Autodesamor
Definição curta
Autodesamor é a condição patológica de animosidade contra si mesmo — a inversão da auto-estima sadia que o programa kardequiano do “Conhece-te a ti mesmo” (LE q. 919) e do mandamento de Jesus “amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22:39) pressupõem como pré-requisito. Sistematizado por Joanna de Ângelis no cap. 3 de encontro-com-a-paz-e-a-saude como categoria-mãe que articula três sub-formas: autocondenação, autopiedade e autoconsciência (esta como antídoto).
Não se confunde com humildade nem com balanço moral diário (LE q. 919, comentário de Santo Agostinho) — é o oposto enfermiço dessa prática: onde o autoexame kardequiano é sereno e dirigido à correção, o autodesamor é flagelante, paralisante e somatizante.
Ensino de Kardec
A âncora doutrinária é LE, q. 122:
“O livre-arbítrio se desenvolve à medida que o Espírito adquire a consciência de si mesmo.”
A consciência de si é, portanto, a condição da liberdade moral — sem ela, o Espírito age por automatismo das paixões e dos atavismos primários. O autodesamor obstrui essa consciência, porque a substitui por crítica perversa: o paciente não examina, se acusa; não corrige, se castiga; não progride, se imobiliza.
A questão complementar é LE, q. 919 (já discutida em autoconhecimento): o autoconhecimento é o “meio prático mais eficaz” de melhorar — mas pressupõe um sujeito capaz de se conhecer com lucidez, sem o filtro distorcido da auto-rejeição.
E em Mt 22:39 está o critério evangélico: “amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. O auto-amor é a medida do amor ao próximo. Quem não se ama transfere a hostilidade para fora (sadismo, exigência inclemente sobre o parceiro) ou para dentro (somatização, autopunição). Joanna registra: “Sucede, porém, que os valores da vida são de natureza positiva, jamais se expressando por métodos perturbadores e afligentes. A lei que vige no Universo é a de amor, porque procede da Divindade.”
Desdobramentos
Autocondenação
Forma mais aguda. O paciente torna-se crítico perverso de si mesmo, trabalhando as emoções com pessimismo e desconsideração. A inveja dos triunfadores converte-se em agressividade contra o próximo (transferência) e, por reflexo, em maior aversão por si. Refugia-se na solidão psicológica, mesmo no meio social.
Etiologia reencarnatória (Joanna): existência anterior de “ociosidade dourada” e exploração de outros gera, na encarnação atual, conflito de culpa que se instala como punição inconsciente — o espírito sente-se necessitado de punição, quando o que o reabilitaria seria o recurso reeducativo de valores.
Manifestações somáticas: trato digestivo, função hepática, aparelho respiratório — “a intoxicação emocional transforma-se em enfermidades aparentes ou reais, em face das infecções que se instalam no organismo em decorrência da perda imunológica sob o bombardeio contínuo da mente enfermiça” (cap. 3).
Sadismo conjugal: quando o autocondenado se afeiçoa a outrem, transfere a insegurança para o parceiro, tornando-se crítico pertinaz, acusador inclemente — “verdadeiro sádico, assim auto-afligindo-se nas contínuas pugnas em que sempre deseja ser o triunfador”.
Autopiedade
“Bengala psicológica” (cunhagem joanniana) dos que se recusam ao esforço dos enfrentamentos da evolução. A autopiedade expressa insegurança emocional propiciadora de preguiça mental, que prefere sempre receber e nunca ofertar, demonstrando carência permanente como se estivesse em atitude de abandono pela vida.
Mecanismo obsessivo: “em razão das emissões de ondas mentais perniciosas, esse paciente atrai espíritos outros, ociosos e zombeteiros, que passam a conviver com as suas energias, dando lugar a obsessões simples, que culminam em estados de subjugação e de vampirização” — convergente com obsessao simples (cf. LM cap. 23) e com vampirismo-espiritual.
Resultado social: a princípio o sentimento de compaixão aflora à volta; depois afasta o socorro que solicita, “porquanto esse o arrancaria da atitude infantil e agradável a que se entrega”. Torna-se peso morto na economia geral da comunidade.
Autoconsciência (antídoto)
A saída do autodesamor é a conquista da autoconsciência, primeiro objetivo do processo de autoconquista pelo Self. Não se confunde com narcisismo introspectivo — é a percepção lúcida da própria realidade pessoal, do programa reencarnatório, das responsabilidades inadiáveis.
Recursos práticos (Joanna, cap. 3 + 9):
- Autoperdão fundamentado em LE q. 122 — a culpa cede ao reconhecimento da relatividade do estágio evolutivo: “a compreensão lógica dos mecanismos evolutivos faculta a conquista do autoperdão, de uma visão mais compatível com o seu nível de evolução, permitindo-se a possibilidade de erro, mas também de acerto”.
- Conversações edificantes, leituras estimuladoras, convivências exemplares — substituição das paisagens mentais depressivas.
- Confiança nos recursos da vida — relacionamentos humanos, projetos de crescimento, serviço comunitário, faculdades transcendentes.
- Cultivo do auto-amor como pré-condição do amor ao próximo (Mt 22:39) — sem o auto-amor, o “amor ao próximo” vira transferência neurótica.
A autoconsciência é descrita literalmente como “processo de auto-iluminação, conquista do infinito, realização plena”.
Aplicação prática
Sinais de alerta (Joanna, cap. 3):
- Crítica mordaz e contínua ao próprio comportamento sem objetivo corretivo.
- Sentimento irracional de culpa que não se justifica em ato concreto.
- Refúgio na solidão mesmo em meio social.
- Atitude cômoda e doentia de impossibilidade declarada (preguiça mental disfarçada).
- Somatizações recorrentes em trato digestivo, função hepática, aparelho respiratório.
- Relacionamentos afetivos marcados por exigência inclemente sobre o parceiro.
- Atração de espíritos zombeteiros (no caso da autopiedade), com mal-estar persistente sem causa clínica clara.
Distinguir do balanço moral kardequiano (LE q. 919, comentário de Santo Agostinho): o balanço diário avalia perdas e lucros com serenidade, pode dormir em paz; o autodesamor só vê perdas, e priva o sujeito do sono e da paz. A diferença operacional é o autoperdão como base — sem ele, o exame vira flagelo.
O que o autodesamor não é
- Não é humildade — a humildade reconhece o estágio evolutivo sem se afligir.
- Não é balanço moral diário — esse é sereno e corretivo, aquele é flagelante e paralisante.
- Não é crítica útil — a crítica útil tem objetivo de mudança; o autodesamor goza da própria infelicidade.
- Não é “consciência da culpa” doutrinariamente legítima — a culpa kardequiana, em registro saudável, é sentido de responsabilidade que mobiliza a reparação (cf. culpa).
Páginas relacionadas
- autoconhecimento — programa kardequiano que o autodesamor obstrui.
- individuacao — conquista do Self como saída estrutural.
- culpa — distinção operacional culpa saudável (= responsabilidade) × culpa-castigo (Joanna em o-despertar-do-espirito cap. 2 e conflitos-existenciais cap. 6).
- amorterapia — terapêutica positiva pelo amor a si, ao próximo e a Deus.
- obsessao — convergência da autopiedade com a obsessão simples.
- vampirismo-espiritual — atração de espíritos zombeteiros pela autopiedade.
- joanna-de-angelis — autora da sistematização.
- encontro-com-a-paz-e-a-saude — cap. 3, fonte primária da categorização.
Fontes
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Encontro com a Paz e a Saúde. Salvador: LEAL, 2007. Cap. 3 — Autodesamor (Autocondenação, Autopiedade, Autoconsciência).
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. q. 122 (livre-arbítrio + consciência de si); q. 919 + comentário de Santo Agostinho.
- Bíblia. Mateus 22:39.