Mediunidade curativa

Definição

Faculdade pela qual o médium serve de canal de fluidos restauradores — próprios e de Espíritos benfeitores — em direção ao perispírito e ao corpo físico do enfermo, com vistas ao reequilíbrio orgânico, anímico ou ambos. Compreende o passe (com ou sem imposição de mãos), a fluidificação de água e a prece intercessória dirigida. Não substitui o tratamento médico convencional — cooperação, não exclusão.

“Há médiuns que têm o poder de curar pelo simples toque, pelo olhar, mesmo por um gesto, sem o concurso de qualquer medicação.” (LM, 2ª parte, cap. XIV, item 175 — médiuns curadores)

Ensino de Kardec

Médiuns curadores (LM cap. XIV)

Kardec inclui na tipologia mediúnica os médiuns curadores, distintos do magnetizador comum: “esses médiuns agem por efluxo de um fluido que comunicam ao paciente, por intermédio dos Espíritos bons, dos quais são auxiliares” (LM, 2ª parte, cap. XIV, item 175). Pré-requisitos morais: “o desinteresse e o desejo sincero de obviar aos sofrimentos, sem nenhum pensamento de vaidade ou de lucro pessoal”.

O fluido magnético dos curadores (Gênese cap. XIV, item 33)

“O fluido magnético é uma matéria; o fluido espiritual a essa matéria imprime certas qualidades. Quando o fluido a derramar tem por destino o corpo, é magnético; quando ele tem por destino a alma, é espiritualizado. […] Os fluidos espirituais constituem um dos estados do fluido cósmico universal.” (Gênese, cap. XIV, itens 31–33)

A medicina pelos fluidos opera, portanto, em dois regimes simultâneos: ação magnética sobre o corpo (efluxo do magnetizador encarnado) e ação espiritual sobre o perispírito (Espíritos benfeitores intervindo via médium).

Imposição de mãos no NT

Os Evangelhos mostram Jesus curando “pelo toque, pelo olhar, mesmo por um gesto” (Mc 1:31, 41; Lc 4:40; Jo 5:8). A passagem programática para o Espiritismo é Mc 16:18 — “imporão as mãos sobre os enfermos, e os curarão” — e a continuidade do dom na Igreja primitiva (At 9:17, 28:8). Cf. sinais-de-marcos-16 sobre a leitura espírita do trecho.

Mediunidade e fé do paciente (ESE)

“A tua fé te curou.” (Mc 5:34, citado em ESE, cap. XIX e cap. XXVII)

A confiança ativa do enfermo é parte do mecanismo, não adendo psicológico — coerente com o tratamento espírita do cap. XXVII de ESE (“Pedi e obtereis”), em que a prece prepara o “fluido salutar” recebido. Sem fé, a operação não falha por capricho divino: falha porque o canal está bloqueado pela própria onda mental do paciente.

Magnetismo humano e divino (OPE)

Kardec, nas Obras Póstumas, desenvolve a tipologia tripartite: magnetismo humano (encarnado sobre encarnado), magnetismo espiritual (Espírito sobre encarnado) e magnetismo misto (cooperação entre os dois). A mediunidade curativa propriamente dita é o terceiro caso.

Desdobramento em André Luiz (Mecanismos da Mediunidade, cap. 22)

Mente, psicossoma e células

“Compreendendo-se o envoltório psicossomático por templo da alma, estruturado em bilhões de células a se caracterizarem por atividade incessante, é natural imaginemos cada centro de força e cada órgão por departamentos de trabalho […] que obedecem ao comando mental, sediado no cérebro, que lhes mantém a coesão e o equilíbrio, por intermédio das oscilações inestancáveis do pensamento.” (Mecanismos, cap. 22)

A doença é, em parte, resultante de “agentes mentais viciados e enfermiços” que perturbam as províncias celulares. O passe age não só sobre o tecido físico — age sobre o comando mental que governa o tecido.

Sangue e fluido cósmico

“Salientando-se que o sistema hemático no corpo físico representa o conjunto das energias circulantes no corpo espiritual ou psicossoma, energias essas tomadas em princípio pela mente, através da respiração, ao reservatório incomensurável do fluido cósmico, é para ele que nos compete voltar a atenção, no estudo de qualquer processo fluidoterápico de tratamento ou de cura.” (Mecanismos, cap. 22)

A respiração é a porta cotidiana de assimilação do fluido cósmico para o psicossoma; o sangue é o veículo no plano físico das energias correspondentes. A nutrição comum garante o substrato; a vontade, a oração e o passe modulam a qualidade.

O médium passista como representante do magnetizador espiritual

“Tendo mencionado o fenômeno hipnótico em diversas passagens de nossas anotações, a ele recorreremos, ainda uma vez, para definir o medianeiro do passe magnético por autêntico representante do magnetizador espiritual, à frente do enfermo. Estabelecido o clima de confiança, qual acontece entre o doente e o médico preferido, cria-se a ligação sutil entre o necessitado e o socorrista e, por semelhante elo de forças, ainda imponderáveis no mundo, verte o auxílio da Esfera Superior, na medida dos créditos de um e outro.” (Mecanismos, cap. 22)

O médium não é fonte: é canal. Os Espíritos benfeitores trabalham através dele; sua função é ofertar plasma fluídico, manter a sintonia e acolher. Daí a regra: “de sua higiene espiritual resultará o reflexo benfazejo naqueles que se proponha socorrer”.

Vontade do paciente

“O processo de socorro pelo passe é tanto mais eficiente quanto mais intensa se faça a adesão daquele que lhe recolhe os benefícios, de vez que a vontade do paciente, erguida ao limite máximo de aceitação, determina sobre si mesmo mais elevados potenciais de cura. […] As oscilações mentais do enfermo se condensam, mecanicamente, na direção do trabalho restaurativo, passando a sugeri-lo às entidades celulares do veículo em que se expressam.” (Mecanismos, cap. 22)

A doutrina espírita não se confunde com curandeirismo passivo: o paciente é coautor da própria cura. A vontade — não desejo difuso, mas adesão consciente — orienta a onda mental para reordenar as próprias células.

Passe e oração

“Em toda situação e em qualquer tempo, cabe ao médium passista buscar na prece o fio de ligação com os Planos mais elevados da vida, porquanto, através da oração, contará com a presença sutil dos instrutores que atendem aos misteres da Providência Divina.” (Mecanismos, cap. 22)

A prece não é cerimonial: é o gatilho de sintonia. O médium que aplica passe sem oração concentrada trabalha com o que tem em si, apenas — perde a cooperação dos Espíritos curadores.

Tipologia operativa

Combinando Kardec, André Luiz e a tradição espírita brasileira:

TipoOperaçãoRisco principal
Passe magnético comumMédium impõe mãos ou aproxima-as do enfermo; transmissão de fluido próprio + cooperação espiritualEsgotamento do médium quando trabalha sozinho ou sem prece
Passe à distânciaMédium em desdobramento parcial dirige fluido a paciente longe (cf. desdobramento)Falta de retorno; verificação dependente de coordenação
Fluidificação de águaEspíritos imprimem qualidades fluídicas em copo de água, ingerido pelo enfermo (Gênese cap. XIV item 35; ESE cap. XXVIII item 81)Substituir tratamento médico; fetichizar o copo
Prece intercessória dirigidaGrupo concentra prece em favor de pessoa nomeada, com ou sem objeto pessoalConfundir com magia (objeto que “tem poder”)
Oração de socorro a obsessorCaridade ao Espírito perturbador como caminho indireto de cura do obsidiado (cf. obsessao)Esquecer o obsessor sob a forma “tirar o demônio”

Aplicação prática

Para o médium passista

  1. Vida ética é técnica. “Hábitos nobres e atividades limpas, com a simplicidade e a humildade por alicerces” (cap. 22). O passe é continuação da vida cotidiana — não compensação dela.
  2. Estudo doutrinário. “Embora não seja médico, recomenda-se ao aluno de enfermagem a aquisição de conhecimentos do corpo em si” (cap. 22). Ler LE, LM, ESE; conhecer o quadro de mecanismos.
  3. Prece antes, durante, depois. Passe sem oração é magnetismo humano simples — útil, mas estreito.
  4. Não se atribuir a cura. O médium é canal; a cura vem do Plano superior, da Lei e da fé do paciente em sua confluência.

Para o paciente

  1. Vontade ativa. Receber o passe querendo o reequilíbrio é metade da operação.
  2. Cooperação com a medicina convencional. Espiritismo não é alternativa à medicina — é complemento. C&I, 1ª parte, cap. VIII (sobre suicídio) e ESE cap. V articulam a regra: usar todos os recursos legítimos.
  3. Reforma íntima como cura de fundo. Doenças orgânicas têm causas físicas, hereditárias e provacionais; doenças anímicas frequentemente exigem mudança de pensamento (cf. cap. 22 — “não há órgãos em harmonia sem pensamentos equilibrados”).
  4. Não absolutizar resultados imediatos. O passe age “no merecimento de um e outro” e em prazos que não controlamos.

Casos limite

  • Crianças e inconscientes. O passe é “valioso no tratamento devido aos enfermos de toda classe, desde as criancinhas tenras”; menos eficaz em adultos “jungidos à inconsciência temporária, por desajustes complicados do cérebro” (cap. 22) — porque a vontade cooperativa está suspensa.
  • Doentes terminais. Passe não é técnica de prolongar a vida a qualquer custo; pode aliviar sofrimento, preparar a desencarnação, harmonizar a passagem.
  • Médiuns enfermos. Quando o trabalhador adoece — sintoma de excesso, desorientação ou compromissos próprios —, suspender o trabalho ativo, descansar, orar, restaurar.

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XIV (item 175 — médiuns curadores). FEB.
  • Kardec, Allan. A Gênese, cap. XIV, itens 31–35 (fluidos, magnetismo humano e espiritual, fluidificação de água). FEB.
  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, caps. XXVII–XXVIII (prece, fluido salutar, ação dos bons Espíritos). FEB.
  • Kardec, Allan. Obras Póstumas, “Manifestações dos Espíritos” — magnetismo humano, espiritual e misto. FEB.
  • XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo (André Luiz). Mecanismos da Mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 1959. Cap. 22 (Mediunidade curativa). Edição: mecanismos-da-mediunidade.
  • XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). Missionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB, 1945. Cap. 19 (passes magnéticos, regra dos 10 socorros). Edição: missionarios-da-luz.
  • XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo (André Luiz). Evolução em Dois Mundos. Rio de Janeiro: FEB, 1958. Anatomia do psicossoma e centros vitais. Edição: evolucao-em-dois-mundos.