritos
  • Nível na hierarquia de autoridade: 1 — Pentateuco (autoridade normativa máxima).

Estrutura

A obra contém 1.019 questões organizadas em 4 partes e 29 capítulos, precedidas por Introdução e Prolegômenos e encerradas por Conclusão.

Introdução ao estudo da doutrina espírita (itens I–XVII)

Texto de Kardec que prepara o leitor para a obra. Pontos principais:

  • I — Definição dos termos espírita e espiritismo, distintos de espiritualista e espiritualismo: “a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível” (LE, Introdução, item I).
  • II — Distinção tríplice da palavra alma: alma vital (princípio da vida orgânica), alma intelectual (princípio da inteligência) e alma espírita (ser imaterial individual que sobrevive ao corpo) (LE, Introdução, item II).
  • III–IV — Histórico das manifestações: mesas girantes, pancadas, escrita mediúnica com cesta/prancheta e, depois, escrita direta pela mão do médium.
  • V–VIII — Natureza e identidade dos Espíritos comunicantes; papel do médium; objeções e respostas.
  • IX–XVII — Método de estudo: observação séria, distinção entre Espíritos superiores e inferiores, concordância universal dos ensinos, o papel do livre-arbítrio dos Espíritos e a necessidade de discernimento.

Prolegômenos

Texto ditado pelos Espíritos reveladores, apresentando a missão do livro: “Nele pusemos as bases do novo edifício que se eleva e que um dia há de reunir todos os homens num mesmo sentimento de amor e caridade” (LE, Prolegômenos). Assinado por São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, O Espírito de Verdade, Sócrates, Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg, entre outros.

Parte Primeira — Das causas primárias (q. 1–75)

Origem e natureza da realidade: Deus, os elementos do Universo, a criação e o princípio vital.

Cap.TítuloQuestões
IDe Deus1–16
IIDos elementos gerais do Universo17–36
IIIDa criação37–59
IVDo princípio vital60–75

Destaques:

  • Deus como “a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” (LE, q. 1).
  • Três elementos gerais do universo: Deus, espírito e matéria (LE, q. 27).
  • Matéria como “o laço que prende o espírito”, o instrumento de que ele se serve e sobre o qual exerce ação (LE, q. 22).
  • Princípio vital: fluido vital distinto do princípio inteligente, intermediário entre espírito e matéria (LE, q. 65).
  • Inteligência vs. instinto: “O instinto é uma espécie de inteligência. É uma inteligência sem raciocínio” (LE, q. 73).
  • Pluralidade dos mundos habitados: “o homem terreno está longe de ser o primeiro em inteligência, em bondade e em perfeição” (LE, q. 55).
  • Considerações bíblicas sobre Adão, o dilúvio e a diversidade das raças (LE, q. 59, comentário).

Parte Segunda — Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos (q. 76–613)

Natureza dos Espíritos, encarnação, morte, reencarnação, vida espiritual, relações com os encarnados.

Cap.TítuloQuestões
IDos Espíritos76–131
IIDa encarnação dos Espíritos132–148
IIIDa volta do Espírito, extinta a vida corpórea, à vida espiritual149–165
IVDa pluralidade das existências166–222
VConsiderações sobre a pluralidade das existências(ensaio de Kardec)
VIDa vida espírita223–329
VIIDa volta do Espírito à vida corporal330–399
VIIIDa emancipação da alma400–455
IXDa intervenção dos Espíritos no mundo corporal456–557
XDas ocupações e missões dos Espíritos558–584
XIDos três reinos585–613

Destaques:

  • “Os Espíritos são os seres inteligentes da criação. Povoam o universo, fora o mundo material” (LE, q. 76).
  • Criação permanente dos Espíritos: “Deus jamais deixou de criar” (LE, q. 80).
  • Perispírito: envoltório semimaterial do Espírito, elo entre alma e corpo (LE, q. 93).
  • Escala espírita: três ordens — impuros, bons e puros (LE, q. 100–113).
  • Objetivo da encarnação: “Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição” (LE, q. 132).
  • Esquecimento do passado como condição da encarnação (LE, q. 392–399).
  • Emancipação da alma: sono, sonhos, sonambulismo, êxtase, dupla vista (LE, q. 400–455).
  • Intervenção dos Espíritos: influência oculta, possessão, convulsionários, afeição dos Espíritos (LE, q. 456–557).
  • Progressão dos três reinos: mineral → vegetal → animal → homem, com o princípio inteligente individualizando-se progressivamente (LE, q. 585–613).

Parte Terceira — Das leis morais (q. 614–919)

A lei natural e suas dez divisões, culminando na perfeição moral.

Cap.TítuloQuestõesPágina wiki
IDa lei divina ou natural614–648lei-natural
II1. Lei de adoração649–673lei-de-adoracao
III2. Lei do trabalho674–685lei-do-trabalho
IV3. Lei de reprodução686–701lei-de-reproducao
V4. Lei de conservação702–727lei-de-conservacao
VI5. Lei de destruição728–765lei-de-destruicao
VII6. Lei de sociedade766–775lei-de-sociedade
VIII7. Lei do progresso776–802lei-do-progresso
IX8. Lei de igualdade803–824lei-de-igualdade
X9. Lei de liberdade825–872lei-de-liberdade
XI10. Lei de justiça, de amor e de caridade873–892lei-de-justica-amor-e-caridade
XIIDa perfeição moral893–919perfeicao-moral

Destaques:

  • Lei natural como lei de Deus, inscrita na consciência: “A lei de Deus está escrita na consciência” (LE, q. 621).
  • Jesus como “tipo da perfeição moral a que a humanidade pode aspirar na Terra” (LE, q. 625).
  • Livre-arbítrio e fatalidade: “Não há fatalidade nos atos da vida moral” (LE, q. 866).
  • Egoísmo como “a chaga da sociedade” (LE, q. 913).

Parte Quarta — Das esperanças e consolações (q. 920–1.019)

Penas e gozos no presente e no porvir; suicídio, expiação, arrependimento; paraíso, inferno e purgatório como alegorias.

Cap.TítuloQuestões
IDas penas e gozos terrestres920–957
IIDas penas e gozos futuros958–1.019

Destaques:

  • Felicidade relativa e resignação: “O homem pode ser feliz na Terra?” — “Não, mas pode gozar de certa soma de felicidade relativa” (LE, q. 920–921, paráfrase).
  • Suicídio: sempre uma falta; “o desapontamento” é consequência inevitável (LE, q. 957).
  • Penas e gozos futuros são morais, não materiais: “mil vezes mais vivos do que os que experimentais na Terra, porque o Espírito, uma vez liberto, é mais impressionável” (LE, q. 965).
  • Eternidade das penas rejeitada: “Deus não criou seres tendo por destino permanecerem votados perpetuamente ao mal” (LE, q. 1006).
  • Ressurreição da carne como alegoria da reencarnação (LE, q. 1010).
  • Paraíso, inferno e purgatório: “simples alegorias” — “trazemos em nós mesmos o nosso inferno e o nosso paraíso” (LE, q. 1012, comentário).
  • Questão final — o reinado do bem na Terra virá “quando, entre os Espíritos que a vêm habitar, os bons predominarem” (LE, q. 1019).

Conclusão (itens I–IX)

Texto de Kardec sintetizando os resultados da obra e respondendo a objeções:

  • I — Da mesa girante saiu “toda uma ciência, assim como a solução dos problemas que nenhuma filosofia pudera ainda resolver” (LE, Conclusão, item I).
  • II — O Espiritismo como antagonista do materialismo; os fenômenos espíritas “resultam de leis gerais” e não são sobrenaturais.
  • III — Espiritismo reaviva a fé no futuro e oferece base à justiça e à caridade.
  • IV — Progresso da humanidade fundado na lei de justiça, amor e caridade.
  • V–VI — Força e expansão do Espiritismo como prova de seu fundo de verdade.
  • VII — Tríplice aspecto do Espiritismo: ciência experimental, filosofia e moral.
  • VIII — O Espiritismo não traz moral diferente da de Jesus, mas vem lembrá-la e torná-la compreensível.
  • IX — Divergências iniciais são naturais; a unidade se produzirá “do lado em que o bem jamais esteve de mistura com o mal” (LE, Conclusão, item IX).

Temas centrais

Como citar

Formato padrão desta wiki:

  • Questão: (LE, q. 150)
  • Questão com subitem: (LE, q. 150, letra a)
  • Comentário de Kardec após resposta: (LE, q. 150, comentário)
  • Introdução: (LE, Introdução, item IV)
  • Prolegômenos: (LE, Prolegômenos)
  • Conclusão: (LE, Conclusão, item VII)

Entidades relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. [Edição em raw/kardec/pentateuco/livro-dos-espiritos.md]