Lei de reprodução

Definição

Quarta lei moral, tratada em O Livro dos Espíritos, Parte 3, Cap. IV (q. 686–701).

“É Lei da Natureza a reprodução dos seres vivos? — Evidentemente. Sem a reprodução, o mundo corporal pereceria.” (LE, q. 686)

Equilíbrio populacional

A Terra não corre risco de excesso: “Deus a isso provê e mantém sempre o equilíbrio. Nada do que faz é inútil. O homem, que apenas vê um canto do quadro da natureza, não pode julgar da harmonia do conjunto.” (LE, q. 687)

Sucessão das raças e reencarnação

Os homens atuais não são uma criação nova — são os mesmos Espíritos que voltam para se aperfeiçoar em novos corpos. A raça atual tende a invadir toda a Terra e a substituir as que se extinguem, mas “ainda está longe da perfeição”; outras, mais aperfeiçoadas, a substituirão (LE, q. 688–689).

Do ponto de vista físico, “a origem das raças se perde na noite dos tempos”, mas todas pertencem à grande família humana e puderam aliar-se entre si (LE, q. 690). O traço distintivo das raças primitivas foi a força bruta à custa da força intelectual; hoje o homem faz cem vezes mais pela inteligência, porque soube tirar proveito das forças da Natureza (LE, q. 691).

Ciência e aperfeiçoamento das raças

A melhoria das raças animais e vegetais pela Ciência não é contrária à Natureza: “sendo a perfeição a meta para que tende a Natureza, favorecer essa perfeição é corresponder às vistas de Deus” (LE, q. 692). Mesmo quando o esforço nasce de motivo egoísta, o progresso se realiza; cabe ao homem torná-lo meritório pela intenção (LE, q. 692a).

Obstáculos artificiais à reprodução

“Tudo o que embaraça a Natureza em sua marcha é contrário à lei geral.” (LE, q. 693)

Leis e costumes humanos que criem obstáculos artificiais à reprodução são, em princípio, contrários à Lei da Natureza. Mas o homem recebeu poder sobre os seres vivos: pode regular a reprodução de acordo com as necessidades, “não deve, porém, opor-lhe obstáculos desnecessariamente” (LE, q. 693a). Quando a restrição serve apenas à sensualidade, “prova a predominância do corpo sobre a alma e quanto o homem está apegado à matéria” (LE, q. 694).

Casamento como progresso

“Será contrário à Lei da Natureza o casamento? — É um progresso na marcha da humanidade.” (LE, q. 695)

A abolição do casamento seria “regressão à vida dos animais” (LE, q. 696). A união livre e fortuita dos sexos é o estado de natureza bruto; o casamento “constitui um dos primeiros atos de progresso nas sociedades humanas, porque estabelece a solidariedade fraterna” (LE, q. 696, nota).

Indissolubilidade absoluta

“Está na Lei da Natureza, ou somente na lei humana, a indissolubilidade absoluta do casamento? — É uma lei humana muito contrária à da Natureza. Mas os homens podem modificar suas leis; só as da Natureza são imutáveis.” (LE, q. 697)

A indissolubilidade absoluta é criação humana. O capítulo “Não separareis o que Deus juntou” (ESE, cap. XXII) complementa: Deus junta quando há afeição real; sem ela, o vínculo é humano, não divino.

Celibato voluntário

O celibato por egoísmo desagrada a Deus e “engana o mundo” (LE, q. 698). Mas o celibato como sacrifício pessoal em prol da humanidade — renúncia às alegrias da família para servir mais amplamente — é meritório: “todo sacrifício pessoal, quando feito para o bem, eleva o homem acima da sua condição material” (LE, q. 699, nota).

Poligamia

A igualdade numérica dos sexos indica a proporção em que devem unir-se: “tudo, na Natureza, tem um fim” (LE, q. 700). A poligamia é lei humana, não natural; “sua abolição marca um progresso social” (LE, q. 701). O casamento, “segundo as vistas de Deus, tem que se fundar na afeição dos seres que se unem. Na poligamia não há afeição real: há apenas sensualidade.” (LE, q. 701)

Aplicação prática

  • Entender a reprodução no quadro da reencarnação: cada nascimento é a volta de um Espírito, não a criação de uma alma nova.
  • Distinguir regulação (legítima) de obstáculo (contrário à Natureza) ao avaliar costumes contemporâneos.
  • Avaliar o celibato pela motivação: egoísmo ou serviço?
  • Reconhecer no casamento por afeto um ato de progresso, e na indissolubilidade sem afeto, uma lei só humana.

Em André Luiz: afeto verdadeiro e obsessão (Sexo e Destino, 1963)

André Luiz aplica a tese kardequiana ao drama familiar concreto em sexo-e-destino. A obra mostra como uniões movidas por paixão sem afeto verdadeiro abrem o casal a obsessão e possessão partilhada, gerando ciclos cármicos que se prolongam pela reencarnação. Félix expõe na Parte 2, cap. 5:

“Qualquer ligação sexual, instalada no campo emotivo, engendra sistemas de compensação vibratória, e o parceiro que lesa o outro, até o ponto em que suscitou os desastres morais consequentes, passa a responder por dívida justa. Todo desmando sexual danificando consciências reclama corrigenda, tanto quanto qualquer abuso do raciocínio.” [[obras/sexo-e-destino|(André Luiz / Chico Xavier + Waldo Vieira, Sexo e Destino, Parte 2, cap. 5)]]

É comentário fenomenológico ao princípio doutrinário de LE q. 701 (“na poligamia não há afeição real: há apenas sensualidade”) — sem contradizê-lo, descreve o mecanismo de compensação que se segue à infração. A obra sustenta também que o casamento por sedução ou interesse social, sem afinidade espiritual, é pasto fértil para a presença de vampirizadores que partilham as paixões do casal — tema desenvolvido em possessao-partilhada.

Em Emmanuel: as quatro normas (Vida e Sexo, 1970)

Em Vida e Sexo (Uberaba, jun/1970), Emmanuel reescreve em vocabulário pastoral aplicado o regime moral da Lei de Reprodução:

“Em torno do sexo, será justo sintetizarmos todas as digressões nas normas seguintes: Não proibição, mas educação. Não abstinência imposta, mas emprego digno, com o devido respeito aos outros e a si mesmo. Não indisciplina, mas controle. Não impulso livre, mas responsabilidade.” [[obras/vida-e-sexo|(Emmanuel / Chico Xavier, Vida e Sexo, Prefácio)]]

As quatro normas operacionalizam diretamente q. 693a (regular sem opor obstáculos), q. 694 (não rebaixar à sensualidade) e q. 701 (afeto, não sensualidade). Para a sistematização completa por eixos, ver sexualidade-em-emmanuel; para o conceito transversal de energia sexual que articula Kardec, Emmanuel e André Luiz, ver energia-sexual.

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Parte 3, Cap. IV (q. 686–701). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XXII. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Vida e Sexo. Rio de Janeiro: FEB, 1970. Edição: vida-e-sexo.
  • XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo (André Luiz). Sexo e Destino, Parte 2, cap. 5. Rio de Janeiro: FEB, 1963. Edição: sexo-e-destino.
  • Edição: livro-dos-espiritos.