Demonios

Segundo o Espiritismo, demonios nao sao seres de natureza essencialmente perversa, criados a parte e devotados ao mal por toda a eternidade. Sao Espiritos imperfeitos que ainda se encontram na parte inferior da escala evolutiva, mas que podem e devem progredir. Nao ha seres eternamente maus (C&I, 1a parte, cap. IX, item 20).

Ensino de Kardec

Origem do dualismo bem/mal

A crenca num poder superior e instintiva nos homens. Mas povos primitivos, mais sensiveis ao mal do que ao bem, viram na natureza uma luta incessante entre forcas opostas. Como nao podiam admitir que o mal fosse obra de um poder benéfico, concluiram pela existencia de dois principios rivais: o do bem e o do mal (C&I, 1a parte, cap. IX, item 4).

Essa doutrina foi logica para aquela epoca, pois o homem era incapaz de penetrar a essencia do Ser supremo e de compreender que o mal nao e mais do que um estado momentaneo do qual pode sair o bem. Sem ver alem de uma unica existencia, nao podia entender que as vicissitudes sao resultado da imperfeicao do ser espiritual que preexiste e sobrevive ao corpo (C&I, 1a parte, cap. IX, item 4).

O duplo principio foi personificado sob diversos nomes: Oromaz e Arima entre os persas, Jeova e Sata entre os hebreus. Os cristaos e muculmanos receberam dos hebreus os anjos e os demonios (C&I, 1a parte, cap. IX, item 5).

Demonios segundo a Igreja

A Igreja ensina que Sata nao e uma personificacao alegorica do mal, mas um ser real, fazendo exclusivamente o mal. A pastoral do cardeal Gousset (1865) descreve os anjos caidos como seres que foram criados perfeitos e cumulados dos dons mais magnificos, mas que se revoltaram por orgulho e ciume diante do projeto de mediacao do Cristo. Lucifer, o mais belo arcanjo, teria exclamado: “Sou eu que subirei ao ceu; sentar-me-ei na montanha da alianca” (C&I, 1a parte, cap. IX, itens 7-8).

Segundo essa doutrina:

  • Os demonios foram banidos irrevogavelmente, precipitados no abismo e condenados ao fogo eterno;
  • Parte deles permanece no inferno atormentando as almas; outra parte vagueia em liberdade na atmosfera terrestre;
  • Sua funcao e tentar os homens, arrastando-os ao mal por ardis e seducoes;
  • Nao perderam suas faculdades angelicas --- possuem inteligencia, perspicacia e rapidez prodigiosas;
  • Sua perda e sem retorno; o arrependimento e impossivel para eles (C&I, 1a parte, cap. IX, itens 8, 13, 16).

Refutacao de Kardec

Kardec desenvolve uma refutacao rigorosa, partindo sempre dos atributos de Deus:

  1. Se Sata e de toda eternidade, e incriado e igual a Deus --- entao Deus nao e unico. Se e posterior a Deus, e criatura de Deus. Visto que nao faz senao o mal e e incapaz de arrependimento, Deus criou um ser votado ao mal para sempre --- e nao e infinitamente bom (C&I, 1a parte, cap. IX, item 7).

  2. Se os anjos foram criados perfeitos, como puderam falhar? Se eram verdadeiramente perfeitos, a queda e incompreensivel. Deus quisera criar neles seres perfeitos e enganou-se --- portanto, segundo a Igreja, Deus nao e infalivel (C&I, 1a parte, cap. IX, item 9).

  3. Presciencia divina. Deus sabia desde a eternidade que certos anjos falhariam e que essa queda acarretaria danacao eterna. Se sabia e criou assim mesmo, criou esses anjos com conhecimento de causa para sua perda irremediavel. Se nao sabia, nao e onisciente. Em ambos os casos, nega-se um atributo essencial de Deus (C&I, 1a parte, cap. IX, item 11).

  4. O demonios como agentes provocadores. Deus permite que eles impilam os homens ao mal, sabendo que as vitimas serao condenadas eternamente. A vitima e punida mais severamente que o agente provocador, pois vai para o inferno para sempre, ao passo que o demonio goza de liberdade ate o fim do mundo. A justica de Deus seria entao inferior a dos homens? (C&I, 1a parte, cap. IX, itens 14-15)

“Os demonios sao assim os agentes provocadores predestinados a recrutar almas para o inferno, e isso com a permissao de Deus, que sabia, criando essas almas, o destino que lhes estava reservado. O que se diria, na terra, de um juiz que fizesse isso para povoar as prisoes?” (C&I, 1a parte, cap. IX, item 15)

  1. Inutilidade do arrependimento. Se a porta da esperanca esta fechada, o demonios persevera no mal porque o retorno ao bem nao teria nenhum fruto. Deus prefere ve-los fazer o mal a conceder um perdao condicional subordinado ao retorno ao bem (C&I, 1a parte, cap. IX, item 19).

“E em nome de Jesus Cristo, daquele que nao pregou senao o amor, a caridade e o perdao, que se ensinam semelhantes doutrinas!” (C&I, 1a parte, cap. IX, item 19)

Demonios segundo o Espiritismo

Segundo a doutrina espirita, a criacao dos seres inteligentes e una. Nao ha anjos nem demonios como seres a parte. Deus criou todos os Espiritos perfectiveis, deu-lhes por objetivo a perfeicao e a bem-aventuranca, mas nao lhes deu a perfeicao; quis que a devessem a seu trabalho pessoal (C&I, 1a parte, cap. IX, item 20).

Desde o embriao do ser inteligente ate o anjo, ha uma cadeia ininterrupta na qual cada elo marca um grau no progresso. Existem Espiritos em todos os graus de avanco: nos mais inferiores, ha os profundamente inclinados ao mal. Pode-se chama-los demonios, se se quiser, pois sao capazes das maldades atribuidas a estes. Mas o Espiritismo nao lhes da esse nome porque se vincula a ele a ideia de seres de natureza essencialmente perversa, devotados ao mal por toda a eternidade e incapazes de progredir (C&I, 1a parte, cap. IX, item 20).

“Segundo a doutrina da Igreja, os demonios foram criados bons, e tornaram-se maus por sua desobediencia: sao anjos caidos; foram colocados por Deus no alto da escala, e desceram. Segundo o Espiritismo, sao Espiritos imperfeitos, mas que se aperfeicoarao; ainda estao na parte inferior da escala, e subirao.” (C&I, 1a parte, cap. IX, item 21)

Os que permanecem mais tempo nas posicoes inferiores carregam essa pena, e o habito do mal torna-lhes mais dificil sair dele. Mas chega um tempo em que se cansam dessa existencia penosa; comparando sua situacao com a dos bons Espiritos, compreendem que seu interesse esta no bem, e procuram aperfeicoar-se por sua propria vontade (C&I, 1a parte, cap. IX, item 21).

As manifestacoes modernas e o demonio (Cap. X)

A Igreja atribui as manifestacoes espiritas modernas exclusivamente a acao dos demonios, pois parte do principio de que anjos e demonios sao seres distintos das almas humanas. Kardec refuta essa posicao demonstrando que os fenomenos sao produzidos pelas almas dos que viveram na terra, em diversos graus de adiantamento (C&I, 1a parte, cap. X, itens 1-5).

Se o demonio nao existe como ser real e distinto, nao pode ser a causa das manifestacoes. Alem disso, atribuir ao demonio fenomenos que reconduzem incredulos a Deus e viciosos ao bem e fazer dele um verdadeiro nescio que trabalha contra seus proprios interesses (C&I, 1a parte, cap. X, item 7).

“Veem-se todos os dias incredulos e ateus levados de volta a Deus e rezarem com fervor, o que nunca tinham feito; pessoas viciosas trabalharem com ardor no seu aperfeicoamento. Pretender que essa e a obra dos ardis do demonio e fazer dele um verdadeiro nescio.” (C&I, 1a parte, cap. X, item 7)

Kardec tambem demonstra que o Espiritismo nao tem nenhuma relacao com a magia: nao ha meios de coagir Espiritos, nao ha formulas cabalisticas, nao ha talismas, nao ha descoberta de tesouros. A unica disposicao necessaria e o recolhimento, a fe e o desejo do bem (C&I, 1a parte, cap. X, itens 9-11).

Aplicacao pratica

O estudo dos capitulos IX e X e essencial para quem deseja compreender e explicar a posicao espirita sobre o mal e sua origem. Em palestras, o tema permite esclarecer equivocos frequentes: o Espiritismo nao nega a existencia de Espiritos maus, mas nega que sejam eternamente maus ou que constituam uma raca a parte. O mal nao e uma forca autonoma oposta a Deus, mas o resultado temporario da imperfeicao de Espiritos que estao a caminho da perfeicao.

Para o estudo pessoal, este conceito traz consolacao e responsabilidade em partes iguais: consolacao porque nenhum ser esta perdido para sempre; responsabilidade porque o mal que fazemos e nosso, nao obra de um tentador externo irresistivel. A luta do bem contra o mal e interna, e a vitoria depende do livre-arbitrio de cada um.

Paginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Ceu e o Inferno. 1a parte, caps. IX e X. FEB.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Espiritos. Parte 2a, cap. I. FEB.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Mediuns. 2a parte, caps. XVII e XXV. FEB.