Voltaire

Identificação

  • Nome civil: François-Marie Arouet (1694–1778), conhecido pelo pseudônimo Voltaire
  • Origem: Paris, França. Filho de notário; educado pelos jesuítas no Collège Louis-le-Grand
  • Vida e obra: maior nome do iluminismo francês. Combateu publicamente a intolerância religiosa, a censura, a tortura judicial e a Igreja institucional (“Écrasez l’infâme!”). Cunhou o “deísmo voltairiano” — Deus relojoeiro distante, hostilidade ao dogma. Obras canônicas: Cândido (1759), Tratado sobre a Tolerância (1763), Dicionário Filosófico (1764), tragédias e poemas (incluindo o controvertido La Pucelle d’Orléans, sátira contra Joana d’Arc)
  • Relação com Frederico II da Prússia: convidado pelo monarca, viveu em Sanssouci de 1750 a 1753; ruptura amarga, tema retomado nas evocações de 1859

Papel

Espírito arrependido e revisor de sua própria obra evocado em duas comunicações sucessivas na Revista Espírita de 1859, ambas publicadas após a sessão de 18 de março de 1859 da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas:

  1. “Palestras familiares de além-túmulo — Voltaire e Frederico” (RE, ago/1859) — diálogo simultâneo entre os dois Espíritos via dois médiuns atuando em paralelo, dispositivo metodológico raro na codificação.
  2. “Confissão de Voltaire” (RE, set/1859) — comunicação extensa traduzida do inglês, extraída de obra do juiz Edmonds publicada nos Estados Unidos. Tem a forma de diálogo entre Voltaire e o cardeal Wolsey (ministro de Henrique VIII). Recebida por dois médiuns americanos, sem comunicação com a primeira.

A função doutrinária é tripla:

  1. Modelo paradigmático de arrependimento e revisão de obra após desencarne — Voltaire reconhece que sua negação radical de Deus e da imortalidade era movida por orgulho intelectual (“Eu era orgulhoso; negava a divindade por orgulho, com o que sofri e do que me arrependo”) e que sua influência efetiva foi nefasta mais do que libertadora.
  2. Identificação por dupla atestação — duas comunicações independentes (Paris × EUA), em línguas diferentes, com o mesmo lastro de pensamento. Kardec usa o caso para ensinar que identidade dos Espíritos não exige idêntico estilo literário, mas sim continuidade do pensamento de fundo: “Se foi o mesmo Espírito que falou nas duas comunicações, por que é tão explícito e poético em uma delas, quanto lacônico e vulgar na outra? É preciso não ter estudado os fenômenos espíritas para não o compreender.”
  3. Crítica retrospectiva do iluminismo materialista — Voltaire reconhece que sua oposição radical à religião institucional, embora visasse “tolas opiniões”, abriu caminho para a negação geral de Deus pelos espíritos “demasiado fracos e pequenos” para chegarem aonde ele chegava — sementes do materialismo que Kardec combaterá em “Resposta a Oscar Comettant” no mesmo volume.

Citações relevantes

Sobre a missão e os erros:

“Meu Espírito estava dominado pelo orgulho, pois eu tinha a missão de dar um impulso a um povo na infância. Minhas obras são a consequência disso.” (RE, ago/1859)

Sobre o La Pucelle d’Orléans (sátira contra Joana d’Arc):

”— O que podeis dizer particularmente sobre o vosso Joana d’Arc?
— É uma diatribe. Fiz coisas piores.”
(RE, ago/1859)

Sobre o ateísmo declarado:

“Ora, eu não acreditava senão na matéria, bem o sabeis; e ela morre. […] Eu era orgulhoso; negava a divindade por orgulho, com o que sofri e do que me arrependo.” (RE, ago/1859)

Sobre a entrada no mundo espiritual:

“Descrente e vacilante, entrei no mundo espírita. […] Foi assim, zombeteiro e desafiador, que abordei o mundo espírita. A princípio fui levado para longe das habitações dos Espíritos, e percorri o espaço imenso. […] Era obrigado a ver, e ver até que a minha alma ficasse deslumbrada pelos esplendores e esmagada ante o poder que controlava tais maravilhas.” (RE, set/1859, “Confissão de Voltaire”)

Sobre a permanência da consciência mesmo na incredulidade:

“Houve sempre em minha alma uma débil voz que se fazia ouvir através dos grilhões materiais e que pedia luz. Era uma luta incessante entre o desejo de saber e uma obstinação em não saber.” (RE, set/1859)

Sobre o lado positivo de sua obra:

“Reconheço que em alguns casos minhas opiniões tiveram influência nefasta. Tenho, porém, a convicção de que, sob outros aspectos, tiveram seu lado bom. […] Quebraram as cadeias do pensamento e deram asas a grandes aspirações. Mas, ah! Eu também, que planava tão alto, perdi-me como os outros.” (RE, set/1859)

Diálogo com Frederico (RE, ago/1859)

Texto curto entre os dois antigos amigos arrependidos:

Voltaire ─ Meu caro monarca, vedes que reconheço os meus erros e que estou longe de falar como nas minhas obras. […]
Frederico ─ É verdade, meu caro Arouet, mas não finjamos mais. Seria inútil, pois caíram todos os véus.
Voltaire ─ Deixamos tantos desastres atrás de nós que muitas lágrimas nos serão precisas a fim de obtermos o perdão.

Voltaire instrui o ex-monarca: “Eu vos supunha menos bom do que realmente sois.”“Tornai-vos bom e humilde, para que eu também seja humilde.”

Obras associadas

Não há obras de Voltaire psicografadas registradas na Revista Espírita. As referências do Espírito são sempre retrospectivas — comentários de revisão, não nova produção literária.

Páginas relacionadas

Fontes

  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, ago/1859, “Palestras familiares de além-túmulo — Voltaire e Frederico”. Edição local: 1859.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, set/1859, “Confissão de Voltaire” (extraída de Edmonds, Spiritualism, EUA).
  • EDMONDS, John W. Spiritualism. New York, 1853–1855. (Fonte primária da “Confissão” — diálogo Voltaire × Wolsey.)