Revista Espírita — Ano de 1858

Volume fundador da Revue Spirite, redigido por allan-kardec entre janeiro e dezembro de 1858. Primeiro ano da periódica, com 144 artigos distribuídos em doze fascículos mensais. Aparecem aqui em primeira mão muitos princípios depois fixados no Pentateuco, em particular a escala espírita (fev/1858) e a doutrina da pluralidade das existências (nov/1858), publicadas dois anos antes da 2ª edição definitiva de O Livro dos Espíritos. É também o ano em que se funda a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (1º de abril de 1858).

“Acolheremos todas as observações que nos forem dirigidas e, tanto quanto o permitir o estado dos conhecimentos adquiridos, procuraremos resolver as dúvidas e esclarecer os pontos ainda obscuros. Nossa Revista será, assim, uma tribuna, na qual, entretanto, a discussão jamais deverá afastar-se das normas das mais estritas conveniências. Numa palavra, discutiremos, mas não disputaremos.” — Kardec, RE, jan/1858, “Introdução”.

Dados bibliográficos

Posição no projeto editorial

A Revista é fundada um ano depois da 1ª edição de O Livro dos Espíritos (18/04/1857) e dois anos antes da 2ª edição definitiva (1860). Esse intervalo é decisivo: o volume de 1858 documenta o momento em que Kardec testa publicamente as formulações iniciais, recebe objeções, refina o método e prepara a versão definitiva da codificação. Quando se diz que a Revista é o “laboratório” do Pentateuco, é deste ano que se está falando em primeiro lugar — porque é aqui que princípios depois fixados no LE (escala espírita), no LM (obsessão/subjugação/fascinação), no ESE (dissertações morais por São Luís), em C&I (penas e gozos futuros) e na Gênese (pluralidade dos mundos) aparecem como artigos avulsos.

Marcos cronológicos

MêsMarcos do fascículo
Janeiro”Introdução” (programa editorial); “Diferentes formas de manifestações”; “Vários modos de comunicação” (sematologia, psicografia, espiritografia); “Mamãe, aqui estou!” (evocação de filha falecida) e “Uma conversão” (do farmacêutico Sr. Georges); “História de Joana d’Arc ditada por ela própria à Srta. Ermance Dufaux”.
Fevereiro”Diferentes ordens de Espíritos” e “Escala Espírita” — primeira publicação da classificação em três ordens / dez classes (depois LE q. 100–113); “Mademoiselle Clairon e o fantasma” (caso de aparição auditiva por 2½ anos); “Isolamento dos corpos pesados” (levitação); “A avareza” (dissertação moral por São Luís via Ermance Dufaux, ditada em 6/1/1858); “O Sr. Home” (1ª parte).
Março”A pluralidade dos mundos”; “Júpiter e alguns outros mundos” (com desenhos de habitações); “Confissões de Luís XI — História de sua vida ditada por ele mesmo à Srta. Ermance Dufaux” (1º trecho); “A fatalidade e os pressentimentos” (instruções por São Luís); “O Sr. Home — II”.
Abril”Período psicológico” (carta do Sr. Georges); “O Espiritismo entre os druidas” (tríades célticas: ceugant / abred / gwynfyd); “Deus e o universo”; “Os três círculos”; “O círculo de Abred”; “Evocação de Espíritos na Abissínia”; “O Sr. Home — III”.
Maio”Teoria das manifestações físicas — I” (introdução do papel do fluido universal e do perispírito); “O Espírito batedor de Bergzabern — I” (caso de manifestações físicas em casa alemã); “O orgulho” (dissertação moral por São Luís via Ermance Dufaux); “As metades eternas” (refutação da pré-destinação amorosa); “Morte de Luís XI”; “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas — fundada em Paris a 1º de abril de 1858” (anúncio).
Junho”Teoria das manifestações físicas — II” (com 30+ perguntas a São Luís sobre o fluido universal, o perispírito e o poder de Home); “O Espírito batedor de Bergzabern — II”; “A preguiça” (dissertação moral por São Luís via Ermance Dufaux); “Confissões de Luís XI” (continuação); “Henri Martin — sua opinião sobre as comunicações extracorpóreas”.
Julho”A inveja” (dissertação moral por São Luís via Ermance Dufaux); “Uma nova descoberta fotográfica” e “Considerações sobre a fotografia espontânea” (sobre fotografia espírita); “O Espírito batedor de Bergzabern — III”; “Espíritos impostores — O falso padre Ambrósio”; “Uma lição de caligrafia por um Espírito”.
Agosto”Contradições na linguagem dos Espíritos” (controle universal do ensino); “A caridade pelo Espírito de S. Vicente de Paulo”; “O Espírito batedor de Dibbelsdorf”; “A propósito dos desenhos de Júpiter”; “Habitações em Júpiter”.
Setembro”Propagação do Espiritismo”; “Platão e a doutrina da escolha das provas” — transcrição do Mito de Er (República, livro X) como antecipação grega do livre-arbítrio na escolha das provas reencarnatórias; “Um aviso de além-túmulo”; “Os gritos na noite de São Bartolomeu”; “Os talismãs — medalha cabalística”; “Suicídio por amor” (problema moral).
OutubroObsedados e subjugados” — definição dos três graus de constrangimento espiritual (obsessão, subjugação, fascinação) com o caso longo do Sr. F… subjugado pelo Espírito François Dillois; “Emprego oficial do magnetismo animal”; “O magnetismo e o sonambulismo ensinados pela igreja”; “Assassinato de cinco crianças por outra de doze anos” (problema moral); “Questões de Espiritismo legal”.
Novembro”Polêmica espírita”; “Pluralidade das existências” — defesa filosófica longa da reencarnação, com abstração da intervenção dos Espíritos; “Sobre o suicídio” (problema moral); “Médium pintor”; “Independência sonambúlica”.
Dezembro”Aparições”; “Adrien, médium vidente”; “Um Espírito nos funerais de seu corpo — Estado da alma no momento da morte”; “Fenômeno de bicorporeidade”; “Sensações dos Espíritos”; “Aos leitores da Revista Espírita — Conclusão do ano de 1858”.

Linhas-de-força do volume

1. Metodologia espírita inaugural (janeiro)

Os três primeiros artigos do ano estabelecem o vocabulário e o método:

  • “Diferentes formas de manifestações” — taxonomia das ações (oculta, patente, física, visual, inteligente, comunicação) e das comunicações (frívola, grosseira, séria, instrutiva).
  • “Vários modos de comunicação” — propõe nomenclatura técnica: sematologia (sinais e pancadas, com a variante tiptologia), psicografia (escrita por médium — direta ou indireta), espiritografia (escrita sem médium), espiritologia (palavra — mediata ou direta).
  • “Respostas dos Espíritos a algumas perguntas” — compila Q&A canônicas sobre como os Espíritos agem sobre a matéria, a inferioridade dos Espíritos batedores e a necessidade de discernimento.

2. Escala Espírita publicada antes do LE definitivo (fevereiro)

Em “Diferentes ordens de Espíritos” e “Escala Espírita”, Kardec apresenta a classificação em três ordens (impuros, bons, puros) subdividida em dez classes. É a versão sistemática que entrará na 2ª edição do LE em 1860 (q. 100–113). A nota metodológica é importante: “Não inventamos os Espíritos nem os seus caracteres. Vimos e observamos; julgamo-los por suas palavras e atos, depois os classificamos por suas similitudes” (RE, fev/1858, “Diferentes ordens de Espíritos”). Detalhamento doutrinário em escala-espirita.

3. Fenomenologia (fev–jul, casos repetidos)

Três séries dominam o ano nesse eixo:

  • Sr. Home (I, II, III — fev/mar/abr). Defesa metodológica do médium daniel-dunglas-home contra acusação de charlatanismo, com argumento decisivo: o desinteresse financeiro de Home recusa qualquer hipótese de fraude lucrativa.
  • Espírito batedor de Bergzabern (I, II, III — mai/jun/jul). Caso de manifestações físicas em casa alemã (ruídos, deslocamentos), apresentado em série com transcrição minuciosa.
  • Isolamento dos corpos pesados (fev). Relato de levitação testemunhada por Kardec — “Já o mesmo não acontece quando o movimento é acompanhado por fenômenos menos vulgares como, por exemplo, o de sua suspensão no espaço.” Ver manifestacoes-espiritas.

4. Doutrina da reencarnação (mar/abr/set/nov)

Quatro artigos organizam o argumento reencarnatório do volume:

  • “A pluralidade dos mundos” e “Júpiter e alguns outros mundos” (mar/ago) — desdobramento do princípio de que a Terra não é o único habitáculo dos Espíritos. Ver pluralidade-dos-mundos-habitados.
  • “O Espiritismo entre os druidas” (abr) — apresenta as três tríades célticas (ceugant, círculo do vazio, exclusivo de Deus; abred, círculo das migrações por onde a alma progride; gwynfyd, círculo da felicidade) como antecipação druídica da doutrina espírita. “Sem estas três coisas nada pode existir, exceto Deus” (tríade XIV).
  • “Platão e a doutrina da escolha das provas” (set) — transcrição do Mito de Er (República, livro X), com Sócrates expondo a Glauco a alegoria do Fuso da Necessidade: as almas escolhem a próxima existência segundo seu discernimento, e o resultado depende da experiência adquirida. Confirmação grega antiga do livre-arbítrio na escolha das provas.
  • “Pluralidade das existências” (nov) — argumento filosófico longo independente da intervenção dos Espíritos: as objeções triviais (“é desagradável recomeçar”), as questões insolúveis sem reencarnação (aptidões inatas desiguais, ideias inatas, vícios precoces, civilizações em graus diferentes), e a refutação da metempsicose pitagórica. Ver pluralidade-das-existencias e reencarnacao.

5. Moral aplicada — dissertações por São Luís via Ermance Dufaux

Quatro dissertações morais ditadas por sao-luis à Srta. Ermance Dufaux, em série mensal:

Em agosto soma-se “A caridade pelo Espírito de S. Vicente de Paulo”, fechando o ciclo das paixões. Esse é o primeiro material moral sistemático organizado por Kardec, seis anos antes de O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864). Ver avareza, orgulho, egoismo, caridade.

6. Casuística da obsessão (outubro)

“Obsedados e subjugados” (out/1858) é o artigo doutrinário mais importante do ano sobre fenomenologia espiritual. Define os três graus do constrangimento por Espíritos imperfeitos:

  • Obsessão — “ação quase permanente de um Espírito estranho, que leva a pessoa a ser solicitada por uma necessidade incessante de agir desta ou daquela maneira”.
  • Subjugação — “ligação moral que paralisa a vontade de quem a sofre e que impele a pessoa às mais desarrazoadas atitudes, frequentemente as mais contrárias ao seu próprio interesse”.
  • Fascinação — “espécie de ilusão produzida pela ação direta de um Espírito estranho ou por seus raciocínios capciosos. Essa ilusão produz alteração na compreensão das coisas morais, falseia o julgamento e leva a tomar-se o mal pelo bem”.

Acompanha o caso longo do Sr. F…, médium psicógrafo subjugado pelo Espírito François Dillois — exemplo paradigmático do risco de fascinação por médium novo entusiasmado (jejum prescrito, falsas atribuições a Jesus/Satã/Shakespeare, máximas blasfemas). Vinte centenas de páginas dedicadas ao tema antes de O Livro dos Médiuns (1861) explicarem-no sistematicamente. Ver obsessao.

A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

A nota institucional mais relevante do volume aparece em maio: o anúncio da fundação, em 1º de abril de 1858, da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, “centro regular de observações” presidido por Kardec. Composta “exclusivamente de pessoas sérias, isentas de prevenções e animadas do sincero desejo de esclarecimento”, a Sociedade institui o lugar onde, daqui em diante, comunicações mediúnicas serão coletadas e submetidas a controle coletivo — base operacional do que Kardec chamará depois de controle universal do ensino dos Espíritos (LM, 2ª parte, cap. XXIV). Endereço inicial: rue Sainte-Anne, 59. Ver allan-kardec.

Comunicantes recorrentes

  • sao-luis — orientador habitual da Sociedade. Quatro dissertações morais por intermédio de Ermance Dufaux; “Teoria das manifestações físicas” (mai/jun); “A fatalidade e os pressentimentos” (mar).
  • joana-darc — Espírito autora da biografia ditada à Ermance Dufaux (jan).
  • luis-xi — Espírito autor das Confissões via Ermance Dufaux (mar/mai/jun).
  • Mademoiselle Clairon — caso de aparição registrado nas Memórias da atriz, reanalisado por Kardec (fev). Ver mademoiselle-clairon.
  • S. Vicente de Paulo — autor espiritual da dissertação “A caridade” (ago).
  • Sócrates / Platão — citados na transcrição do Mito de Er (set).
  • Espíritos sofredores, suicidas e parentes de leitores em “Palestras familiares de além-túmulo” (mar, mai, jun, ago, nov, dez).

Conceitos tratados

Personalidades citadas

  • allan-kardec — fundador, diretor e principal autor.
  • sao-luis — orientador e autor espiritual de várias dissertações.
  • ermance-dufaux — médium central do ano (Joana d’Arc, Luís XI, dissertações morais).
  • daniel-dunglas-home — médium americano, série de três artigos (fev/mar/abr).
  • joana-darc — Espírito autora.
  • luis-xi — Espírito autor.
  • mademoiselle-clairon — caso clássico de “fantasma” reanalisado à luz dos Espíritos.

Divergências

Nenhuma. Periódico do próprio codificador (nível 2 da hierarquia de autoridade). Quando uma posição da Revista parece divergir do Pentateuco, em geral é versão anterior à fixação definitiva — a versão tardia prevalece. Ver discussão na página-mãe revista-espirita.

Fontes

  • KARDEC, Allan. Revue Spirite — Journal d’Études Psychologiques, ano 1858. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1858.
  • Edição brasileira: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1858. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Edicel.
  • Edição FEB: KARDEC, Allan. Revista Espírita — 1858. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
  • Disponível online: Kardecpédia — Revista Espírita 1858.
  • Edição local: 1858 (144 artigos integrais baixados da Kardecpédia).