Raça adâmica

Definição

Na explicação espírita, a raça adâmica é uma colônia de Espíritos migrada de outro mundo mais adiantado, que deu origem à raça simbolizada na figura bíblica de Adão. Não se trata do primeiro grupo humano da Terra, mas de uma imigração espiritual que encontrou o planeta já povoado.

“Foi uma dessas grandes imigrações, ou, se quiserem, uma dessas colônias de Espíritos, vinda de outra esfera, que deu origem à raça simbolizada na pessoa de Adão e, por essa razão mesma, chamada raça adâmica.” (Gênese, cap. XI, item 38)

Ensino de Kardec

Antecedente na Revista Espírita (mar/1860)

A doutrina é fixada por Kardec oito anos antes da publicação de A Gênese (1868), em resposta longa a leitor anônimo da revista-espirita-1860 (mar/1860, “Os pré-adamitas”). O artigo articula em três tempos a posição que a Gênese consagrará: (a) a Bíblia é texto figurado que admite interpretação, “como já se admitiu no caso da rotação da Terra e dos seis dias da Criação”; (b) a Geologia mostra o cataclismo geológico anterior ao aparecimento do homem, distinto do dilúvio de Noé; (c) a diversidade fisiológica das raças não permite tronco único, e a cronologia bíblica de 6.000 anos é insuficiente. Conclusão programática:

“Para nós é evidente que as raças primitivas da Terra provêm de origens diferentes. […] Adão, que viveu há 6000 anos, como tendo povoado uma região ainda desabitada.” (RE, mar/1860, “Os pré-adamitas”)

A versão do Pentateuco em genese cap. XI item 38 substitui o argumento negativo (não-tronco-único) pelo argumento positivo (raça adâmica como imigração de Espíritos vindos de outro mundo) — material que LE q. 59 já indicava em 1860 e que Emmanuel sistematiza em A Caminho da Luz (1939).

”Ensaio de interpretação da doutrina dos anjos decaídos” (RE, jan/1862)

Em janeiro de 1862, na Revista Espírita, Kardec publica o artigo doutrinário longo “Ensaio de interpretação da doutrina dos anjos decaídos” — matriz direta do cap. XI de A Gênese. O artigo articula em cinco passos a tese que se tornará canônica:

1. “Anjos decaídos” não são seres criados perfeitos que caíram. O termo “anjo”, no contexto da queda, deve ser tomado em acepção geral — Espíritos. “Se os anjos fossem seres criados perfeitos, sendo a revolta contra Deus um sinal de inferioridade, aqueles que se revoltaram não poderiam ser anjos.” A categoria reúne os Espíritos imperfeitos punidos por sua revolta — materialistas, ateus, hipócritas, ímpios.

2. A raça adâmica é geração de Espíritos exilados, não tronco da humanidade. Documentos da história chinesa, leis da antropologia e comparação com selvagens da Nova-Holanda (mais primitivos que Adão) provam que a humanidade é mais antiga que Adão. A raça adâmica foi enviada à Terra já povoada por homens primitivos, com a missão de civilizá-los — “trazendo para o seu meio as luzes de uma inteligência já desenvolvida”.

3. Analogia da Nova Caledônia. Em 24/05/1861, a fragata Iphigénie desembarcou na Nova Caledônia uma companhia disciplinar de 291 homens punidos. O comandante saudou-os com discurso prometendo “levar com brilho, para o meio das tribos selvagens […] o facho da civilização”. Kardec extrai a homologia: aqueles homens são à Nova Caledônia o que a raça adâmica é à Terra.

4. Pecado original como remanescente de imperfeição inicial. “Considerado como responsabilidade por uma falta cometida por outrem, o pecado original é uma insensatez e a negação da justiça de Deus. Ao contrário, considerado como consequência e remanescente de imperfeição inicial do indivíduo, […] se considera de plena justiça a responsabilidade dela decorrente.” (RE, jan/1862)

5. Mateus 24:34 reinterpretado. “Esta geração não passará sem que se cumpram todas estas coisas” — não a geração biológica do tempo do Cristo, mas a geração dos Espíritos que percorreram seus períodos de reencarnação na Terra e estão prestes a deixá-la. Tese da transição planetária articulada com emigracoes-e-imigracoes-dos-espiritos.

Material integralmente reaproveitado em A Gênese, cap. XI, itens 38–44 (1868) — seis anos depois.

Anterioridade da presença humana

“Quando ela aqui chegou, a Terra já estava povoada desde tempos imemoriais, como a América, quando aí chegaram os europeus” (Gênese, cap. XI, item 38). A raça adâmica não é, portanto, a ancestral de toda a humanidade terrestre.

Superioridade relativa

“Mais adiantada do que as que a tinham precedido neste planeta, a raça adâmica é, com efeito, a mais inteligente, a que impele ao progresso todas as outras” (Gênese, cap. XI, item 38). A Gênese bíblica a mostra “desde os seus primórdios, industriosa, apta às artes e às ciências, sem haver passado aqui pela infância espiritual” — o que se explica pela bagagem adquirida em vidas anteriores noutro mundo.

Pluralidade dos troncos humanos

Kardec argumenta que a diversidade fisiológica das raças humanas não permite atribuir-lhes tronco único (Gênese, cap. XI, item 39). A cronologia bíblica de seis mil anos é insuficiente para explicar o povoamento do globo (Gênese, cap. XI, itens 41–42).

Paralelo com os “anjos decaídos”

Os Espíritos que persistem no mal num mundo em progresso são excluídos e enviados a mundos menos adiantados — onde se tornam, para os habitantes locais, como “anjos ou Espíritos decaídos, ali vindos em expiação” (Gênese, cap. XI, item 43). A raça adâmica ilustra o mecanismo inverso: Espíritos mais adiantados vindos impulsionar o progresso.

Desenvolvimento por Emmanuel

Em A Caminho da Luz (cap. 3), Emmanuel identifica a origem dos Espíritos adâmicos: um mundo da Constelação do Cocheiro (Capela), cujo ciclo evolutivo exigia o afastamento de “alguns milhões de Espíritos rebeldes”. Jesus os recebeu na Terra e exortou-os à regeneração pelo trabalho e pela dor.

Esses Espíritos formaram quatro grandes grupos [[obras/a-caminho-da-luz|(Emmanuel/Chico Xavier, A Caminho da Luz, cap. 3)]]:

  1. Árias — ancestrais dos indo-europeus (latinos, celtas, gregos, germanos, eslavos)
  2. Egípcios — os menos endividados, portadores dos mais elevados patrimônios morais
  3. Israelitas — povo de Israel
  4. Hindus — castas da Índia

“Aqueles seres angustiados e aflitos […] seriam degredados na face obscura do planeta terrestre; andariam desprezados na noite dos milênios da saudade e da amargura.” [[obras/a-caminho-da-luz|(Emmanuel/Chico Xavier, A Caminho da Luz, cap. 3)]]

A tradição bíblica do “paraíso perdido” é interpretada por Emmanuel como reminiscência do mundo de origem: “As tradições do paraíso perdido passaram de gerações a gerações, até que ficassem arquivadas nas páginas da Bíblia” (cap. 3).

Ver a-caminho-da-luz.

Aplicação prática

O conceito de raça adâmica integra a cosmogonia espírita ao demonstrar que o progresso humano não é linear nem exclusivamente terrestre. A Terra é estação de passagem: recebe Espíritos vindos de mundos inferiores (para expiar) e de mundos superiores (para impulsionar), num fluxo contínuo de emigrações e imigrações.

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Fontes

  • Kardec, Allan. A Gênese, cap. XI, itens 38–44. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 59 (comentário sobre Adão, o dilúvio e as raças). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. Revista Espírita, mar/1860, “Os pré-adamitas” (formulação programática antecedente ao Pentateuco). Edição local: 1860.
  • Kardec, Allan. Revista Espírita, jan/1862, “Ensaio de interpretação da doutrina dos anjos decaídos” (matriz direta do cap. XI da Gênese). Edição local: 1862.
  • XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). A Caminho da Luz, cap. 3. FEB, 1939.