Parábola do mau rico (o rico e Lázaro)
Definição
Parábola narrada por Jesus sobre o rico que se vestia de púrpura e o pobre Lázaro que jazia à sua porta coberto de úlceras. Ensina sobre a justiça divina, a inversão de posições na vida futura e o perigo do apego aos bens materiais. Kardec a analisa no capítulo XVI do ESE.
Texto da parábola
“Havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo e que todos os dias se banqueteava esplendidamente. Havia também um pobre, chamado Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à porta do rico, desejando saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas.” (S. Lucas, 16:19–21)
“Aconteceu morrer o pobre e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. Na região dos mortos, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe Abraão e Lázaro no seu seio. Então, clamou: — Pai Abraão, tem compaixão de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, pois estou atormentado nesta chama.” (S. Lucas, 16:22–24)
Abraão responde que Lázaro agora é consolado e o rico atormentado, e que há entre eles um grande abismo que ninguém pode transpor (S. Lucas, 16:25–26).
Ensino de Kardec
Kardec analisa esta parábola no contexto do desapego dos bens terrenos (ESE, cap. XVI, itens 7–8):
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A riqueza em si não é condenada. O que se condena é o mau uso que dela se faz e o egoísmo de quem goza sem partilhar. O rico não é punido por ser rico, mas por ter vivido exclusivamente para si, indiferente ao sofrimento de Lázaro à sua porta.
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A inversão de posições na vida futura ilustra a justiça divina: ninguém escapa às consequências morais de seus atos. Aquele que sofreu com resignação e dignidade encontra consolo; aquele que usufruiu sem caridade encontra o peso de sua consciência.
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O “grande abismo” não representa uma condenação eterna, mas a distância moral entre os dois Espíritos naquele momento. A Doutrina Espírita ensina que essa distância pode ser vencida pela expiação e pelo progresso moral ao longo das existências sucessivas (LE, q. 1009–1011).
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Kardec observa que a parábola confirma o ensino de que os bens terrenos são um depósito confiado por Deus, do qual o homem é mero administrador (ESE, cap. XVI, item 7). Quem entesourar sem utilidade prestará contas.
Aplicação prática
A parábola convida à reflexão sobre o uso que fazemos de nossos recursos — não apenas financeiros, mas de tempo, saúde, inteligência e afeto. Ignorar o sofrimento alheio quando se tem meios de ajudar é falhar na missão que a existência terrena nos impõe. O espírita consciente busca empregar seus bens em favor do próximo, lembrando que a verdadeira riqueza é a do Espírito, acumulada pela prática do bem.
Divergências
A letra de Lc 16:22–26 (“inferno”, “chama”, “grande abismo” intransponível) contradiz a doutrina kardequiana das penas temporárias e da reversibilidade do estado moral pelas existências sucessivas. Ver fogo-eterno-em-mateus-25.
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Fontes
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVI (“Não se Pode Servir a Deus e a Mamon”), itens 7–8. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Novo Testamento. S. Lucas, 16:19–31.
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 1009–1011. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.