Bem-aventurança dos perseguidos pela justiça

Definição

Oitava e última bem-aventurança do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, pois que é deles o reino dos céus” (S. Mateus, 5:10), estendida no versículo seguinte: “Bem-aventurados sereis vós, quando vos carregarem de injúrias, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por causa de mim. Regozijai-vos, exultai de contentamento, porque grande há de ser no céu a vossa recompensa” (Mt 5:11–12). Kardec a agrupa no capítulo V do ESE (com a dos aflitos e a dos famintos de justiça) e retoma o tema, aplicando-o ao próprio Espiritismo, no capítulo XXIV.

Ensino de Kardec

O critério: perseguição “pela justiça”

A fórmula evangélica é precisa: pela justiça. Não é qualquer sofrimento de adversário, nem vitimismo; é o que decorre de padecer injustiça por fidelidade ao bem. Kardec lembra: “Pela palavra justos, não se deve, nesta passagem, entender unicamente o homem virtuoso. Prestam-se, porém, a mais extensas aplicações as três palavras — justos, pobres e aflitos — que resumem todas as condições da vida” (ESE, cap. V, item 16).

Motor histórico: o Cristianismo e o Espiritismo

Kardec amplia a bem-aventurança na Oração dos Espíritas (ESE, cap. XXVIII, item 51):

“A perseguição é o batismo de toda ideia nova, grande e justa e cresce com a magnitude e a importância da ideia. O furor e o desabrimento dos seus inimigos são proporcionais ao temor que ela lhes inspira. Tal a razão por que o Cristianismo foi perseguido outrora e por que o Espiritismo o é hoje, com a diferença, todavia, de que aquele o foi pelos pagãos, enquanto o segundo o é por cristãos.”

E acrescenta, dirigindo-se aos espíritas: “não vos aflijais com os golpes que vos desfiram, pois eles provam que estais com a verdade. Se assim não fosse, deixar-vos-iam tranquilos e não vos procurariam ferir” (ibid.).

Perseguição como prova

“Passou o tempo das perseguições sangrentas, é exato; contudo, se já não matam o corpo, torturam a alma, atacam-na até nos seus mais íntimos sentimentos, nas suas mais caras afeições. Lança-se a desunião nas famílias (…); investe-se mesmo contra o corpo, agravando-se-lhe as necessidades materiais, tirando-se-lhe o ganha-pão” (ESE, cap. XXVIII, item 51). A bem-aventurança lê essas provas como teste da fé: “Constitui uma prova para a vossa fé, porquanto é pela vossa coragem, pela vossa resignação e pela vossa paciência que Deus vos reconhecerá entre os seus servidores fiéis” (ibid.).

Resposta evangélica à perseguição

Kardec conecta a bem-aventurança ao mandamento do capítulo XII do ESE: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos fazem mal e orai pelos que vos perseguem” (S. Mateus, 5:43–44; ESE, cap. XII, item 1). Ao perseguido, não cabe revide; cabe a prece, a conduta firme, o exemplo. “Ele também disse: ‘Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos fazem mal e orai pelos que vos perseguem.’ Mostrai que sois seus verdadeiros discípulos e que a vossa doutrina é boa, fazendo o que ele disse e fez” (ESE, cap. XXVIII, item 51).

Na oração dos espíritas

“Senhor, tu nos disseste pela boca de Jesus, o teu Messias: ‘Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça; perdoai aos vossos inimigos; orai pelos que vos persigam.’ E ele próprio nos deu o exemplo, orando pelos seus algozes” (ESE, cap. XXVIII, item 52). A prece — não a indignação — é a resposta espírita à injúria.

”Mortificações do corpo, fortificação da alma”

No comentário à Oração Dominical, Kardec retoma a bem-aventurança ao pedir o perdão das ofensas: “Constituem parte das nossas provas terrenas as perseguições que os maus nos infligem. Devemos, então, recebê-las sem nos queixarmos, como todas as outras provas (…). Bendigamos, portanto, a mão que nos fere e humilha, uma vez que as mortificações do corpo nos fortificam a alma e que seremos exalçados por efeito da nossa humildade” (ESE, cap. XXVIII, item 3, referindo cap. XII).

Liberdade de consciência como pano de fundo

“De todas as liberdades, a mais inviolável é a de pensar, que abrange a de consciência. Lançar alguém anátema sobre os que não pensam como ele é reclamar para si essa liberdade e negá-la aos outros, é violar o primeiro mandamento de Jesus: a caridade e o amor do próximo” (ESE, cap. XXVIII, item 51). A bem-aventurança, lida por Kardec, funda não apenas um princípio moral individual, mas uma crítica doutrinária à intolerância religiosa.

Desdobramentos

Perseguição verdadeira vs. desaprovação legítima

Nem todo atrito é perseguição. A bem-aventurança abrange quem sofre “pela justiça” — por fazer o bem e não por errar publicamente. Kardec insiste no discernimento: quem sofre consequência de falta própria não está sob a bem-aventurança; quem sofre porque testemunhou o bem está. Vale examinar-se: pela justiça sofro, ou por teimosia/imprudência/orgulho?

Coroamento das bem-aventuranças

Esta bem-aventurança é, na economia do Sermão, o coroamento das anteriores. Quem vive as sete primeiras — humilde, aflito resignado, brando, sedento de justiça, misericordioso, puro de coração, pacificador — termina fatalmente perseguido em algum grau, porque destoa do mundo. Por isso Jesus a desdobra em segunda pessoa do plural (“bem-aventurados sereis vós”) — é profecia, não hipótese, sobre a vida dos seus discípulos.

Conforto e critério para a casa espírita

Em momentos de descrédito público ao Espiritismo, a bem-aventurança dá dois recursos: conforto (é sinal de estar no bom caminho) e critério (só vale se não se revidou, se não se odiou o perseguidor, se a prece por ele foi mantida). Revidar converte o perseguido em perseguidor e faz perder o direito à bem-aventurança.

Aplicação prática

A bem-aventurança se aplica também em escala menor, familiar e profissional: o parente zombado por ir ao centro espírita, o colega desprestigiado por recusar fraude, o médium mal interpretado. A regra de ouro para essas horas é a da Oração dos Espíritas: não se calar por medo, não se inflamar por orgulho, orar pelos que maldizem, guardar a fé. O fruto é certo — “grande há de ser no céu a vossa recompensa” (Mt 5:12) —, mas o caminho pede paciência evangélica. A resposta nunca é o revide; é o exemplo mantido.

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Fontes

  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. V (“Bem-aventurados os aflitos”), itens 1–2, 16. Cap. XII (“Amai os vossos inimigos”). Cap. XXIV (“Não ponhais a candeia debaixo do alqueire”). Cap. XXVIII, itens 3, 51–52 (Oração dos Espíritas).
  • Novo Testamento. S. Mateus 5:10–12, 43–48.