Responsabilidade

Princípio moral segundo o qual cada Espírito responde por seus atos, pensamentos e omissões, na medida do conhecimento que possui e do livre-arbítrio de que dispõe. A responsabilidade é proporcional ao grau de entendimento: “de quem mais recebeu, mais se exigirá” (ESE, cap. XVI; S. Lucas, 12:48).

Ensino de Kardec

Responsabilidade e livre-arbítrio

O livre-arbítrio torna o Espírito responsável por suas escolhas. Sem liberdade não há mérito nem culpa. A responsabilidade cresce com o desenvolvimento moral e intelectual: o Espírito ignorante que faz o mal por desconhecimento é menos responsável que o esclarecido que faz o mal conscientemente (LE, q. 636–637).

Responsabilidade pelos outros

Kardec ensina que a responsabilidade não se limita aos próprios atos. Quem contribui para a queda de outrem — por mau exemplo, negligência ou opressão — responde pela parcela de mal que causou:

“A responsabilidade da sua desgraça recairá sobre os que lhe tiverem sido os causadores.” (LE, q. 640)

Parábola dos talentos

A parábola dos talentos (S. Mateus, 25:14–30) ilustra o princípio da responsabilidade no ensino de Jesus reinterpretado por Kardec: cada um é responsável pelo uso dos dons e oportunidades recebidos. Enterrar o talento — desperdiçar as capacidades — é faltar à responsabilidade diante de Deus (ESE, cap. XVI; ver parabola-dos-talentos).

Aplicação prática

A responsabilidade espírita convida ao autoexame permanente: o que fiz com o que recebi? Prejudiquei alguém por ação ou omissão? Em palestras, o conceito ajuda a combater tanto a indiferença (“não tenho nada com isso”) quanto o fatalismo (“estava escrito”).

Formulação paulina: Romanos 2 e 14

Paulo articula a responsabilidade individual em duas passagens convergentes:

“O qual recompensará cada um segundo as suas obras […]. Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas.” (Rm 2:6, 11, ACF)

“De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus.” (Rm 14:12)

Rm 2:6 é base paulina da mesma ideia expressa em LE q. 964–967 (Deus avalia pelas obras). Rm 14:12 condensa o princípio do foro interior: a conta moral é pessoal e intransferível, dada diretamente a Deus — sem mediação de grupo, igreja ou ritual. Paralelo com LE q. 636–640 (responsabilidade) e com a formulação de livre-arbítrio como fundamento moral (LE q. 843). Ver epistola-aos-romanos.

Em Hammed — As Dores da Alma

No tema 3 (“Irresponsabilidade”, ancorado em LE q. 851 e q. 860), Hammed desenvolve o oposto da responsabilidade como uma das 21 dores-da-alma:

“Somos nós mesmos que fazemos os nossos caminhos e depois os denominamos de fatalidade.” [[obras/as-dores-da-alma|(Hammed, As Dores da Alma, “Irresponsabilidade”)]]

Apoiado em LE q. 851 (“a fatalidade existe unicamente pela escolha que o Espírito fez ao encarnar”) e q. 860 (o homem pode alterar o curso dos fatos “se essa aparente mudança tiver cabimento na sequência da vida que ele escolheu”), Hammed articula a responsabilidade por meio da noção psicológica de limites — fronteiras internas que demarcam “onde nós terminamos e os outros começam”. O amadurecimento, diz, “inicia-se quando cessam as acusações ao mundo”. Ser responsável é “decidir por si mesmo para onde ir e descobrir a razão do próprio querer” — leitura psicológica coerente com o princípio kardecista do livre-arbítrio.

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte 3, cap. I, q. 636–640; q. 851, q. 860. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. XVI — “Não se pode servir a Deus e a Mamon”. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • ESPÍRITO SANTO NETO, Francisco do (Hammed). As Dores da Alma. 8ª ed. Catanduva: Boa Nova, ago/2000. Tema “Irresponsabilidade” (LE q. 851, q. 860).
  • Bíblia Sagrada (ACF). Epístola aos Romanos, 2:6, 11 e 14:10, 12. Ver epistola-aos-romanos.