Comunhão de pensamentos

Definição curta

Doutrina espírita segundo a qual o pensamento age sobre os fluidos ambientes como o som age sobre o ar, de modo que pensamentos convergentes em uma reunião produzem uma força fluídica coletiva real — neutralizando a ação dos maus Espíritos, atraindo a dos bons, e alimentando moralmente os participantes. É a matriz fluídica que justifica a prática das reuniões espíritas e desfaz a ilusão individualista de que basta orar sozinho em casa.

Ensino de Kardec

A formulação canônica está no discurso da Sessão anual comemorativa dos mortos de 1º/11/1868, publicado em 1868. A primeira parte do discurso é uma elaboração explícita do tema:

“Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento é uma força, mas é uma força puramente moral e abstrata? Não, pois do contrário não compreenderíamos certos efeitos do pensamento, e ainda menos a comunhão do pensamento. Para compreendê-lo, é preciso conhecer as propriedades e a ação dos elementos que constituem a nossa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-las ensina.” (RE dez/1868)

O mecanismo é fluídico, não simbólico:

“O pensamento age sobre os fluidos ambientes, como o som age sobre o ar; esses fluidos nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Podemos dizer, portanto, com plena certeza, que há, nesses fluidos, ondas e raios de pensamentos que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros.”

“Uma assembleia é um foco onde se irradiam pensamentos diversos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos em que cada um produz a sua nota. Resulta daí uma porção de correntes e de eflúvios fluídicos, cada um dos quais recebe a impressão pelo sentido espiritual, como num coro de música cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.”

A reunião pode ser harmônica ou discordante:

“Se o conjunto for harmônico, a impressão será agradável; se for discordante, a impressão será penosa. […] Se todas forem benevolentes, todos os assistentes experimentarão um verdadeiro bem-estar e sentir-se-ão à vontade; mas se se misturarem alguns pensamentos maus, produzem o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido.”

Desdobramentos

1. O pensamento coletivo é mais forte que o individual

Princípio que dá fundamento doutrinário ao agrupamento espírita:

“Sendo a vontade uma força ativa, essa força é multiplicada pelo número de vontades idênticas, como a força muscular é multiplicada pelo número dos braços. […] Sozinho, um homem pode sucumbir, ao passo que, se sua vontade for corroborada por outras vontades, ele poderá resistir, segundo o axioma: A união faz a força.” (RE dez/1868)

A consequência prática: a tática dos maus Espíritos é impelir para a divisão e o isolamento. Onde há comunhão de pensamentos voltada ao bem, a influência maléfica é paralisada; onde há isolamento, ela ganha terreno.

2. Recusa do anticlericalismo radical

A doutrina opõe-se à posição materialista/individualista de que basta orar em casa, sozinho:

“O isolamento religioso, como o isolamento social, conduz ao egoísmo. Que alguns homens sejam bastante fortes por si mesmos, muito largamente dotados pelo coração, para que sua fé e sua caridade não necessitem ser reaquecidas num foco comum, é possível, mas assim não se dá com as massas, às quais é preciso um estimulante, sem o qual elas poderiam deixar-se dominar pela indiferença.” (RE dez/1868)

A doutrina não condena os edifícios religiosos nem as assembleias — condena os abusos: “pelo fato de terem cometido abusos; de terem se afastado do reto caminho, segue-se que não existe o caminho reto e que tudo aquilo de que abusam seja mau?“. A solução é assembleia espírita — recolhimento religioso sem culto, sem casta sacerdotal, sem hierarquia. Posição confirmada na sequência pela comunicação pós-morte de Jean-Jacques Rousseau (médium Morin): “viver só no meio da natureza é ser egoísta e ladrão, porque o homem foi criado para a sociabilidade […]. Eu, o selvagem, o misantropo, o intratável eremita, venho aplaudir esta passagem do discurso aqui pronunciado: O isolamento social e religioso conduz ao egoísmo”.

3. Ponte com Mateus 18:20

A passagem do Evangelho — “Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei entre eles” — é relida em chave fluídica:

“‘Reunidos em meu nome’ quer dizer com um pensamento comum, mas não podemos estar reunidos em nome de Jesus sem assimilar os seus princípios, a sua doutrina. Ora, qual é o princípio fundamental da doutrina de Jesus? A caridade em pensamentos, palavras e obras.” (RE dez/1868)

A mera presença numérica não basta — é preciso comunhão real de princípios (os princípios de Jesus, a saber, a caridade). “Os egoístas e os orgulhosos mentem quando se dizem reunidos em nome de Jesus, porque Jesus não os reconhece como seus discípulos.”

4. Comunhão entre encarnados e desencarnados

A doutrina é simétrica: a comunhão de pensamentos atravessa o limite dos dois mundos.

“Vimos o efeito dessa comunhão de homem a homem; o Espiritismo nos prova que ele não é menor dos homens para os Espíritos, e vice-versa. […] Pela comunhão de pensamentos, os homens se assistem entre si, e ao mesmo tempo assistem os Espíritos e são por estes assistidos.” (RE dez/1868)

Material que articula a prece — a prece coletiva é mais eficaz para os Espíritos sofredores que a individual; e a comunhão de pensamentos da assembleia atrai eflúvios dos bons Espíritos “em línguas de fogo, para nos servirmos de uma admirável imagem do Evangelho”.

Aplicação prática

  • Sessões espíritas: o tom e a homogeneidade do pensamento dos participantes são pré-requisitos de eficácia mediúnica e doutrinária. Reuniões muito numerosas costumam ser menos favoráveis pela dificuldade de manter homogeneidade fluídica — “quanto mais numerosas são as reuniões, mais aí se misturam elementos heterogêneos que paralisam a ação dos bons elementos, e que são como grãos de areia numa engrenagem” (RE dez/1868).
  • Sessões fúnebres coletivas e Sessão anual comemorativa dos mortos (1º/11): instituídas pela SPEE em 02/11/1864 (1864) e formalizadas como modelo permanente; a comunhão de pensamentos é a categoria que justifica a prática.
  • Prece coletiva pelos sofredores: princípio fundante da prece espírita — “se o pensamento coletivo adquire força pelo número, um conjunto de pensamentos idênticos, tendo o bem por objetivo, terá mais força para neutralizar a ação dos maus Espíritos” (RE dez/1868).
  • Reuniões de família e estudo: a comunhão de pensamentos não exige forma cerimonial — basta a unidade de intenção benevolente.

Páginas relacionadas

  • prece — comunhão de pensamentos como matriz fluídica da prece coletiva.
  • caridade — caridade benevolente como conteúdo da comunhão.
  • fluidos — base material do mecanismo (cap. XIV de [[wiki/obras/genese|Gênese]]).
  • constituicao-do-espiritismo — a Constituição Transitória de 1868 institucionaliza a comunhão de pensamentos como fundamento das sociedades espíritas.
  • escala-espirita — assistência dos bons Espíritos atraída pela comunhão.

Fontes

  • KARDEC, Allan. “Sessão anual comemorativa dos mortos” (discurso de 1º/11/1868). Revue Spirite, dezembro/1868. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1868. Disponível em 12-dezembro.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVII (“Pedi e obtereis”) — sobre a prece coletiva.
  • KARDEC, Allan. A Gênese, cap. XIV (“Os fluidos”) — base fluídica do mecanismo.
  • Edição local: 12-dezembro (texto integral do discurso da Sessão Comemorativa de 1868).