Louis Desnoyers

Identificação

  • Nome: Louis Desnoyers
  • Nascimento: 1802, Replonges, Ain, França
  • Desencarnação: 1868, Paris, França (aos ~66 anos)
  • Profissão: Jornalista, romancista, dramaturgo. Co-fundador do jornal Le Siècle (1836); um dos fundadores da Sociedade dos Homens de Letras (1838).

Jornalista francês de prestígio em meados do século XIX. Co-fundador de Le Siècle (1836-1932), órgão liberal que se tornou um dos maiores jornais de Paris no Segundo Império. Autor da coletânea Les Aventures de Jean-Paul Choppart (1834) — clássico da literatura juvenil francesa que circulou abundantemente no séc. XIX. Espírito incrédulo em vida, posicionado dentro do meio jornalístico que caçoava do Espiritismo desde 1855 — sua comunicação pós-morte é peça-modelo de conversão tardia.

Desencarnação em 1868 — durante o ano de fechamento do Pentateuco. Dá duas comunicações em fevereiro-março de 1869 pela Sociedade Espírita de Paris (médium Pierre-Gaëtan Leymarie) que constituem caso doutrinário paradigmático de estado confusional pós-morte — registradas em 1869 sob o título “O despertar do Sr. Louis”.

Caso doutrinário do despertar pós-morte

Primeira comunicação (12 de fevereiro de 1869, médium Leymarie)

Desnoyers chega à SPEE convicto de que está sonhando, mais de um mês após sua morte. A comunicação registra o momento exato do despertar:

“Decididamente, senhores, malgrado meu, é preciso que eu abra os olhos e os ouvidos; é preciso que eu escute e veja. Por mais que negue, que declare que sois maníacos, muito corajosos, mas muito inclinados aos vossos devaneios, às ilusões, é necessário, confesso-o, a despeito dos meus ditos, que eu finalmente saiba que não mais sonho.”

“Não pertenço mais à Terra; estou morto; vi o luto dos meus, o pesar dos amigos, o contentamento de alguns invejosos, e agora venho ver-vos. Meu corpo não me seguiu; está mesmo lá, no seu recanto, no meio do adubo humano; e, com ou sem apelo, hoje venho a vós, não mais com despeito, mas com o desejo e a convicção de me esclarecer.”

Auxílio do Espírito Jobard:

“O amigo Jobard encarregou-se de me edificar a respeito, e isto com provas fundamentadas.”

A presença de Jobard — Espírito-introdutor pós-morte — articula esta comunicação à frente já trabalhada em RE 1864, 1865 e 1868 (Jobard como comunicante regular da SPEE, chefe espiritual de Bordeaux).

Reconhecimento da realidade espírita:

“Tenho perfeito discernimento; vejo o que fui; percorro com Jobard distâncias imensas, portanto, eu vivo, eu concebo, eu combino, eu possuo a minha vontade e meu livre-arbítrio, assim, nem tudo morre. Não éramos, pois, uma agregação inteligente de moléculas, e todas as salmodias sobre a inteligência da matéria não passavam de frases vazias e sem consistência.”

Reconciliação parcial:

“Por mais que me rebele e me revolte, há que obedecer à verdade. […] Vou refletir, reconhecer-me definitivamente, e se o resultado de minhas pesquisas sérias me conduzir às vossas ideias, há que esperar, não será mais para me queimar o cérebro.”

Segunda comunicação (5 de março de 1869, médium Leymarie)

Espontaneamente, Desnoyers retorna para falar sobre a morte de Lamartine (28/02/1869) — peça que articula seu próprio despertar à transfiguração de Lamartine:

“Mais que ele, eu sou um vencido; vencido pela morte, vencido em vida pela necessidade, esse inimigo insaciável que nos inquieta como um roedor; e muito mais vencido hoje, porque venho inclinar-me ante a verdade. […] Poderei eu, como ele, ganhar minha auréola e tornar-me resplandecente de felicidade, ver-me regenerar por vossa crença, cuja grandeza hoje compreendo? Por vós, Deus me marcou como uma ovelha desgarrada. Obrigado, senhores.”

Conclusão evangelizadora:

“Ao contato dos mortos tão lamentados, sinto-me viver e em breve direi convosco na mesma prece: A morte é a auréola; a morte é a vida.”

Lições principais

  1. A perturbação prolongada é compatível com inteligência preservada. Desnoyers conserva memória, raciocínio, livre-arbítrio e identidade — mas demora mais de um mês para reconhecer que morreu. A confusão pós-morte é função do estado moral antes da desencarnação (incredulidade, materialismo de profissão), não defeito cognitivo.
  2. A presença dos Espíritos-introdutores é decisiva. O auxílio de Jobard (espírita convicto, comunicante regular da SPEE desde 1864) é o que provoca o despertar. Confirma a doutrina das “missões” no espaço dos Espíritos adiantados sobre os recém-desencarnados (LM cap. XXIII; ESE cap. V).
  3. A negação materialista cai sob a evidência da continuidade da consciência. “Não éramos, pois, uma agregação inteligente de moléculas” — Desnoyers reproduz a mesma demolição experimental do materialismo que Kardec articula em “A carne é fraca” (RE mar/1869).
  4. Caso paradigmático de comunicação pós-morte como medicina pedagógica — Desnoyers retorna espontaneamente porque o reencontro com a SPEE é parte da sua reabilitação. Material direto para [[wiki/obras/ceu-e-inferno|O Céu e o Inferno]] (penas espirituais, categoria dos Espíritos sofredores).

Posição na codificação

Desnoyers entra na Revue sob a categoria caso doutrinário ilustrativo do despertar pós-morte, semelhante em função aos casos de “Sanson” (RE 1862) e “Doutor Vignal” (RE 1860 + 1865) — mas com perfil distinto: era um incrédulo público e influente (jornalismo de Le Siècle) cuja conversão pós-morte tem peso simbólico para a frente anti-materialista de Kardec.

A peça de RE abr/1869 antecede em apenas algumas semanas a própria morte de Kardec (31/03/1869); é, portanto, uma das últimas peças mediúnicas que Kardec preparou para publicação em vida. O caso continuará sendo material de referência para o estudo da desencarnação em condições de incredulidade prolongada.

Obras associadas (literárias, não-doutrinárias)

  • Les Aventures de Jean-Paul Choppart (1834) — clássico da literatura juvenil francesa.
  • Les béotiens de Paris (1840).
  • Aventures de Robert-Robert et de son fidèle compagnon Toussaint Lavenette (1839-1842).
  • Co-fundação do jornal Le Siècle (1836) — órgão liberal de grande tiragem no Segundo Império.
  • Co-fundação da Sociedade dos Homens de Letras (1838) — junto com Honoré de Balzac, Alexandre Dumas, Victor Hugo.

Páginas relacionadas

  • revista-espirita-1869 — duas comunicações pós-morte (abr/1869).
  • Jobard — Espírito-introdutor pós-morte; auxiliou o despertar.
  • lamartine — desencarnado em fev/1869, tema da segunda comunicação de Desnoyers.
  • Pierre-Gaëtan Leymarie — médium das duas comunicações.
  • morte — caso paradigmático de estado confusional prolongado.
  • perturbacao — categoria-chave do caso (LE q. 162-167; LM cap. XXIII).
  • ceu-e-inferno — referência para a categoria dos Espíritos sofredores em estado de perturbação.

Fontes

  • KARDEC, Allan. “O despertar do Sr. Louis”. Revista Espírita, abril de 1869 (Sociedade de Paris, 12 de fevereiro de 1869, médium Leymarie).
  • KARDEC, Allan. “O despertar do Sr. Louis” (continuação, sobre Lamartine). Revista Espírita, abril de 1869 (Sociedade de Paris, 5 de março de 1869, médium Leymarie).
  • DESNOYERS, Louis. Les Aventures de Jean-Paul Choppart. Paris: Aubert, 1834.
  • Edição local integral: 04-abril.