Joseph Bré

Identificação

Espírito apresentado em O Céu e o Inferno, 2ª parte, cap. III (“Espíritos em uma condição média”). Morreu em 1840; foi evocado em Bordeaux em 1862 pela própria neta — a evocação ocorre 22 anos após a desencarnação, numa relação familiar direta. O subtítulo do verbete pelo próprio Kardec sintetiza o tema: “O homem honesto segundo Deus ou segundo os homens”.

Em vida, foi tido como homem honesto pela opinião pública; após desencarnar, reconhece que essa honestidade não bastava perante a lei divina. A autoavaliação é o eixo do depoimento: não foi um malfeitor — foi um justo passivo, e a passividade no bem é o que ele expia.

Papel

Joseph Bré é um dos exemplos kardecistas para a condição intermediária dos Espíritos: nem felizes consumados, nem sofredores em sentido estrito; estão em expiação por omissão, mais que por falta ativa. O caso é didático para três pontos doutrinários:

  1. A insuficiência da honestidade legal. A moral espírita não se contenta com o cumprimento das leis humanas. O homem que apenas “respeita as leis do país” e “não toma ostensivamente os bens do próximo” não cumpriu, por isso, a lei divina — pode tê-la transgredido pelo silêncio, pela maledicência (“palavras mordazes, veneno escondido sob flores”), pela omissão da caridade ativa.
  2. O critério positivo da honestidade diante de Deus. Kardec deixa que o próprio comunicante o formule: ser ativo no trabalho, ativo nas boas obras, ativo no exemplo; cuidar do coração contra orgulho, inveja e ambição; perdoar sem ostentação; amar a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a si mesmo. É a moral evangélica aplicada como dever ativo, não como moralidade civil.
  3. A misericórdia divina como porta aberta. A expiação descrita por Bré não é tortura sem saída: “a bondade de Deus é grande; ele leva em conta as circunstâncias”. O sofrimento é arrependimento — função pedagógica, não punição vingativa. A mensagem termina com a promessa de que as boas obras “cobrem as faltas à força” e a “mão poderosa apagará as faltas”.

Citações relevantes

Sobre o estado em que se encontra:

“Estou expiando minha falta de fé; mas a bondade de Deus é grande: ele leva em conta as circunstâncias. Sofro, não como poderias entender, mas de arrependimento por não ter empregado bem meu tempo na terra.” (Joseph Bré, em C&I, 2ª parte, cap. III)

Sobre a diferença entre honestidade humana e honestidade divina:

“Há um abismo entre o homem honesto perante os homens, e o homem honesto perante Deus. […] Entre vós, considera-se como homem honesto aquele que respeita as leis de seu país, respeito elástico para muitos; aquele que se não faz mal ao próximo tomando-lhe ostensivamente seus bens; mas toma frequentemente sem escrúpulo sua honra, sua felicidade, desde que a lei, ou a opinião pública, não possam alcançar o culpado hipócrita.” (Joseph Bré, em C&I, 2ª parte, cap. III)

Sobre o homem honesto perante Deus:

“O homem honesto perante Deus é aquele que, cheio de devoção e amor, dedica sua vida ao bem, ao progresso de seus semelhantes […]; ativo no cumprimento da tarefa material que lhe é imposta, pois deve ensinar a seus irmãos o amor ao trabalho; ativo nas boas obras, pois não deve esquecer que é apenas um servidor ao qual o senhor pedirá um dia contas do uso de seu tempo.” (Joseph Bré, em C&I, 2ª parte, cap. III)

Mensagem final, que Kardec preserva como regra prática:

“Que eles cubram suas faltas à força de boas obras, e a misericórdia divina se deterá na superfície; seus olhos paternos contarão as expiações, e sua mão poderosa apagará as faltas.” (Joseph Bré, em C&I, 2ª parte, cap. III)

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Fontes

  • KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 2ª parte, cap. III, “Joseph Bré”. Trad. Manuel Justiniano Quintão. FEB. Edição: ceu-e-inferno.