Apolônio de Tiana
Identificação
Apolônio de Tiana (em grego: Ἀπολλώνιος ὁ Τυανεύς) — filósofo neopitagórico e taumaturgo grego. Viveu, segundo cálculos diversos, entre c. 2 a.C. e c. 98 d.C., contemporâneo do Cristo. Nasceu em Tiana, cidade grega da Capadócia, na Ásia Menor. Filho de família rica, repartiu a fortuna paterna com os parentes, ficando apenas com pequena parte. Adotou rigorosamente os preceitos de Pitágoras, que seguiu até a morte. Viajou pela Assíria, Cítia, Índia (visitou os brâmanes), Egito, Grécia, Itália e Espanha, sempre ensinando filosofia.
Sua biografia foi escrita por Filóstrato de Atenas (séc. II–III d.C.) sob encomenda da imperatriz Júlia Domna, esposa de Sétimo Severo, com base nas memórias de Damis — assírio que acompanhou Apolônio em suas viagens. A nova tradução francesa de Filóstrato pelo Sr. Chassang (Casa Didier, 1862) foi resenhada por Kardec em RE out/1862.
Papel na codificação
Apolônio é, na economia argumentativa de Kardec, personagem-chave para a recusa do milagre como prova de divindade. Aparece em três frentes da codificação:
1. Contraprova ao argumento dos milagres do Cristo
A questão é formulada em “O Espiritismo é provado por milagres?” (RE, fev/1862):
“Se a verdade só fosse provada por milagres, poderíamos perguntar por que os padres do Egito, que estavam em erro, reproduziam perante o Faraó os milagres feitos por Moisés? Por que Apolônio de Tiana, que era pagão, curava pelo toque, dava a vista aos cegos, a palavra aos mudos, predizia o futuro e via o que se passava a distância?” (RE, fev/1862)
A figura de Apolônio é mobilizada para demolir o critério taumatúrgico: se Apolônio fez prodígios análogos aos de Jesus sem ser de origem divina, então os prodígios não distinguem o Cristo. O critério da divindade da missão deve ser outro — moral e histórico, não milagroso.
2. Apolônio como médium-filósofo
O estudo biográfico de RE out/1862 rejeita as duas leituras eclesiásticas tradicionais:
- “Louco e impostor” (incrédulos cristãos).
- “Sequaz de Satã” / sob “a assistência do demônio” (apologetas católicos).
E propõe a leitura espírita: Apolônio era médium dotado de cura, dupla vista, presciência, comunicação à distância — “para nós, era dotado da segunda vista, cuja explicação é dada pelo Espiritismo” (RE, out/1862; remissão a LE q. 455 sobre sonambulismo e dupla vista) — mais filósofo de hábitos sóbrios e moral elevada.
A passagem decisiva sobre seu prodígio mais famoso (visão do assassinato de Domiciano em Roma à distância, narrada por Filóstrato):
“Naquela época nada mais era preciso para fazê-lo passar por um homem divino. Em nossos dias os cientistas tratá-lo-iam como visionário. Para nós, era dotado da segunda vista, cuja explicação é dada pelo Espiritismo.” (Kardec, RE out/1862)
A aparição pós-morte de Apolônio a um discípulo cético é tratada como manifestação real, com referência explícita a O Livro dos Médiuns cap. VI (manifestações visuais).
3. Distinção decisiva entre Apolônio e o Cristo
Kardec é cuidadoso em não estabelecer paralelo entre Apolônio e o Cristo. A passagem-chave:
“Não é agradável a Deus que estabeleçamos um paralelo entre ele [o Cristo] e o Cristo. O que prova a incontestável superioridade deste é a divindade de sua missão, é a revolução produzida no mundo inteiro pela doutrina que ele, obscuro, e seus apóstolos, tão obscuros quanto ele, pregaram, enquanto que a de Apolônio morreu com ele.” (RE, out/1862)
A superioridade do Cristo está na revolução moral universal que sua doutrina produziu, não nos prodígios. Apolônio teve discípulos imediatos e viu sua reputação espalhar-se em vida; sua doutrina, porém, “morreu com ele”. A doutrina do Cristo, ao contrário, atravessou dezoito séculos.
4. Função histórica — transição entre paganismo e Cristianismo
Kardec atribui a Apolônio uma função pedagógica de transição:
“Por sua moral preparou os pagãos, em cujo meio viveu, para receberem com menos dificuldade as ideias cristãs, para as quais ele serviu de transição. Julgamo-nos, pois, certos, dizendo que ele serviu de traço de união entre o paganismo e o Cristianismo. Sob tal aspecto, talvez tivesse sido essa a sua missão.” (RE, out/1862)
Sua censura ao culto formalista pagão (“o templo é um valhacouto de ladrões”, dirigido aos efésios do templo de Diana), suas cartas aos sacrificadores de Olímpia (“os deuses não necessitam de sacrifícios”) e sua máxima ao cônsul Telesino (“peço aos deuses que reine a justiça”) preparam moralmente o solo para a recepção da pregação cristã nos territórios pagãos.
Citações relevantes
Carta aos éforos lacedemônios:
“Os verdadeiros homens não devem cometer faltas, mas só os homens de coração, se as cometem, sabem reconhecê-lo.” (Apolônio, citado em RE out/1862)
Resposta ao cônsul Telesino sobre a prece:
“Peço aos deuses que reine a justiça; que as leis sejam respeitadas; que os sábios sejam pobres; que os outros enriqueçam, mas por meios honestos. […] Aproximando-me do altar, digo: ‘Ó deuses! Dai-me o que me é devido.‘” (Apolônio, citado em RE out/1862)
Carta a Valério sobre a morte:
“Ninguém morre, a não ser aparentemente, como ninguém nasce, a não ser em aparência. Com efeito, a passagem da essência à substância, eis o que se chama nascer. Ao contrário, o que se chama morrer é a passagem da substância à essência.” (Apolônio, citado em RE out/1862)
Aos sacrificadores de Olímpia:
“Os deuses não necessitam de sacrifícios. Que fazer, então, para lhes ser agradável? Se me não engano, é preciso procurar adquirir a divina sabedoria e, tanto quanto possível, prestar serviços aos que o merecem. Eis o de que gostam os deuses.” (Apolônio, citado em RE out/1862)
Aparição pós-morte (relatada por Filóstrato):
“A alma é imortal; não é vossa, mas da Providência. Quando o corpo está esgotado, semelhante a um corredor veloz que transpõe a barreira, a alma se atira e se precipita nos espaços etéreos, tomada de desprezo pela rude e triste escravidão que sofreu.” (Apolônio em aparição, citado em RE out/1862)
Faculdades atribuídas
Filóstrato e a tradição consignam a Apolônio:
- Cura pelo toque — incluindo cegos, mudos e epilépticos.
- Presciência — anúncio de eventos futuros.
- Visão à distância — caso paradigmático da visão do assassinato do imperador Domiciano em Roma, narrada em tempo real aos efésios em Éfeso (referido textualmente por Filóstrato e analisado por Kardec).
- Telepatia / leitura de pensamento.
- Expulsão de demônios (entendido por Kardec como ação sobre Espíritos obsessores).
- Bilocação / transporte instantâneo — fenômeno espírita análogo à bicorporeidade.
- Manifestação pós-morte — aparição visível e tangível ao discípulo de Tiana, cinco dias após a morte; texto-chave para a teoria das manifestações visuais (LM cap. VI).
Páginas relacionadas
- revista-espirita-1862 — estudo biográfico de RE out/1862; “É provado por milagres?” de RE fev/1862.
- maravilhoso-e-sobrenatural — Apolônio como caso-modelo da recusa do sobrenatural.
- identidade-dos-espiritos — manifestação pós-morte ao discípulo cético.
- bicorporeidade — fenômeno de visão à distância (caso de Domiciano).
- mediunidade — Apolônio como médium curador, vidente, falante.
Fontes
- KARDEC, Allan. “Apolônio de Tiana”. Revista Espírita, outubro de 1862. Edição local: 1862 (artigo de outubro).
- KARDEC, Allan. “O Espiritismo é provado por milagres?“. Revista Espírita, fevereiro de 1862.
- KARDEC, Allan. A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Cap. XV (“Os milagres do Evangelho”).
- FILÓSTRATO, Flávio. Vida de Apolônio de Tiana. Tradução francesa de Chassang (Paris: Didier, 1862) — referência da resenha kardequiana.