Pluralidade dos mundos habitados

Definição

Princípio segundo o qual todos os globos do Espaço são habitados, em diversos graus de evolução material e moral. Tratado na Parte 1, Cap. III (q. 55–58).

“Sim, e o homem terreno está longe de ser, como supõe, o primeiro em inteligência, em bondade e em perfeição.” (LE, q. 55)

Diversidade dos mundos

A constituição física dos globos difere — nenhum se assemelha integralmente a outro (LE, q. 56). Correspondentemente, os seres que os habitam têm organizações diferentes, adaptadas ao meio: “do mesmo modo que no vosso os peixes são feitos para viver na água e os pássaros no ar” (LE, q. 57).

Conexão com a reencarnação

A pluralidade de mundos é o espaço de trânsito do Espírito em progresso: pode reencarnar no mesmo globo ou passar a mundos superiores (LE, q. 173). Ver reencarnacao.

No ESE

A base evangélica deste ensino encontra-se em Jo 14:2: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” — passagem que Kardec toma como epígrafe do cap. III do ESE. Ver evangelho-segundo-joao (cap. 14). Ainda em João, “tenho outras ovelhas que não são deste aprisco” (Jo 10:16) pode ser lido como referência à universalidade da missão de Jesus, que abrange seres de outros mundos.

O cap. III do ESE desenvolve a classificação dos mundos habitados em categorias progressivas: mundos primitivos (primeiras encarnações), mundos de expiação e provas (onde predominam o mal e o sofrimento — a Terra é um deles), mundos regeneradores (em que o mal começa a desaparecer), mundos felizes (onde o bem supera o mal) e mundos celestes (morada dos Espíritos purificados) (ESE, cap. III, itens 3–5).

Essa escala complementa o ensino do LE sobre a diversidade dos globos, detalhando as condições morais de cada categoria e a progressão do Espírito de um tipo de mundo a outro.

Ver mundos-primitivos · mundos-de-expiacao-e-provas · mundos-regeneradores · mundos-felizes · mundos-celestes-ou-divinos · evangelho-segundo-o-espiritismo.

Comunicação sobre Vênus (RE, ago/1862)

A [[wiki/obras/revista-espirita-1862|Revista Espírita de 1862]] traz, em agosto, o ditado espontâneo “O planeta Vênus” (médium Sr. Costel, Espírito Georges), que descreve Vênus como mundo intermediário entre Mercúrio e Júpiter:

“Os habitantes têm a mesma conformação física que vós. […] Em Vênus, a sutileza do ar, comparável à das altas montanhas, o torna impróprio aos vossos pulmões. As doenças aí são ignoradas. Seus habitantes só se nutrem de frutas e laticínios. Eles ignoram o bárbaro costume de alimentar-se de cadáveres de animais, ferocidade só existente nos planetas inferiores.” (RE, ago/1862)

Detalhes adicionais: vestimenta uniforme (túnicas brancas), forma política familiar (chefes eleitos por faixa de idade), velhice como apogeu da dignidade, ausência de guerras e ódios, religião como adoração constante despojada de culto idólatra. Kardec o publica “a título condicional”, com cláusula metodológica explícita: “essa comunicação sobre Vênus não tem os caracteres de autenticidade absoluta” — exemplo do princípio kardequiano de prudência crítica com revelações sobre mundos superiores.

Desenvolvimento por Léon Denis

Na síntese doutrinária de O Grande Enigma (Parte IV, seção III), Denis retoma a classificação dos mundos em 5 categorias (rudimentares, expiatórios, regeneradores, felizes, celestes/divinos) — fiel ao ESE, cap. III — e acrescenta uma afirmação sobre o Sol como morada de Espíritos sublimes: “O Sol é uma estada de espíritos sublimes, que atingiram os mais altos cumes da evolução e, do alto desse astro, como de um trono de luz, fazem irradiar seu pensamento e sua ação sobre os outros mundos por meio das transmissões fluídicas e magnéticas” [[obras/o-grande-enigma|(Léon Denis, O Grande Enigma, seção III, q. 40)]].

Kardec reconhece a diversidade dos mundos (LE, q. 55–58) e não especifica quais astros são habitados por quais categorias de Espíritos, de modo que a posição de Denis é um aprofundamento, não uma contradição. Emmanuel/Chico Xavier corroboram essa visão em obras cuja ingestão está pendente.

Ver o-grande-enigma.

Desenvolvimento literário — Camille Flammarion (Narrações do Infinito 1872, Urânia 1889, Estela 1897)

Camille Flammarion transpõe a tese para a ficção doutrinária ao longo de três décadas. O ponto de origem é [[wiki/obras/narracoes-do-infinito|Narrações do Infinito]] (Lumen, escrito em 1866, publicado em 1867, ampliado em Récits de l’Infini, 1872): o diálogo entre o Espírito Lúmen e o encarnado Quœrens já encena, 17 anos antes de Urânia, a viagem celeste pós-morte como veículo da pluralidade dos mundos e da reencarnação entre globos. Lúmen usa a velocidade finita da luz para mostrar o Espírito revendo suas existências anteriores em outros mundos à distância astronômica conveniente — leitura ficcional direta do princípio de que o Espírito “pode reencarnar no mesmo globo ou passar a mundos superiores” (LE, q. 173). A 5ª narrativa cataloga a diversidade inesgotável das humanidades siderais (seres sem sexo, troca de corpo sem morte, sentidos desconhecidos na Terra), prefigurando quase termo a termo a Parte I de Urânia.

Duas décadas depois, Flammarion retoma e amplia o dispositivo em dois volumes complementares que cobrem a mesma tese em registros diferentes.

Em [[wiki/obras/urania|Urânia]] (1889), a Parte I narra viagem celeste guiada pela musa da Astronomia através das “humanidades desconhecidas”: sistemas de sóis triplos coloridos, seres alados-libélula, organismos andróginos, mundos onde a alma pode mudar de corpo sem morrer, seres com até vinte e seis sentidos — encarnação literária do princípio kardequiano de que “os habitantes [dos outros mundos] têm organizações diferentes” (LE, q. 57). A Parte III situa Marte como mundo mais adiantado que a Terra (humanidade bipede-bialada, atmosfera nutritiva, ausência de guerras), com o desenlace narrativo da reencarnação de Spero e Icleia da Terra para Marte — caso literário do princípio de que o Espírito “pode reencarnar no mesmo globo ou passar a mundos superiores” (LE, q. 173). Notavelmente, a obra explicita que “as almas não possuem sexo e têm um destino igual” (Parte III, cap. III), em consonância plena com LE q. 200–202.

O aforismo 15 do “testamento científico de Spero” que encerra a obra ecoa LE q. 56–58: “Os mundos atualmente não são todos habitados. […] Tais mundos foram habitados no passado, milhares de séculos; tais outros sê-lo-ão no futuro”.

Oito anos depois, em [[wiki/obras/estela|Estela]] (1897), Flammarion retoma o mesmo eixo em registro de romance mais propriamente narrativo. O cap. XII percorre o mapa de Marte ao telescópio (canais, lagos, mar das Sereias, neves polares) — “Marte é mais antigo e mais adiantado do que a Terra no seu ciclo vital”; o cap. XXVIII formula em êxtase contemplativo a imagem-síntese da obra: “Estamos no céu… a Terra é um astro do céu”; o cap. XXXV repete a cena de Marte como primeira etapa após a Terra — Rafael e Estela morrem juntos no Dachstein durante um cometa e reencarnam em Marte (paralelo direto a Spero e Icleia em Urânia). A duplicação narrativa do mesmo desfecho em duas obras consecutivas estabelece Marte, na obra literária de Flammarion, como o mundo-receptor canônico para almas terrenas em progresso — leitura ficcional do princípio kardequiano de transmigração entre globos.

Contra o antropocentrismo

Kardec denuncia como “orgulho e vaidade” a crença de que só à Terra caberia o privilégio de conter seres racionais (LE, q. 55). A infinitude de Deus manifesta-se no povoamento do Universo.

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 55–58, q. 173, q. 188, q. 200–202. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. III — “Há muitas moradas na casa de meu Pai”. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Denis, Léon. O Grande Enigma, Parte IV, seção III. Trad. Maria Lucia Alcantara de Carvalho. CELD, 2011.
  • Flammarion, Camille. Narrações do Infinito (Lumen; Récits de l’Infini, 1872). FEB Editora. Ver narracoes-do-infinito.
  • Flammarion, Camille. Urânia (Uranie, 1889). Trad. Almir Ribeiro Guimarães. FEB.
  • Flammarion, Camille. Estela (Stella, 1897). Trad. Almerindo Martins de Castro. FEB.