Primeira Epístola aos Coríntios
Dados bibliográficos
- Autor: Paulo de Tarso, em colaboração com o irmão Sóstenes (1 Co 1:1). Escrita provavelmente de Éfeso (1 Co 16:8), por volta de 54–55 d.C., durante a terceira viagem missionária.
- Destinatário: “À igreja de Deus que está em Corinto” (1 Co 1:2) — comunidade fundada pelo próprio Paulo na segunda viagem (At 18:1–17).
- Título: Primeira Epístola do Apóstolo Paulo aos Coríntios (Bíblia ACF — Almeida Corrigida e Fiel).
- Nível na hierarquia de autoridade: Nível 3 — escrito apostólico (NT canônico não-evangélico). Citado seletivamente por Kardec (caps. 13 e 15:44 são referências clássicas no ESE); lido à luz do Pentateuco.
- Capítulos: 16
- Texto integral: 1
Cabeçalho
Primeira Coríntios é, entre as epístolas paulinas, a mais densa para o estudo espírita. Paulo responde pontualmente às divisões, escândalos morais e perguntas doutrinárias de uma comunidade mista — cristãos de origem judaica e gentios, vivendo numa cidade portuária cosmopolita e marcada pela promiscuidade religiosa e moral. Do emaranhado de problemas locais emerge um corpus doutrinário de alcance universal.
Para o estudo espírita, 1 Coríntios é precioso por quatro razões:
- Hino à caridade (cap. 13) — base escritural direta de ESE cap. XV (“Fora da caridade não há salvação”). Kardec retoma Paulo como formulação neotestamentária da lei moral suprema.
- Corpo natural e corpo espiritual (cap. 15) — a distinção paulina (1 Co 15:44) é formulação neotestamentária do perispírito, aproveitada por Kardec na Gênese cap. XIV e em ESE cap. IV.
- Dons do Espírito e ordenação mediúnica (caps. 12–14) — maior corpus neotestamentário sobre mediunidade. Lista de dons (12:8–10), critério “Deus não é Deus de confusão, senão de paz” (14:33), princípio de controle do médium: “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (14:32). Inclui a primeira menção neotestamentária ao discernimento de espíritos como dom (12:10).
- Ceia e autoexame (cap. 11) — “Examine-se, pois, o homem a si mesmo” (11:28) é a formulação paulina litúrgica do princípio do “Conhece-te a ti mesmo” ensinado por Santo Agostinho em LE q. 919.
Passagens-chave citadas ou aproveitadas por Kardec: 1 Co 13:1–13 (caridade, ESE cap. XV, item 4); 1 Co 15:44 (corpo espiritual, Gênese cap. XIV; ESE cap. IV); 1 Co 13:13 (fé, esperança, caridade — hierarquia das virtudes); 1 Co 3:13–15 (prova pelo fogo, coerente com C&I sobre penas reparadoras); 1 Co 12:10 (discernimento de espíritos, fundamento NT de LM 2ª parte cap. XXIV).
Estrutura e temas por capítulo
Introdução e polêmica contra as divisões (caps. 1–4)
Cap. 1 — Saudação; partidos em Corinto; loucura da cruz. Paulo denuncia as contendas: “cada um de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas, e eu de Cristo” (1:12). Enuncia o princípio da inversão evangélica: “Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias” (1:27) — a sabedoria humana é insuficiente para conhecer a Deus (1:21). Base da distinção entre sabedoria mundana e sabedoria divina que percorre toda a carta. Ver 1.
Cap. 2 — Sabedoria espiritual vs. sabedoria humana. “O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (2:14). Distinção crucial entre “espírito do mundo” e “Espírito que provém de Deus” (2:12). Para o estudo espírita, paralelo direto com ESE cap. XXIV (“Não ponhais a candeia debaixo do alqueire” — as verdades espirituais se revelam progressivamente aos que têm ouvidos para ouvir) e com a fé raciocinada (ESE cap. XIX). Ver 2.
- Conceitos: fe-raciocinada
Cap. 3 — Carnais e espirituais; o fundamento; prova pelo fogo. Paulo classifica os coríntios como “carnais, como a meninos em Cristo” (3:1); distingue níveis de maturidade espiritual, coerente com a progressividade das provas (LE q. 776–800). “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (3:6) — desativação do culto à personalidade. Alegoria da prova pelo fogo (3:12–15): quem edifica sobre o fundamento de Cristo com “ouro, prata, pedras preciosas” vê a obra permanecer; quem edifica com “madeira, feno, palha” sofrerá o detrimento, “mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo”. Leitura espírita: alegoria das penas temporárias e reparadoras (C&I 1ª parte caps. VI–VII) — não fogo eterno, mas prova purificadora proporcional ao desvio. “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (3:16) — paralelo com ESE cap. XVII (adoração em espírito e verdade). Ver 3.
- Conceitos: expiacao-e-reparacao, penas-eternas
Cap. 4 — Autoridade apostólica e julgamento humano. “A mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por algum juízo humano; nem eu tampouco a mim mesmo me julgo. Porque em nada me sinto culpado; mas nem por isso me considero justificado, pois quem me julga é o Senhor” (4:3–4) — princípio de consciência que relativiza o juízo alheio sem dispensar o juízo divino. “O Senhor […] trará à luz as coisas ocultas das trevas, e manifestará os desígnios dos corações” (4:5) — coerente com a justiça divina que “não se ilude” (ESE cap. XVIII). Ver 4.
Questões morais e casos de consciência (caps. 5–10)
Cap. 5 — O incestuoso; “presente no espírito”. Caso escandaloso de fornicação na comunidade. Curiosamente, Paulo escreve: “Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espírito, já determinei […]” (5:3) — formulação que, em chave espírita, sugere ação consciente à distância pelo perispírito (cf. Gênese, cap. XIV, item 18 — irradiação fluídica; emancipação da alma). Ver 5.
Cap. 6 — Processos entre irmãos; corpo como templo. “Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos?” (6:3) — passagem enigmática sobre a responsabilidade espiritual futura. “O vosso corpo é o templo do Espírito Santo” (6:19) — retomada de 3:16, base para a ética do respeito ao corpo e da condenação da fornicação. “Fugi da fornicação. Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo” (6:18) — coerente com Lei de Conservação (LE q. 702–727) e com o princípio de que o corpo é instrumento a ser preservado para a obra da alma. Ver 6.
Cap. 7 — Casamento, celibato, separação, escravidão, vocação. Capítulo doutrinariamente delicado. Paulo prefere o celibato (“bom seria que o homem não tocasse em mulher”, 7:1; “quereria que todos os homens fossem como eu mesmo”, 7:7) e trata o casamento como concessão (“melhor casar do que abrasar-se”, 7:9; “os tais terão tribulações na carne”, 7:28). Aos casados, ordena a indissolubilidade e a não-separação (7:10–11). “Cada um fique na vocação em que foi chamado” (7:20) — princípio de aceitação da posição social, delicado à luz da evolução doutrinária. Ver 7.
Divergência com Kardec
A preferência paulina pelo celibato como ideal superior (1 Co 7) contrasta com a doutrina kardequiana da Lei de Reprodução (LE q. 686–701). Em LE q. 698 — “O celibato voluntário representa um estado de perfeição meritório aos olhos de Deus?” — a resposta dos Espíritos é: “Não, e os que assim vivem por egoísmo desagradam a Deus e enganam o mundo”. Kardec reconhece o mérito do celibato voluntário por sacrifício em prol da humanidade (q. 699), mas não como ideal superior ao casamento. Ver celibato-como-ideal-paulino.
Cap. 8 — Coisas sacrificadas aos ídolos; ciência e amor. “A ciência incha, mas o amor edifica” (8:1) — axioma aplicável ao estudo espírita: o conhecimento sem caridade degenera em orgulho (cf. ESE cap. VII — bem-aventurança dos pobres de espírito). “O ídolo nada é no mundo” (8:4) — reconhecimento da vacuidade dos ídolos (monoteísmo radical), mas com preocupação pastoral: não escandalizar o irmão de consciência mais fraca. Ver 8.
Cap. 9 — Direitos do apóstolo e renúncia voluntária; “fiz-me tudo para todos”. Paulo defende seu direito de ser sustentado pelo evangelho, mas renuncia voluntariamente para não criar obstáculo (9:12, 9:15). “Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns” (9:22) — princípio de adaptação pedagógica coerente com o ensino espírita da linguagem acessível e da progressividade da revelação (ver tres-revelacoes). Alegoria do atleta que se abstém de tudo para alcançar a coroa incorruptível (9:24–27). Ver 9.
Cap. 10 — Tipologia do Êxodo; idolatria e demônios; liberdade e consciência do outro. “Estas coisas lhes sobreveio como figuras” (10:11) — princípio hermenêutico de leitura alegórica do AT, compatível com a leitura espírita. “As coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus” (10:20) — em chave espírita, os cultos idolátricos atraem espíritos inferiores que se aproveitam da sintonia (LM 2ª parte cap. XXIII). “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam. Ninguém busque o proveito próprio; antes cada um o que é de outrem” (10:23–24) — princípio da liberdade subordinada à caridade. Ver 10.
- Conceitos: demonios
Culto, ceia e dons espirituais (caps. 11–14)
Cap. 11 — Ordem no culto; ceia do Senhor; autoexame. Abertura sobre o véu das mulheres e a “cabeça” (11:3–16) — ponto delicado (ver divergência abaixo). Instituição da ceia (11:23–26): “recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão […]” — narrativa paralela a Mt 26, Mc 14, Lc 22 e recebida “do Senhor” (tradição apostólica direta).
“Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão” (11:28) — formulação paulina litúrgica do princípio do autoexame moral. Paralelo direto com LE q. 919 (Conhecimento de si mesmo):
“Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.” (LE q. 919, Resposta dos Espíritos)
“Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever.” (LE q. 919, Santo Agostinho)
A ceia é, nessa leitura espírita, ocasião ritual do exame diário de consciência — não magia eucarística que opera por si, mas ato moral que requer auto-avaliação prévia (“quem come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação”, 11:29). Ver 11.
Divergência com Kardec
Os trechos 11:3–16 (véu feminino, “o homem é a cabeça da mulher”) e 14:34–35 (“as vossas mulheres estejam caladas nas igrejas”) contrastam com a doutrina da igualdade dos sexos em LE q. 817–822, especialmente q. 822: “O homem e a mulher são iguais perante Deus, por conseguinte devem sê-lo perante a lei”. Também contrasta com Atos 2:17 (“vossas filhas profetizarão”) e Gálatas 3:28 (“não há macho nem fêmea”). Crítica exegética moderna discute se 14:34–35 é interpolação pós-paulina. Ver condicao-feminina-nas-paulinas.
Cap. 12 — Diversidade dos dons; corpo único. “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (12:4). Lista programática (12:8–10): sabedoria, ciência, fé, dons de curar, operação de maravilhas, profecia, discernimento dos espíritos, variedade de línguas, interpretação das línguas. Cada uma dessas categorias tem paralelo direto no quadro sinótico dos médiuns em LM 2ª parte caps. XVI–XVII (itens 187–196): médiuns curadores, inspirados, proféticos, poliglotas etc. A formulação “discernimento dos espíritos” (12:10) é a primeira menção neotestamentária explícita do que Kardec desenvolverá em LM 2ª parte cap. XXIV (identificação dos Espíritos) — ver discernimento-dos-espiritos.
Metáfora do corpo (12:12–27): unidade na diversidade. “Se um membro padece, todos os membros padecem com ele” (12:26) — formulação paulina da solidariedade espiritual (LE q. 775 — “a solidariedade é a lei eterna”; ESE cap. XIV). Ver 12.
- Conceitos: mediunidade, discernimento-dos-espiritos
Cap. 13 — O caminho mais excelente: o amor (caridade). O “hino à caridade” — capítulo central para o estudo espírita. Na ACF, a palavra grega agape é traduzida como “amor” (nas traduções seguidas por Kardec — Louis Segond em francês, Vulgata caritas — a mesma palavra aparece como “caridade”):
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé […] e não tivesse amor, nada seria.” (1 Co 13:1–2)
“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; […] tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” (1 Co 13:4–7)
“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.” (1 Co 13:13)
Kardec cita esta passagem em ESE cap. XV, item 4, como base neotestamentária da máxima “Fora da caridade não há salvação”. O v. 8 — “O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá” — estabelece a primazia da moral sobre os fenômenos: dons mediúnicos passam; a caridade permanece (cf. Viagem Espírita em 1862 — o período moralista sucede o fenomênico). Ver 13.
- Conceitos: caridade, lei-de-justica-amor-e-caridade
Cap. 14 — Profecia, línguas e ordem no culto. “Segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar” (14:1). Paulo hierarquiza os dons pela utilidade coletiva: profecia (comunicação inteligível) > línguas (ininteligível sem intérprete). “Cinco palavras na minha própria inteligência” valem mais que “dez mil palavras em língua desconhecida” (14:19). Princípios centrais para o estudo espírita da mediunidade:
- Controle e lucidez do médium: “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (14:32). O médium não é autômato; mesmo nas comunicações inspiradas, conserva ou deve conservar o discernimento (LM 2ª parte cap. XIX, item 223). O “abandono total” é tão condenável como a intervenção excessiva.
- Critério da paz: “Deus não é Deus de confusão, senão de paz” (14:33). Manifestações tumultuadas, desordenadas, produtoras de medo, não procedem de Espíritos elevados (LM 2ª parte cap. XXIV — identificação; cap. X — evocações perigosas). A paz interior é critério positivo de autenticidade.
- Julgamento coletivo: “Falem dois ou três profetas, e os outros julguem” (14:29). Princípio do discernimento em grupo — ninguém tem acesso privilegiado à verdade; a comunicação se valida pelo exame pelos pares (cf. LM 2ª parte cap. XXIX; Viagem Espírita em 1862 — seriedade dos grupos).
- Edificação como critério: “Faça-se tudo para edificação” (14:26); “faça-se tudo decentemente e com ordem” (14:40).
Ver 14.
Ressurreição e despedida (caps. 15–16)
Cap. 15 — Ressurreição dos mortos e corpo espiritual. Capítulo doutrinariamente decisivo. Paulo argumenta que negar a ressurreição é negar a própria pregação (15:12–19). Recebe tradição antiga sobre as aparições do Cristo ressurgido (15:3–8), culminando na sua própria (15:8 — “como a um abortivo”). “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (15:22) — universalismo da salvação (cf. ESE cap. XI; LE q. 1009–1016).
A partir de 15:35, Paulo enfrenta a pergunta “com que corpo virão?”:
“Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer. […] Mas Deus dá-lhe o corpo como quer, e a cada semente o seu próprio corpo.” (15:36–38)
“E há corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres. Uma é a glória do sol, e outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória de outra estrela.” (15:40–41)
“Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual.” (15:44)
A distinção soma psychikon (corpo natural/animal) vs. soma pneumatikon (corpo espiritual) é formulação neotestamentária do perispírito, aproveitada por Kardec:
“Há no homem três coisas: 1ª o corpo, ou ser material análogo aos animais […]; 2ª a alma, ser imaterial, Espírito encarnado no corpo; 3ª o laço que une a alma e o corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito.” (LE q. 135, comentário)
Na Gênese cap. XIV, item 7, Kardec cita diretamente Paulo: “o corpo carnal e o perispírito têm pois origem no mesmo elemento primitivo; ambos são matéria, ainda que em dois estados diferentes”. A “ressurreição” paulina, lida pelo Espiritismo, não é reanimação de cadáver mas persistência consciente do Espírito em seu corpo espiritual após a morte do corpo carnal (cf. LE q. 150, letra a — “o Espírito conserva a aparência da última encarnação”).
Também relevante: “Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais” (15:48) — a configuração do perispírito se modifica conforme o mundo habitado e o grau moral (Gênese cap. XIV, itens 8 e 10 — variação do perispírito conforme o mundo e conforme o progresso do Espírito). “A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus” (15:50) — o corpo físico é incompatível com a vida espiritual; a transformação é regra da passagem.
Ver 15.
- Conceitos: perispirito, morte, vida-futura
Cap. 16 — Coleta para os santos; planos de viagem; saudações. Coleta organizada sistematicamente: “no primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade” (16:2) — caridade material organizada, continuidade do modelo de Atos 2 e 4 (comunhão de bens). Saudações finais incluem Áquila e Priscila, Estéfanas, Fortunato, Acaico. “Todas as vossas coisas sejam feitas com amor” (16:14) — selo moral da carta. Ver 16.
- Conceitos: caridade
Temas centrais para o estudo espírita
- Caridade como síntese da lei moral — 1 Co 13 é a formulação paulina da lei de amor, base escritural de ESE cap. XV. A hierarquia “fé, esperança, amor” (13:13) coloca a caridade como vértice. Nota filológica: ACF “amor” = Kardec “caridade” = agape (grego) = caritas (Vulgata).
- Corpo espiritual e perispírito — 1 Co 15:44 é a referência neotestamentária clássica do perispírito. A progressividade 15:40–41 (sol, lua, estrelas — diferentes glórias) articula com a pluralidade dos mundos habitados e a hierarquia dos mundos (LE q. 172; Gênese cap. III).
- Dons espirituais e tipologia mediúnica — 1 Co 12:8–10 é o locus classicus do NT; paralelo direto com o quadro de LM cap. XVI. Os dons paulinos se distribuem nas categorias de Kardec: cura, profecia, xenoglossia, discernimento.
- Discernimento dos espíritos — 1 Co 12:10 introduz explicitamente o dom; 1 Co 14:29 institui o julgamento coletivo das comunicações. Fundamentos neotestamentários de LM 2ª parte cap. XXIV. Ver discernimento-dos-espiritos.
- Ordenação mediúnica — “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (14:32) + “Deus não é Deus de confusão” (14:33) + “faça-se tudo decentemente e com ordem” (14:40) = tríade paulina de controle, paz e ordem. Critérios operacionais da boa prática mediúnica.
- Sabedoria espiritual vs. sabedoria humana — “o homem natural não compreende” (2:14); “a ciência incha, mas o amor edifica” (8:1). Fundamento paulino da fé raciocinada e da primazia moral sobre a erudição (ESE cap. XIX; LE q. 886).
- Autoexame moral — “examine-se o homem a si mesmo” (11:28). Paralelo direto com LE q. 919 (Conhece-te a ti mesmo — Santo Agostinho). A ceia como ocasião do exame diário.
- Prova pelo fogo — 1 Co 3:13–15 é alegoria das penas reparadoras; o salvo “como pelo fogo” refuta a tese do castigo eterno (cf. penas-eternas; C&I 1ª parte caps. VI–VII).
- Idolatria e demônios — 8:4 + 10:20 articulam monoteísmo (ídolo nada é) com reconhecimento dos espíritos inferiores associados a cultos degradados (cf. demonios).
- Universalismo e adaptação pedagógica — “fiz-me tudo para todos” (9:22); todos vivificados em Cristo (15:22). Articula com a progressividade da revelação e com a lei de justiça, amor e caridade.
Referências cruzadas com o Pentateuco
| Passagem de 1 Coríntios | Pentateuco |
|---|---|
| 1 Co 2:14 — homem natural não compreende o Espírito | ESE cap. XIX (fé raciocinada); cap. XXIV (candeia sob o alqueire) |
| 1 Co 3:13–15 — prova pelo fogo | C&I 1ª parte caps. VI–VII (penas temporárias e reparadoras) |
| 1 Co 3:16; 6:19 — templo de Deus / do Espírito | ESE cap. XVII (adoração em espírito e verdade); LE q. 658–664 |
| 1 Co 5:3 — “ausente no corpo, presente no espírito” | Gênese cap. XIV, item 18 (irradiação fluídica); LE q. 400–418 (emancipação) |
| 1 Co 7 — celibato como ideal | Divergência com LE q. 698–699 (Lei de Reprodução) |
| 1 Co 8:1 — “a ciência incha, mas o amor edifica” | ESE cap. VII (pobres de espírito); LE q. 886 |
| 1 Co 10:11 — “foram-nos feitas em figura” | ESE Introdução (leitura alegórica do AT) |
| 1 Co 10:20 — sacrificam aos demônios | LM 2ª parte cap. XXIII (espíritos inferiores em sintonia) |
| 1 Co 11:3–16; 14:34–35 — véu e silêncio das mulheres | Divergência com LE q. 817–822 (igualdade dos sexos) |
| 1 Co 11:28 — “examine-se o homem a si mesmo” | LE q. 919 (Conhece-te a ti mesmo — Santo Agostinho) |
| 1 Co 12:8–10 — diversidade dos dons | LM 2ª parte cap. XVI, itens 187–196 (quadro sinótico dos médiuns) |
| 1 Co 12:10 — discernimento dos espíritos | LM 2ª parte cap. XXIV (identificação dos Espíritos) |
| 1 Co 12:12–27 — um corpo, muitos membros | LE q. 775 (solidariedade); ESE cap. XIV |
| 1 Co 13 — hino à caridade | ESE cap. XV, item 4 (“Fora da caridade não há salvação”) |
| 1 Co 13:13 — fé, esperança, amor | ESE cap. XIX (fé); LE q. 886–892 |
| 1 Co 14:32 — “espíritos dos profetas sujeitos aos profetas” | LM 2ª parte cap. XIX, item 223 (o médium como intérprete ativo) |
| 1 Co 14:33 — “Deus não é Deus de confusão” | LM 2ª parte cap. XXIV (critérios de identificação) |
| 1 Co 14:29 — “e os outros julguem” | LM 2ª parte cap. XXIV; Viagem Espírita em 1862 (grupos sérios) |
| 1 Co 15:22 — “todos vivificados em Cristo” | ESE cap. XI; LE q. 1009–1016 (salvação universal) |
| 1 Co 15:40–41 — glória diferente dos corpos celestes | LE q. 172 (hierarquia dos mundos); Gênese cap. III |
| 1 Co 15:44 — corpo natural / corpo espiritual | Gênese cap. XIV, item 7 (perispírito); ESE cap. IV; LE q. 135 |
| 1 Co 15:48 — qual o terreno, tais os terrestres | Gênese cap. XIV, itens 8–10 (variação do perispírito) |
| 1 Co 15:50 — carne e sangue não herdam o reino | LE q. 150 (persistência do perispírito) |
Conceitos tratados
- caridade — cap. 13; base de ESE cap. XV
- perispirito — 15:44 (“corpo espiritual”)
- mediunidade — caps. 12–14 (dons e ordenação)
- discernimento-dos-espiritos — 12:10; 14:29
- identidade-dos-espiritos — 14:33 (critério da paz)
- fe-raciocinada — 2:14 (discernimento espiritual)
- expiacao-e-reparacao — 3:13–15 (prova pelo fogo)
- penas-eternas — “salvo, todavia como pelo fogo” (3:15)
- demonios — 10:20
- lei-de-justica-amor-e-caridade — cap. 13
- lei-de-conservacao — 6:18–20 (corpo como templo)
- vida-futura — cap. 15
Personalidades citadas
- paulo-de-tarso — autor; narra brevemente sua conversão em 15:8–10.
- pedro-apostolo — mencionado como Cefas (1:12; 3:22; 9:5; 15:5).
- jesus — centro da pregação; sua ceia rememorada (11:23–26); suas aparições pós-ressurreição listadas (15:3–8).
- Sóstenes — co-saudador da carta (1:1); provavelmente o mesmo chefe de sinagoga de At 18:17, já convertido.
- Apolo — pregador eloquente, cooperador de Paulo (1:12; 3:4–6, 22; 4:6; 16:12); cf. At 18:24–28.
- Crispo e Gaio — batizados por Paulo (1:14); Crispo era chefe da sinagoga de Corinto (At 18:8).
- Estéfanas — primeiras conversões da Acaia, dedicado ao ministério dos santos (1:16; 16:15–17).
- Cloé — família reportou as contendas a Paulo (1:11).
- Timóteo — enviado para lembrar os ensinos (4:17; 16:10–11); discípulo e cooperador.
- Barnabé — mencionado como companheiro (9:6); cf. At 13–15.
- Áquila e Priscila — saudam a igreja “com a igreja que está em sua casa” (16:19); hospedaram Paulo em Corinto (At 18:2–3).
- Fortunato e Acaico — delegados da igreja de Corinto a Paulo (16:17).
Divergências registradas
- celibato-como-ideal-paulino — 1 Co 7 vs. LE q. 695 (Lei de Reprodução). Status: aberta.
- condicao-feminina-nas-paulinas — 1 Co 11:3–16 e 14:34–35 vs. LE q. 817–822 (igualdade dos sexos); cf. At 2:17 e Gl 3:28. Status: aberta.
Fontes
- Bíblia Sagrada (Almeida Corrigida e Fiel). Primeira Epístola aos Coríntios, caps. 1–16. Texto integral em 1.
- KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Esp. caps. IV, XI, XV (item 4), XVII, XIX, XXIV.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Esp. q. 93, 135, 150, 172, 400–418, 658–664, 686–701 (Lei de Reprodução — esp. q. 698–699 sobre celibato), 775, 817–822 (igualdade dos sexos), 886–892, 919 (Conhece-te a ti mesmo), 1009–1016.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Esp. 2ª parte, caps. XVI–XVII (quadro sinótico), XIX (o médium como intérprete), XXIII (obsessão), XXIV (identificação dos Espíritos), XXIX (desinteresse).
- KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Esp. cap. III (mundos); cap. XIV (perispírito), itens 7–10, 18, 21.
- KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Esp. 1ª parte, caps. VI–VII (penas temporárias e reparadoras).