Reencarnação
Definição
Processo pelo qual a alma, para alcançar a perfeição que não atingiu em uma existência, passa por nova vida corporal (LE, q. 166). Tratada em profundidade na Parte 2, Cap. IV (q. 166–222).
“Expiação, melhoramento progressivo da Humanidade. Sem isto, onde a justiça?” (LE, q. 167)
Fundamento: a justiça de Deus
Kardec fundamenta a reencarnação na justiça divina: “o bom pai deixa sempre aberta a seus filhos uma porta para o arrependimento” (LE, q. 171). Seria injusto privar para sempre da felicidade eterna aqueles que não dependeu deles melhorarem-se.
A alma passa por tantas existências quantas forem necessárias à sua perfeição; os Espíritos não retrogradam, podem apenas estacionar (LE, q. 166, q. 118).
Onde ocorre
Pode haver várias encarnações no mesmo globo, se o Espírito ainda não se adiantou o bastante para passar a mundo superior (LE, q. 173). É possível voltar à Terra depois de existências em outros mundos (LE, q. 173, letra b).
Ver pluralidade-dos-mundos-habitados.
Escolha e livre-arbítrio
O Espírito escolhe o gênero de prova por que há de passar — nisso consiste o livre-arbítrio no estado errante (LE, q. 258). Nada ocorre sem a permissão de Deus.
No ESE
O cap. IV do ESE retoma a reencarnação sob a perspectiva evangélica. Kardec analisa o diálogo de Jesus com Nicodemos: “Se um homem não nascer de novo, não poderá ver o reino de Deus” (Jo 3:3) — demonstrando que o princípio da pluralidade das existências estava presente no próprio Evangelho (ESE, cap. IV). O texto integral deste diálogo encontra-se em evangelho-segundo-joao (cap. 3). Note-se que Jesus acrescenta: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (Jo 3:6) — distinção entre corpo material e Espírito imortal que sustenta a tese da reencarnação.
No mesmo Evangelho, a pergunta dos discípulos sobre o cego de nascença — “Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9:2) — pressupõe a possibilidade de pecado antes do nascimento, o que implica existência anterior. A formulação da pergunta mostra que a ideia de vidas anteriores era familiar àquela cultura (ESE, cap. IV).
Outro ponto central é o retorno de Elias como João Batista, com base em S. Mateus 11:14 (“ele mesmo é o Elias que há de vir”) e S. Mateus 17:10–13 (a confirmação de Jesus aos discípulos). Kardec observa que, se João Batista era Elias, houve necessariamente reencarnação do Espírito de Elias no corpo de João Batista (ESE, cap. IV).
A reencarnação fortalece os laços de família, ao contrário do que supõem os que a combatem: “longe de destruir os laços de afeição, a pluralidade das existências os fortalece”, porque aproxima os seres por vínculos consolidados em múltiplas vidas (ESE, cap. IV, item 18).
Ver evangelho-segundo-o-espiritismo.
Pluralidade das existências na antiguidade
Kardec reconhece que a ideia não é nova — vem de Pitágoras e, antes, dos druidas. Mas ressalta que, por ser uma Lei da Natureza, o princípio há de existir desde a origem dos tempos (LE, q. 222).
Antecedentes documentados em RE 1862
A [[wiki/obras/revista-espirita-1862|Revista Espírita de 1862]] traz dois artigos articulados que documentam o reconhecimento dos antecedentes:
“Pandus e Kurus” (RE ago/1862) — extrato do Mahabharata enviado de Nantes, com o diálogo de Krishna e Arjuna sobre a imortalidade da alma e a reencarnação:
“Metida em nossos corpos, a alma atravessa a juventude, a idade madura, a decrepitude, e passando a novos corpos, ela recomeça o seu curso. […] A alma é uma coisa que o gládio não penetra, o fogo não consome, as águas não deterioram e o vento sul não resseca.” (RE, ago/1862)
“Charles Fourier, Louis Jourdain e a reencarnação” (RE dez/1862) — texto programático sobre a metodologia espírita. Frente à acusação de plágio, Kardec reconhece antecedentes explícitos:
- Charles Fourier (Théorie de l’unité universelle) — afirmou a reencarnação como pedra angular de sua teoria.
- Louis Jourdan — Préres de Ludovic (1849), publicado “antes que se cogitasse do Espiritismo”; livro inteiramente assentado na reencarnação.
- Jean Reynaud — Céu e Terra (1854).
- Druidas e brâmanes (confirmado pelo extrato do Mahabharata).
A passagem programática:
“Quando ele [o princípio da reencarnação] nos foi revelado, ficamos surpresos, e o acolhemos com hesitação e desconfiança. Nós até mesmo o combatemos, durante algum tempo, até que a evidência nos foi demonstrada. Assim, nós ACEITAMOS esse dogma e não o INVENTAMOS, o que é muito diferente.” (RE, dez/1862)
Demarcação metodológica decisiva: o Espiritismo é descobridor, não inventor da reencarnação.
Desenvolvimento por Léon Denis
Denis dedica toda a segunda parte de O Problema do Ser e do Destino (caps. 13–19) à defesa e ao aprofundamento da reencarnação: expõe suas leis, compila provas experimentais (regressão de memória sob hipnose — experiências de Rochas, Colavida, Marata), provas por crianças-prodígio, provas históricas (druidismo céltico, tradições orientais) e responde objeções. Apresenta a reencarnação como “condição necessária à educação e aos progressos” da alma (Léon Denis, O Problema do Ser, cap. 13).
Ver o-problema-do-ser-e-do-destino.
Em Cristianismo e Espiritismo
Denis dedica os caps. III–IV e a nota complementar nº 5 à presença da reencarnação no Cristianismo primitivo. Argumenta que Orígenes e vários Pais da Igreja ensinavam os “castigos medicinais” — existências sucessivas da alma para resgate de faltas — e que essa doutrina “ensinada pelos espíritos” foi suprimida pelos concílios porque “não inspirava bastante terror ao pecado e à morte” e tornava desnecessária a mediação sacerdotal: “O homem, podendo resgatar a si mesmo de suas faltas, não tinha necessidade do padre” [[obras/cristianismo-e-espiritismo|(Léon Denis, Cristianismo e Espiritismo, cap. VI)]].
Denis reforça a exegese de Kardec (ESE, cap. IV) sobre o diálogo de Jesus com Nicodemos (João 3:3) e a identificação de Elias com João Batista (Mateus 17:10–13), demonstrando que a reencarnação fazia parte do ensino original do Cristo.
Ver cristianismo-e-espiritismo.
Engenharia da reencarnação assistida [[obras/missionarios-da-luz|(André Luiz, Missionários da Luz, 1945)]]
A primeira descrição detalhada da mecânica fluídica de uma reencarnação completa — desde a reconciliação prévia entre Espíritos credores até a fecundação assistida e a consolidação aos sete anos — está em Missionários da Luz, caps. 13–14 (caso Segismundo–Adelino–Raquel) e cap. 15 (caso Volpíni–Cesarina, fracasso reencarnatório). Por ser tratamento extenso e tecnicamente articulado, o material foi sistematizado em conceito próprio:
→ Ver planejamento-reencarnatorio para a doutrina completa: reconciliação espiritual, mapas cromossômicos, redução perispiritual, fecundação assistida, gestação cooperativa, consolidação aos sete anos, e o caso Volpíni como contraexemplo.
A formulação amplia LE q. 344–345 (união do perispírito com o corpo) sem contradizê-la — é aprofundamento, não divergência.
Mecânica fluídica [[obras/entre-a-terra-e-o-ceu|(André Luiz, Entre a Terra e o Céu, 1954)]]
A obra apresenta descrição detalhada do processo perispirítico da gravidez, coerente com a base kardequiana (LE, q. 344–345) e aprofundando-a em termos fenomenológicos:
- Reencarnação embriogênica automática. Para a maioria dos Espíritos, “os princípios embriogênicos funcionam automáticos, cada dia. A lei de causa e efeito executa-se sem necessidade de fiscalização da nossa parte” (cap. 28). Basta o magnetismo dos pais e o desejo do reencarnante.
- Reencarnação assistida. Quando o reencarnante tem missão de envergadura, “forças de ordem superior são fatalmente mobilizadas para a interferência nos cromossomos”, ajustando sistema nervoso e estrutura cerebral à tarefa (cap. 28).
- O seio materno como refundição. “O seio maternal é um vaso anímico de elevado poder magnético ou um molde vivo destinado à fundição e refundição das formas” (cap. 28). O perispírito, “constituído à base de princípios químicos semelhantes, em suas propriedades, ao hidrogênio”, sofre contração eletromagnética ao ligar-se ao centro genésico feminino; a matéria que não serve à refundição é devolvida ao plano etereal (cap. 29).
- Hereditariedade relativa. “Somos herdeiros de nós mesmos” (cap. 29). Os progenitores fornecem recursos dentro dos limites da afinidade magnética, mas “durante a gravidez, a mente [do reencarnante] permanece associada à mente materna, influenciando a formação do embrião” — a alma reencarnante carrega consigo as enfermidades psíquicas que já portava no plano espiritual. “Na mente reside o comando. A consciência traça o destino, o corpo reflete a alma.”
Confissão reencarnatória de Emmanuel (Há Dois Mil Anos…, 1939)
ha-dois-mil-anos é, ela mesma, um dos documentos doutrinários mais explícitos da pluralidade das existências na literatura espírita — não em registro teórico, mas em primeira pessoa. Emmanuel narra sua trajetória pessoal pelo ciclo Públio Lêntulus Sura (cônsul ao tempo de Cícero, estrangulado em 63 a.C.) → Públio Lêntulus (senador romano contemporâneo de Tibério) → Espírito comunicante.
No capítulo “Dois amigos”, Públio relata um sonho-revelação em que comparece, antes do renascimento na gens Cornélia, ante o tribunal de magistrados em togas alvas que fixa o programa expiatório:
“Públio Lêntulus, a justiça dos deuses, na sua misericórdia, determina tua volta ao turbilhão das lutas do mundo, para que laves as nódoas de tuas culpas nos prantos remissores. Viverás numa época de maravilhosos fulgores espirituais, lutando com todas as situações e dificuldades, não obstante o berço de ouro que te receberá ao renasceres, a fim de que edifiques tua consciência denegrida, nas dores que purificam e regeneram!… Determinou-se que sejas poderoso e rico, a fim de que, com o teu desprendimento dos caminhos humanos, no instante preciso, possas ser elemento valioso para os teus mentores espirituais.” [[obras/ha-dois-mil-anos|(Emmanuel / Chico Xavier, Há Dois Mil Anos…, cap. “Dois amigos”)]]
Articula em chave narrativa o que LE q. 258 (escolha das provas) e q. 330 (exame da vida pelos espíritos errantes) descrevem em chave fenomenológica. A “fortuna como prova” (cap. acima) ecoa LE q. 814–822 (riqueza e pobreza como provações). Cf. também planejamento-reencarnatorio.
Divergências
- mudanca-de-sexo-reencarnacao — Denis restringe a mudança de sexo; Kardec a trata com naturalidade (LE, q. 200–202).
- almas-irmas-criadas-aos-pares — Denis afirma almas criadas aos pares; Kardec nega “união particular e fatal” (LE, q. 298).
- uma-morte-e-juizo-em-hebreus-9 — Hb 9:27 (“aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo”) é a passagem mais mobilizada pelas tradições cristãs contra a pluralidade das existências. Leitura espírita: argumento tipológico-sacerdotal da carta, não afirmação cosmológica. Status: aberta.
Páginas relacionadas
- reencarnacao — estudo sistemático dos 7 eixos doutrinários de LE Parte 2, caps. IV–V (q. 166–222).
- encarnacao — objetivo e mecânica da primeira/cada encarnação.
- progresso-espiritual — a reencarnação como meio de progresso.
- vida-espirita — o intervalo entre encarnações.
- livre-arbitrio — escolha das provas.
- o-que-e-o-espiritismo — diálogos introdutórios sobre a pluralidade das existências.
- primeiros-passos — trilha introdutória ao Espiritismo (passo 4: reencarnação).
Fontes
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Parte 2, Cap. IV (q. 166–222). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. IV — “Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo”. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Denis, Léon. O Problema do Ser e do Destino, Parte 2 (caps. 13–19). Trad. Homero Dias de Carvalho. CELD, 2011.
- Denis, Léon. Cristianismo e Espiritismo, caps. III–IV, VI; nota complementar nº 5. Trad. Albertina Escudeiro Sêco. CELD, 2012.
- XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). Missionários da Luz. FEB, 1945. Caps. 13–15 (planejamento reencarnatório, fecundação assistida, fracasso). Edição: missionarios-da-luz.
- XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). Entre a Terra e o Céu. FEB, 1954. Caps. 28–29.
- XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Há Dois Mil Anos… Rio de Janeiro: FEB, 1939. Cap. “Dois amigos” (tribunal espiritual e programa expiatório). Edição: ha-dois-mil-anos.