Lao-Tseu

Identificação

Lao-Tseu (老子, séc. VI a.C., aprox.) — filósofo chinês fundador do Taoísmo (or Daoísmo). Autor do Tao Te Ching (Daodejing, 道德經) — referido por Kardec como “A Razão Suprema e Virtude” na tradução do sinólogo francês Pauthier. Contemporâneo de Pitágoras (séc. VI a.C.) e duas gerações anterior a Sócrates e Platão (séc. V–IV a.C.). Originário da província de Lunan (Hunan), na China.

Posição na linhagem espírita: precursor não-cristão. Kardec lê Lao-Tseu como mais um nó da rede de pensadores antigos — Pitágoras, Sócrates, Platão, Sólon — cuja sabedoria moral antecipa princípios fundamentais do Espiritismo.

Papel

1. Primeiro tratamento sistematizado de filosofia chinesa na Revista (out/1868)

A peça “Doutrina de Lao-Tseu — Filosofia Chinesa” publicada em 1868 é o primeiro tratamento sistematizado de filosofia chinesa não-cristã na Revue Spirite. Material enviado por correspondente em Saigon, na Cochinchina (colônia francesa do sudeste asiático na época) — primeira contribuição vinda da Ásia ao corpus da Revista.

Tradução utilizada: Pauthier (Jean-Pierre Guillaume Pauthier, 1801–1873, sinólogo francês que traduziu Confúcio, Mêncio e o Tao Te Ching na coleção Sapientia Sinica). Kardec sublinha a credibilidade da fonte: “seus trabalhos sobre o filósofo chinês e sua doutrina são tanto mais notáveis e isentos de suspeita porquanto, falecido há muito tempo, ele ignorava até o nome da Doutrina Espírita”.

2. Cosmologia do Tas

Kardec apresenta a doutrina do Tas (transliteração que ele usa para Dào / 道) como razão suprema universal — primeiro ser, fonte e destino dos seres materiais e espirituais. Citação central:

“As formas materiais do grande poder criador não são senão as emanações do Tas; foi o Tas que produziu os seres materiais existentes. (Antes) não havia senão uma confusão completa, um caos indefinível; era um caos! uma confusão inacessível ao pensamento humano. Em meio a esse caos havia um princípio sutil, vivificante; esse princípio sutil, vivificante, era a suprema verdade.” (Lao-Tseu, citado em RE out/1868)

Hierarquia das leis:

“O homem tem a sua lei na Terra; a Terra tem a sua lei no Céu; o céu tem a lei no Tas ou a razão suprema universal; a razão suprema tem a sua lei em si mesma.”

Doutrina do retorno e da imortalidade:

“Todos os seres aparecem na vida e realizam os seus destinos; nós contemplamos as suas renovações sucessivas. […] Cada um deles retorna à sua origem. Retornar à sua origem significa tornar-se em repouso; tornar-se em repouso significa cumprir o seu mandato; cumprir o seu mandato significa tornar-se eterno.”

Kardec lê estas passagens como expressão arcaica da doutrina espírita do progresso e do retorno do Espírito à fonte divina.

3. Moral universal — caridade benevolente

Kardec destaca a passagem moral central:

“O homem virtuoso, devemos tratá-lo como um homem virtuoso; o homem vicioso devemos igualmente tratá-lo como um homem virtuoso. Eis a sabedoria e a virtude.” (Lao-Tseu)

Aplicação espírita: “Estas máximas correspondem ao que chamamos indulgência e caridade. Demonstrando-nos que o progresso é uma lei da Natureza, o Espiritismo precisa melhor esse pensamento, dizendo que é necessário tratar o homem vicioso como podendo e devendo, um dia, em consequência de suas existências sucessivas, tornar-se virtuoso, para o que lhe devemos fornecer os meios, em vez de o relegar entre os párias da danação eterna, e pensando que nós próprios talvez tivéssemos sido piores que ele”.

A reencarnação espírita completa o princípio chinês: o Espiritismo dá fundamento ontológico à indulgência que Lao-Tseu prescreve apenas como sabedoria prática.

4. Conhece-te a ti mesmo

Convergência com a sabedoria grega clássica (sem que Lao-Tseu tivesse contato com a fórmula de Tales):

“Aquele que conhece os homens é instruído; aquele que se conhece a si mesmo é verdadeiramente esclarecido. Aquele que subjuga os homens é poderoso; aquele que se domina a si mesmo é verdadeiramente forte. […] Aquele que não dissipa a sua vida é imperecível; aquele que morre e não é esquecido tem uma vida eterna.” (Lao-Tseu)

5. Único reparo de Kardec

Kardec aceita Lao-Tseu quase integralmente. Único ponto de divergência registrado:

“a leve tendência panteísta da não distinção, ou melhor, da identificação da criatura santificada com o Criador, tendência que, se viciosa, pode ser devida à influência do meio em que vivia o filósofo Lao-Tseu, talvez a uma sequência muito longa dada a essa notável cadeia de argumentos ou, enfim, à imperfeita interpretação dada por nós ao seu próprio pensamento.” (RE out/1868)

A divergência é cautelosa: Kardec não acusa, hesita entre três hipóteses (panteísmo real, contexto cultural, problema de tradução). O Espiritismo mantém a distinção Criador-criatura como princípio doutrinário (Deus como ser separado e supremo, embora imanente) — distinção que o panteísmo dilui.

6. Tese sobre o Espiritismo como religião primitiva

Kardec articula uma tese aberta sobre a universalidade da revelação:

“se é certo que ela [a doutrina de Lao-Tseu] nada contém de incompatível com o que admite a razão, por que não seria tão boa quanto tantas outras que dificilmente suportam a discussão? […] os princípios filosóficos do Espiritismo não são, em substância, senão os de Lao-Tseu, não se pode considerar a verdade da Doutrina Espírita como estando moralmente provada, fora dos ensinamentos do Cristo?” (RE out/1868)

Tese complementar — “a verdadeira religião, necessária à salvação, deve ter começado com o gênero humano. Ora, desde que ela é essencialmente una, como a verdade, como Deus, a religião primitiva já era o Cristianismo, assim como o Cristianismo, depois do Evangelho, é a religião primitiva consideravelmente desenvolvida” —, Kardec sustenta que o Espiritismo, por ser a verdade moral universal, encontra ecos em todas as tradições humanas que tocaram essa verdade, mesmo antes do Cristo.

Horizonte aberto: “quem sabe se os pontos de contato existentes entre a sua doutrina e o Espiritismo não será um dia um traço de união para a aliança fraterna das crenças? O que é bem certo é que quando todas as religiões reconhecerem que adoram o mesmo Deus sob nomes diversos; quando lhe concederem os mesmos atributos de soberana bondade e justiça; quando não diferirem senão na forma de adoração, os antagonistas religiosos cairão. É a esse resultado que deve levar o Espiritismo”.

Obras associadas

  • Tao Te Ching (Daodejing, 道德經) — referido por Kardec como “A Razão Suprema e Virtude”. Obra preservada do incêndio de livros ordenado pelo imperador Loang-Ti (Qin Shi Huang, 213 a.C.), o que Kardec destaca como prova de sua antiguidade e autenticidade.

Não consta tradução brasileira espírita dedicada. A leitura kardequiana fica no recorte do artigo de RE out/1868.

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Fontes

  • KARDEC, Allan. “Doutrina de Lao-Tseu — Filosofia Chinesa”. Revue Spirite, outubro/1868. Paris: Bureaux de la Revue Spirite, 1868.
  • PAUTHIER, Jean-Pierre Guillaume. Le Tao-te-king ou le Livre révéré de la Raison suprême et de la Vertu, par Lao-Tseu. Paris, 1838 (e edições posteriores).
  • Edição local: 10-outubro (texto integral).