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Autodescobrimento — Uma Busca Interior
Dados bibliográficos
- Autor espiritual: Joanna de Ângelis
- Médium: Divaldo Pereira Franco
- Tipo: Livro psicografado
- Local de psicografia: Salvador-BA
- Data: 30 de novembro de 1994 (prefácio assinado pela autora espiritual)
- Editora: LEAL — Livraria Espírita Alvorada Editora
- 1ª edição: 1995 · Edição consultada: 17ª edição, 2013, 168 p.
- Série: Série Psicológica Joanna de Ângelis — Volume 6
- Estrutura: 12 capítulos em ~46 seções
- Nível: 3 — Complementar aprovado
- Texto integral: joanna-de-angelis-autodescobrimento-uma-busca-interior
Tese central
Sucessor direto de o-ser-consciente (1993, Vol. 5 da Série Psicológica), Autodescobrimento funciona como manual prático de interiorização: onde o Vol. 5 mapeou a Quarta Força em Psicologia como redescoberta científica do que o Espiritismo já propunha desde 1857, o Vol. 6 aplica esse arcabouço ao trânsito cotidiano da consciência — do equipamento (Espírito-perispírito-matéria) à libertação pessoal pela conquista do Si.
A própria autora espiritual define o propósito no prefácio:
“Ao apresentarmos o nosso livro aos interessados na decifração de si mesmos, tentamos colocar pontes entre os mecanismos das Psicologias Humanista e Transpessoal com a Doutrina Espírita, que as ilumina e completa, assim cooperando de alguma forma com aqueles que se empenham na busca interior, no autodescobrimento.”
E firma o referencial cristão: “Esta é uma pequena contribuição que dirigimos aos que sinceramente se buscam, tendo Jesus como Modelo e Terapeuta Superior para os problemas do corpo, da mente e do Espírito.”
A ancoragem em allan-kardec aparece explicitamente no encerramento do cap. 12, quando Joanna reproduz a interrogação canônica:
“Preocupado com a etapa terminal do processo da evolução e com profunda visão psicológica, Allan Kardec interrogou os mensageiros nobres que o assistiam na elaboração da Doutrina Espírita: — O que fica sendo o Espírito depois de sua última reencarnação? E eles responderam: — Espírito bem-aventurado; puro Espírito.”
Sobre o vocabulário oriental e psicológico
A obra recorre a vocabulário transpessoal (ego, self, individuação, insight) e oriental (chakras, yin-yang, raga/paixão no conceito budista, samsara, Mahabharata como alegoria das pândavas vs. kauravas no campo de batalha da consciência), citando ainda Maslow, Grof, Frankl, Kübler-Ross, Tart, Coleman, Freud, Jung, Adler, Janet, Pavlov, William James e Mira y Lopez. Como em O Ser Consciente, este vocabulário funciona como ponte conceitual com a Quarta Força — não como adoção doutrinária. A base estrutural permanece kardequiana (tripé Espírito-perispírito-corpo, reencarnação como método, Lei de Causa e Efeito, livre-arbítrio).
Estrutura por parte
Cap. 1 — O Ser Real
Complexidades da energia, interação Espírito-matéria, problemas da evolução. Recupera Einstein (“conjunto eletrônico regido pela consciência”) para defender o ser humano como “agrupamento de energias em diferentes níveis de vibrações”. Doenças resultam do “uso inadequado das energias, da inconsciência do ser em relação à vida e à sua finalidade”. Apresenta o modelo trino (Espírito → perispírito → corpo) como “condensação de moléculas” sob comando da consciência. Anuncia o programa: “É imprescindível um constante renascer do indivíduo, pelo renovar da sua consciência, aprofundando-se no autodescobrimento.”
Cap. 2 — Equipamentos existenciais
Pensamento, conflitos e doenças, distonias e suas consequências, ser emocional. Posiciona o pensamento contra o organicismo: “o pensamento não procede do cérebro. Este tem a função orgânica de registrá-lo (…) o pensamento é exteriorização da mente, que independe da matéria e, por sua vez, é originada no Espírito”. Recolhe a escala estequiogenética de Mira y Lopez (primário → pré-mágico → mágico → egocêntrico → lógico → intuitivo). Tese psicossomática: “cada enfermidade física traz um componente psíquico, emocional ou espiritual correspondente”.
Cap. 3 — Consciência e vida
Incursão na consciência, consciência responsável, consciência e sofrimento, exame do sofrimento. Cita literalmente Mateus 6:22-23 (“A candeia do corpo são os olhos…”) como figura da interiorização. Distingue responsabilidade deferida (delegada por autoridade) de responsabilidade conquistada (pelo amadurecimento psicológico) — a primeira “cega o indivíduo” no caso de criminosos de guerra que alegam cumprir ordens; a segunda harmoniza o dever com a compreensão. O sofrimento aparece como “processus de maturação e de libertação do Espírito”, inscrevendo-se conforme o nível de lucidez (do “asselvajado, automático, ao martírio por abnegação”).
Cap. 4 — O Inconsciente e a Vida
Inconsciente, subconsciente, inconsciente sagrado. Tripartição joanniana:
- Inconsciente (cortical/subcortical): nas formulações de Freud (id, recalques) e Jung (arquétipos), reinterpretado: “esse inconsciente é o Espírito, que se encarrega do controle da inteligência fisiológica e suas memórias”.
- Subconsciente: arquivo próximo de experiências, automático, sem raciocínio — manifesta-se em sonhos, atos falhos, distúrbios neuróticos.
- Inconsciente sagrado / profundo: depósito das experiências do Espírito eterno e do “Eu superior”. Joanna explicita: “o inconsciente coletivo [de Jung] seria, então, o registro mnemónico das reencarnações anteriores de cada ser” — e a “Genética descartou a transmissão cromossômica” desse material.
Cap. 5 — Viagem interior
Busca da unidade, realidade e ilusão, força criadora. Recurso ao yin-yang chinês (consciência como yang masculino racional; inconsciência como yin feminino introvertido) como figura da unidade-meta. O amor é apresentado como “poder criador mais vigoroso”, em três fases (instinto possessivo → amor-doação medial → amor-paz transcendente), com São Francisco e Santa Josefa Meléndez como tipos da última.
Cap. 6 — Equilíbrio e saúde
Programa de saúde, transtornos comportamentais, terapia da esperança, plenitude. Cita 1Cor 15:33 atribuindo a Paulo: “Não vos enganeis. As más companhias corrompem os bons costumes.” Estrutura um decálogo prático: pensar bem, evitar tabaco/álcool/drogas, moderar alimentação, oração, meditação em silêncio, banir crítica ácida, preservar paz. Sobre transtornos comportamentais, defende explicitamente o uso de psicofármacos junto à transformação moral — sem opor uma à outra. Em terapia da esperança, narra a parábola dos manequins e do mestre que retorna apenas pelo único discípulo fiel.
Cap. 7 — O ser subconsciente
Computação cerebral, reciclagem do subconsciente, subconsciente e sonhos. Cérebro como “computador especial de elevados recursos” cujos sensores arquivam ideias antes que se fixem no inconsciente profundo. Propõe reprogramação consciente do subconsciente via autossugestão, visualização e prece — “Antes de dormir, cumpre sejam fixadas as ideias agradáveis e positivas, visualizando aquilo com que se deseja sonhar”. Parafraseia o brocardo: “Dize-me o que sonhas e eu te direi quem és e qual futuro terás.”
Cap. 8 — Sicários da alma
O passado, a incerteza do futuro, o desconhecimento de si mesmo como tríade dos algozes interiores. Joanna prescreve autoperdão (não como justificativa, mas como “luarização da culpa”) e técnica de visualização para encontro mental com o prejudicado. Cita literalmente Mateus 6:34: “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” Narra a parábola do mestre que planta cedros após o incêndio: “Aqueles que foram queimados nunca nos informaram quem os houvera plantado, embora oferecessem sombra e vida sempre.”
Cap. 9 — Viciações mentais
Insatisfação, indiferença, pânico, medo da morte como hábitos psíquicos automatizados. O tratamento do distúrbio de pânico é especialmente notável: distingue (a) etiologia genética/noradrenalina (predomínio feminino entre 20-35 anos, agravado no período pré-catamenial) — “Sem dúvida, a terapia psiquiátrica faz-se urgente, a fim de que determinadas substâncias químicas sejam administradas ao paciente”; (b) componente paranormal de obsessão espiritual; (c) terapia conjugada moral + farmacológica. Esta defesa explícita do recurso ao psicofármaco — sem subordinar a medicina à reforma íntima — é traço editorial central da obra.
Cap. 10 — Conteúdos perturbadores
Raiva, ressentimento, lamentação, perda pela morte, amargura. A raiva é tratada como reação normal a ser canalizada (não reprimida): “Ninguém deve envergonhar-se ou conflitar-se por ser vítima da raiva”. Evita-se: dissimulação, autocompaixão, desejo de revide. Recursos terapêuticos: Rolfismo, descarga em trabalho físico, “elucidação até diluir” diante de espelho, meditação, prece de compaixão. Releitura do perdão: “Quando Jesus propôs o perdão das ofensas, Ele se referiu ao esquecimento delas, isto é, à sua diluição na água lustral do amor” — não repressão.
Sobre perda pela morte: “o próprio verbo perder, nessa conceituação, encontra-se totalmente deslocado. Pessoas não podem deixar de prosseguir, perdendo-se (…). Ninguém pertence a outrem, e somente se perde o que não se tem”. A dor é justa; o desespero, não.
Cap. 11 — Os sentimentos: amigos ou adversários?
O amor (do “queixo para baixo” — fisiológico, sensorial — ao “queixo para cima” — psicológico, idealístico), os sofrimentos (físicos, morais, emocionais, espirituais — com tipologia explícita), estar e ser, abnegação e humildade.
A distinção estar × ser é chave terapêutica: “O que se está, deixa-se, passa; o que se é, permanece. Pode-se nascer enfermo ou sadio, o que significaria ser. Não obstante, através de uma boa programação mental, o ser doente pode transformar-se em apenas estar por um período”. Crítica explícita ao masoquismo religioso (cilícios, jejuns injustificáveis, macerações) lido como “sadismo cruel” — Jesus jejuou para “preparar o organismo para bem suportar os testemunhos morais”, “Ele encontrava beleza e prazer nos lírios do campo, nas aves do céu”, “jamais se reportou à busca do sofrimento como recurso de salvação”.
Cap. 12 — Triunfo sobre o ego
Infância psicológica (criança interior reativa que governa o adulto), conquista do Si, libertação pessoal.
A infância psicológica é o sintoma central do adulto não amadurecido emocionalmente: “A criança insegura, que permanece no subconsciente do ser adulto, dele faz um infeliz, porque o impele a comportamentos ambivalentes, instáveis, ilógicos. No íntimo ele teme, e exterioriza agressividade; sente necessidade de carinho, e desvela raiva, ódio”. A terapia é o reencontro consciente com essa criança — “amorosamente, deve-se retornar ao pensamento inicial motivador da experiência”.
A conquista do Si culmina na interrogação de Kardec aos mensageiros nobres (LE), respondida com a fórmula “Espírito bem-aventurado; puro Espírito”. Joanna recorre ao Mahabharata (pândavas vs. kauravas) como alegoria do “campo de batalha da consciência: as virtudes (poucas) e os vícios (muitos), em sucessivas pelejas até o momento da vitória dos primeiros”.
A libertação pessoal é articulada via os três olhos de São Boaventura (Doutor Seráfico): da carne (mundo material), da razão (lógica filosófica), da contemplação (mundo oculto, intuição). Joanna acopla a tríade ao tripé kardequiano: “a carne entra em contato com o mundo físico, o perispírito registra o mundo mental, extrassensorial, e o Espírito sintoniza e se alimenta com a estrutura da realidade causal”. Encerra: “Nasce então, nesse momento, o homem pleno, que ruma para o Infinito, imagem e semelhança de Deus.”
Temas centrais
- Autodescobrimento como ponte aplicada entre Psicologias Humanista/Transpessoal e Doutrina Espírita — continuidade direta de O Ser Consciente em registro mais prático.
- Tripartição do inconsciente — inconsciente, subconsciente e inconsciente sagrado (registros reencarnatórios reinterpretando o “inconsciente coletivo” junguiano à luz da memória do Espírito eterno).
- Sicários da alma — passado, futuro, desconhecimento de si como tríade dos algozes interiores, com Mt 6:34 como antídoto evangélico.
- Viciações mentais — insatisfação, indiferença, pânico, medo da morte como hábitos psíquicos automatizados, com defesa explícita do uso conjugado de psicofármacos e transformação moral no distúrbio de pânico.
- Conteúdos perturbadores — raiva, ressentimento, lamentação, perda pela morte, amargura — tratados como reações normais a serem canalizadas, não reprimidas; releitura do perdão como diluição amorosa, não esquecimento culpabilizado.
- Distinção estar × ser — chave terapêutica para superação do conflito identitário e do medo da crítica.
- Infância psicológica — criança interior reativa que governa o adulto não amadurecido; reencontro consciente como passo decisivo do amadurecimento emocional.
- Triunfo sobre o ego e conquista do Si — culminância no “Espírito bem-aventurado; puro Espírito” (LE) com os três olhos de São Boaventura como modelo de visão integrada.
Conceitos tratados
- autoconhecimento — meta primordial, ancorada implícita em LE q. 919 e nas figuras evangélicas de Mt 6:22-23 e 6:34.
- psicologia-transpessoal — Quarta Força como ponte conceitual aplicada à interiorização.
- perispirito — modelo organizador biológico, peça intermediária do tripé.
- reencarnacao — Lei de Causa e Efeito como matriz dos quadros psicossomáticos e dos “automatismos” inconscientes.
- dores-da-alma — raiva, ressentimento, lamentação, amargura como dores tratáveis (cap. 10).
- dor — sofrimento como pedagogia, com tipologia física/moral/emocional/espiritual (cap. 11).
- obsessao — ingerência espiritual no distúrbio de pânico (cap. 9) e nos transtornos comportamentais (cap. 6).
- livre-arbitrio — escolha pelo autodescobrimento como condição da reabilitação.
Personalidades citadas
- joanna-de-angelis — Espírito autor.
- divaldo-franco — médium psicógrafo.
- jesus — “Modelo e Terapeuta Superior” (Mt 6:22-23, 6:34, 22:39 e parábolas).
- allan-kardec — interrogação ao final do cap. 12, retomada da questão fundadora sobre o Espírito após a última reencarnação.
- paulo-de-tarso — citado em 1Cor 15:33 (“As más companhias corrompem os bons costumes”) na abertura do cap. 6.
Personalidades históricas mencionadas (sem página na wiki)
- Pioneiros da Psicologia Humanista/Transpessoal: Abraham Maslow, Stanislav Grof, Elisabeth Kübler-Ross, Raymond Moody Jr., Viktor Frankl, Charles Tart, Daniel Coleman.
- Tradição psicológica clássica: Sigmund Freud, Carl Gustav Jung, Alfred Adler, Pierre Janet, Jean-Martin Charcot, Liébault, Bernheim, Ivan Pavlov, Joseph Grasset, William James, Emilio Mira y Lopez.
- Filosofia/ciência: Albert Einstein, Gottfried Leibniz, Arthur Schopenhauer, São Boaventura (“Doutor Seráfico”).
- Tradições orientais (referência conceitual): Buda (conceito raga), tradição taoísta (yin-yang), épico Mahabharata.
- Outros: Santa Josefa Meléndez, São Francisco de Assis, Pôncio Pilatos, Mahatma Gandhi.
Divergências
Nenhuma divergência estrutural com Kardec identificada. A obra opera dentro do kardequismo nível 3, com vocabulário transpessoal e oriental funcionando como ponte conceitual — mesmo padrão editorial de o-ser-consciente (1993).
Pontos sensíveis avaliados e categorizados como desdobramentos, não divergências:
- Chakras (cap. 1) — referência pontual à transmutação energética dos núcleos abaixo do diafragma para a região superior; descrição psicossomática, não prescrição esotérica. Mesmo tratamento dado em Plenitude (cap. XI), já registrado como ponte com a Quarta Força.
- Releitura do perdão (cap. 10) — “esquecimento como diluição na água lustral do amor”. Não contradiz ESE cap. X (Bem-aventurados os que perdoam): Joanna explicita que a diluição é amorosa, não repressiva, e cita Jesus como modelo.
- Defesa do psicofármaco (cap. 9) — explicitação de que terapia psiquiátrica e transformação moral atuam em conjunto, não em oposição. Posicionamento alinhado a obsessao e depressao na bibliografia da wiki.
Fontes
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Autodescobrimento — Uma Busca Interior. Salvador: LEAL — Livraria Espírita Alvorada Editora, 1995. 17ª ed., 2013, 168 p. Série Psicológica vol. 6. ISBN 978-85-61879-74-7. Edição: joanna-de-angelis-autodescobrimento-uma-busca-interior.
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Cap. final sobre o Espírito após a última reencarnação (“Espírito bem-aventurado; puro Espírito”); q. 919 (Conhece-te a ti mesmo) como ancoragem implícita.
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Cap. X (Bem-aventurados os que perdoam) como referência da releitura do cap. 10.
- Bíblia. Mateus 6:22-23 (cap. 3), 6:34 (cap. 8), 22:39 (cap. 6); 1 Coríntios 15:33 (cap. 6, atribuído a Paulo pela autora espiritual).