Emancipação da alma
Libertação parcial do Espírito encarnado em relação ao corpo, que ocorre durante o sono, o sonambulismo, a letargia, a catalepsia e o êxtase. Permite ao Espírito recuperar faculdades que a encarnação limita.
Ensino de Kardec
O sono e os sonhos
Durante o sono, “afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos” (LE, q. 401).
O sono é comparado à morte: “O sono liberta a alma parcialmente do corpo. Quando dorme, o homem se acha por algum tempo no estado em que fica permanentemente depois que morre” (LE, q. 402). “O sono é a porta que Deus lhes abriu, para que possam ir ter com seus amigos do céu; é o recreio depois do trabalho” (LE, q. 402).
Os sonhos são “efeito da emancipação da alma, que mais independente se torna pela suspensão da vida ativa e de relação. Daí uma espécie de clarividência indefinida que se alonga até aos mais afastados lugares e até mesmo a outros mundos” (LE, q. 402, comentário). A incoerência dos sonhos se explica pelas lacunas da recordação incompleta (LE, q. 402, comentário).
Visitas espíritas entre vivos
Pessoas que se conhecem podem encontrar-se durante o sono: “é tão habitual o fato de irdes encontrar-vos, durante o sono, com amigos e parentes […] que quase todas as noites fazeis essas visitas” (LE, q. 414). A utilidade dessas visitas reside na intuição que delas se guarda ao despertar (LE, q. 415).
Transmissão oculta do pensamento
Ideias que surgem simultaneamente em vários pontos do mundo se explicam pela comunicação entre Espíritos durante o sono: “Quando dizeis que uma ideia paira no ar, usais de uma figura mais exata do que supondes” (LE, q. 419).
Sonambulismo
Estado de independência da alma “mais completo do que o do sonho” (LE, q. 425). No sonambulismo magnético, o fluido vital (eletricidade animalizada) é o agente (LE, q. 427).
Letargia e catalepsia
Na letargia, “o corpo não está morto, porquanto há funções que continuam a executar-se. Sua vitalidade se encontra em estado latente” (LE, q. 423). O magnetismo pode restituir o fluido vital e reatar laços prestes a se desfazer (LE, q. 424).
Êxtase e dupla vista
O êxtase é um grau mais avançado de emancipação, em que a alma contempla realidades do mundo espiritual. A dupla vista é uma faculdade de percepção além dos sentidos corporais, ligada à emancipação parcial (LE, q. 447–455).
No Livro dos Médiuns
O LM vincula a emancipação da alma à mediunidade:
- O sonambulismo mediúnico é estado de independência mais completo que o sonho comum e permite comunicações de alta qualidade (LM, 2ª parte, cap. XIV, item 172; cap. XVI, item 190).
- A evocação de pessoas vivas é possível porque, durante o sono, “o Espírito pode emancipar-se e comunicar-se” (LM, 2ª parte, cap. XIX, item 223, 2ª; cap. XXV).
- O Espírito do médium pode, durante o exercício mediúnico, entrar em estado análogo à emancipação: “A alma do médium pode comunicar-se, como a de qualquer outro” (LM, 2ª parte, cap. XIX, item 223, 2ª).
- Os médiuns extáticos recebem revelações em estado de êxtase, mas “muitos são joguetes da própria imaginação e de Espíritos zombeteiros” — “são raríssimos os que mereçam inteira confiança” (LM, 2ª parte, cap. XVI, item 190).
Tipologia do sonho — Yvonne Pereira (À Luz do Consolador)
Na crônica Sonhos… de [[wiki/obras/a-luz-do-consolador|À Luz do Consolador]], Yvonne Pereira parte de LE, q. 400–402 para distinguir, na prática, três registros do sonhar — útil para responder a consulentes que confundem pesadelo, intuição e revelação:
- Sonhos fisiológicos — reflexos da vida cotidiana e de estados nervosos/digestivos; ocorrem sobretudo no primeiro sono, embaralhados, sem emancipação real.
- Sonhos magnéticos — transes provocados pela ação sugestiva dos instrutores espirituais (que operam pelo magnetismo), em que a emancipação é mais pronunciada; comuns nos médiuns, trazem instruções, avisos e planos por vezes confirmados depois.
- Mediunidade pelo sonho (mediunidade onírica) — revelação ou contemplação de fatos do Além durante a emancipação; a Medicina os reduz a “onirismo”, mas trata-se de faculdade real, “sobre a qual a Bíblia tanto informa”.
Yvonne acrescenta a contrapartida moral: durante a mesma emancipação pode-se “resvalar para ambientes sórdidos”, da Terra ou do Invisível, conforme o estado mental e vibratório — daí o convite a “orar e vigiar” antes do repouso, leitura prática de LE, q. 402 (“o sono é o recreio depois do trabalho”).
Aplicação prática
A compreensão da emancipação da alma fundamenta a atitude espírita diante do sono (preparar-se moralmente para o repouso), da mediunidade sonambúlica e dos fenômenos de pressentimento e intuição. Explica também por que o sono restaura não apenas o corpo, mas o Espírito — que vai “retemperar-se na fonte do bem” (LE, q. 402).
Páginas relacionadas
- vida-espirita — estado permanente do Espírito desencarnado
- morte — libertação definitiva vs. parcial
- perispirito — veículo do Espírito na emancipação
- livre-arbitrio — o Espírito emancipado pode não obedecer à vontade do corpo
- mediunidade — sonambulismo mediúnico como forma de emancipação
- evocacao — evocaç��o de vivos depende da emancipação
- livro-dos-espiritos — Parte 2, cap. VIII
- livro-dos-mediuns — caps. XIV, XVI, XIX, XXV
Nas Obras Póstumas
Na seção sobre emancipação da alma (OPE, “Manifestações dos Espíritos”, §IV), Kardec retoma o tema reforçando que o Espírito pode se libertar parcialmente durante a vida e manifestar faculdades que a encarnação normalmente limita. As seções sobre clarividência sonambúlica (OPE, “Causa e natureza da clarividência sonambúlica”) e segunda vista (OPE, “A segunda vista”) aprofundam os fenômenos de lucidez e previsão como consequências da emancipação.
Fontes
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Parte 2, cap. VIII — “Da emancipação da alma”, q. 400–455.
- Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Caps. XIV (item 172), XVI (item 190), XIX (item 223), XXV.
- Kardec, Allan. Obras Póstumas, “Manifestações dos Espíritos”, §IV; “Causa e natureza da clarividência sonambúlica”; “A segunda vista”. FEB.
- PEREIRA, Yvonne do Amaral (Frederico Francisco). À Luz do Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 1997 (Sonhos…). Ver a-luz-do-consolador. Ancoragem: LE, q. 400–402.