François Pâris (diácono de Saint-Médard)

Identificação

  • Nome: François Pâris (1690–1727), conhecido como “diácono Pâris” ou simplesmente “M. Pâris
  • Origem: Paris, França. Filho mais velho de um conselheiro do Parlamento; renunciou à carreira jurídica e à herança em favor do irmão para abraçar a carreira eclesiástica
  • Vida: ordenado diácono; recusou ordenação sacerdotal por humildade. Aderiu ao apelo da bula Unigenitus (1713) — recurso interposto pelos quatro bispos jansenistas contra a constituição papal que condenara 101 proposições do oratoriano Pasquier Quesnel. Renovou o apelo em 1720. Retirou-se à casa do bairro de São Marcelo, dedicando-se à prece, à penitência e à confecção de meias para os pobres. Morreu aos 37 anos no asilo
  • Obras: explicações da Epístola de São Paulo aos Romanos, da Epístola aos Gálatas, e análise da Epístola aos Hebreus — “livros muito medíocres” segundo Kardec, citando o relato

Os Convulsionários de Saint-Médard

A fama do diácono não vem de seus escritos, mas dos fenômenos ocorridos em torno de seu túmulo no pequeno cemitério de Saint-Médard (Paris) entre 1727 e 1732. Pobres a quem Pâris havia socorrido, ricos que ele havia edificado, e mulheres que havia instruído começaram a frequentar o túmulo em prece. Houve curas inexplicadas — atestadas, segundo a Notícia compilada por Pauline Roland citada por Kardec, “por milhares de testemunhas, muitas das quais são homens de Ciência, no fundo incrédulos”. E houve convulsões.

Os fenômenos célebres atribuídos aos convulsionários incluem:

  • Insensibilidade física extraordinária — pessoas em êxtase recebiam pancadas terríveis sem ferimento.
  • Glossolalia — falar línguas ignoradas ou esquecidas.
  • Discursos eruditos por ignorantes — improvisação sobre graça, fim do mundo, males da Igreja.
  • Leitura do pensamento — diagnóstico do mal de quem se aproximava.
  • Transmissão simpática de dores — o crisíaco sentia exatamente onde a pessoa consultante sofria.
  • “Grande socorro” — a partir de certo momento, a insensibilidade ao êxtase degenerou em crucificação voluntária de vítimas que pediam o suplício, em encenação da Paixão de Cristo.

A autoridade civil ordenou o fechamento do cemitério em 27 de janeiro de 1732. As convulsões migraram para casas particulares. Para muitos contemporâneos, “o túmulo do diácono Pâris foi o túmulo do jansenismo”.

Papel

Espírito evocado e desautorizado quanto ao próprio culto formado em torno de seu túmulo, em outubro de 1859 da Revista Espírita (“Os convulsionários de Saint-Médard”). A evocação é assinada por Pauline Roland (responsável pela notícia biográfica antecedente) e produz uma das interpretações kardequianas mais econômicas e cortantes da história espírita.

A função doutrinária é tripla:

  1. Releitura magnética + espírita de fenômeno pré-espírita célebre — Kardec aplica ao caso a hipótese do sonambulismo acordado mútuo (os crisíacos magnetizando-se uns aos outros inadvertidamente) acrescida da intervenção de Espíritos de baixa elevação atraídos pela exaltação coletiva.
  2. Recusa da hagiografia jansenista — o próprio diácono nega ter participado dos fenômenos. “Pensais que eu tenha sido consultado? Escolheram o meu túmulo calculadamente. Minhas opiniões religiosas, em primeiro lugar, e o pouco de bem que eu tinha procurado fazer foram explorados.”
  3. Limite do “milagre” — o caso é tratado em coerência com “Os milagres” (out/1859) e “Observações a propósito do vocábulo milagre” (nov/1859): nenhum dos fenômenos exige derrogação de leis naturais. Tudo se explica por mediunidade coletiva mal conduzida.

Citações relevantes

A evocação consiste em apenas dez perguntas. As respostas decisivas:

”— Qual foi a causa dos estranhos fenômenos que se passavam com os visitantes do vosso túmulo?
— Intriga e magnetismo.”
(RE, out/1859)

Sobre a participação direta:

”— Participastes diretamente, como Espírito?
— Nem de leve.
— Outros Espíritos participaram?
— Muitos.
— Em geral, de que natureza eram?
— Pouco elevada.”
(RE, out/1859)

Sobre o fechamento do cemitério pela autoridade civil:

”— Por que essas curas e esses fenômenos cessaram quando a autoridade se opôs, fechando o cemitério? A autoridade tinha, então, mais poder que os Espíritos?
— Deus quis fazer cessar a coisa porque havia degenerado em abuso e escândalo. Foi preciso um meio, e ele empregou a autoridade dos homens.”
(RE, out/1859)

Sobre o estado atual:

”— Qual é o vosso estado atual como Espírito?
— Errante e feliz.”
(RE, out/1859)

Observação metodológica de Kardec

“Entre as faculdades de que eram dotados os convulsionários se reconhecem, sem dificuldade, algumas das quais o sonambulismo e o magnetismo oferecem numerosos exemplos. […] Assim não se pode duvidar de que os crisíacos estivessem numa espécie de estado de sonambulismo acordado, provocado pela influência que exerciam uns sobre os outros, inadvertidamente. Eles eram, ao mesmo tempo, magnetizadores e magnetizados.” (RE, out/1859)

Continuação em 1860 — a “grande Françoise” se retrata

Em sessão da SPEE de 01/06/1860 (publicada em revista-espirita-1860, mai/1860, “Correspondência” e ago/1860 “Boletim”), uma das principais convulsionárias de Saint-Médard — a “grande Françoise”, evocada pela primeira vez em mai/1860 — pede para ser chamada de novo para retratar-se da opinião emitida sobre o diácono Pâris:

“Acusa-se de o haver caluniado, desnaturando suas intenções e pensa que a retratação feita espontaneamente poupar-lhe-á a punição que por isso merecia.” (RE, jul/1860, “Boletim” da sessão de 01/06/1860)

São Luís complementa a comunicação com informes sobre os mundos destinados ao castigo dos Espíritos culpados. O episódio mostra que a abordagem kardequiana ao caso continuou ativa em 1860, com revisão e aprofundamento dos pareceres formulados em out–dez/1859.

Obras associadas

Os comentários bíblicos do diácono Pâris (sobre Romanos, Gálatas e Hebreus) não receberam tratamento específico na codificação espírita. A figura do Espírito permanece ligada principalmente ao caso histórico, não à obra literária terrena.

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Fontes

  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, out/1859, “Os convulsionários de Saint-Médard” (notícia biográfica de Pauline Roland + evocação do diácono Pâris). Edição local: 1859.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, dez/1859, “Os convulsionários de Saint-Médard” (continuação do estudo).
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, mai/1860 e jul/1860 (sessão de 01/06/1860; retratação da “grande Françoise”). Edição local: 1860.