Maomé / Mohammed

Identificação

Maomé (Mohammed em transliteração mais próxima do árabe) — profeta árabe fundador do Islamismo, nascido em Meca a 27 de agosto de 570 da era cristã (no ano dito do elefante) e falecido em Medina a 8 de junho de 632, com 62 anos. Pertencia à tribo dos coraicitas (uma das mais importantes da Arábia, dominante em Meca), descendente em linha reta de Ismael, filho de Abraão e de Agar. Seus últimos antepassados — Cossayy, Abd-Menab, Hachim e Abd-el-Moutalib (avô) — foram chefes considerados na cidade de Meca.

Órfão precoce: o pai Abd-Allah morreu dois meses antes de seu nascimento; a mãe Amina morreu quando ele tinha 6 anos; o avô Abd-el-Moutalib, dois anos depois. Foi criado pelos tios, pastoreando rebanhos até os 20 anos. Aos 25, casou-se com a prima Khadidja (viúva rica, 15 anos mais velha), união feliz que durou 24 anos até a morte dela em 619. Aos 40 anos (610), recebeu a primeira visão no Monte Hira. Em 622 fugiu de Meca para Yathrib (depois renomeada Medina) — episódio da Hégira, marco do calendário muçulmano. Após 10 anos de período guerreiro, retornou triunfante a Meca e morreu pouco depois.

Papel — avaliação espírita por Allan Kardec

Kardec dedica dois artigos extensos na Revista Espírita 1866 (RE ago/1866 + RE nov/1866) a um estudo monográfico de Maomé e do Islamismo — único caso na Revista de tratamento sistematizado de uma religião não-cristã. Baseia-se nos trabalhos orientalistas modernos de Barthélemy Saint-Hilaire (Mahomet et le Coran, 1865, livraria Didier), Caussin de Perceval, Dr. W. Muir (Inglaterra), G. Weil e Sprenger (Alemanha).

Tese editorial central de Kardec: “De todas as religiões, o Islamismo é a que, à primeira vista, parece encerrar maiores obstáculos a essa aproximação. […] este assunto não poderia ser indiferente aos espíritas” (RE ago/1866). O Islamismo é tratado como derivação cristã legítima que cumpriu papel providencial regenerando um povo bárbaro pelo culto da unidade de Deus.

Maomé como médium autêntico — diagnóstico espírita

Kardec descarta sistematicamente as duas interpretações dominantes na crítica de seu tempo:

  1. Hipótese da impostura calculada — incompatível com a vida pessoal irreprochável de Maomé até os 50 anos, com a alcunha El-Amin (“o homem seguro, o homem fiel”) que lhe foi dada pelos próprios coraicitas, e com a resistência inicial do próprio Maomé à missão profética (durante o período de fitreh, hesitação que durou meses).

  2. Hipótese da epilepsia — atribuída por “escritores modernos, sem outras provas além de sua opinião pessoal” (RE ago/1866). Kardec rejeita: os fenômenos descritos (“o suor corria-lhe da fronte; os olhos tornavam-se vermelhos de sangue; ele soltava gemidos e a crise terminava, o mais das vezes, por uma síncope”) são típicos de estado extático, cataléptico ou sonambúlico espontâneo, com produção de comunicações mediúnicas em estado de inconsciência, exatamente como o Espiritismo descreve.

A leitura espírita: Maomé foi médium auditivo, vidente e extático autêntico. Suas inspirações eram involuntárias e instantâneas (“a inspiração era irregular e instantânea, e ele não podia prever o momento em que seria tomado”). O Alcorão não é obra escrita conscientemente, mas o registro feito por seus amigos das palavras que ele pronunciava quando estava inspirado — fragmentos depois compilados em 114 suratas pelos cuidados de Abu-Becr e Omar.

Erro pessoal — a poligamia pós-Khadidja

Kardec é explícito: “Foi o seu mais grave erro, porque foi uma barreira que ele interpôs entre o Islamismo e o mundo civilizado. Assim, sua religião, após doze séculos, não pôde transpor os limites de certas raças. É, também, o lado pelo qual o seu fundador mais se rebaixa aos nossos olhos” (RE nov/1866). Após a morte de Khadidja (619), Maomé desposou várias mulheres (12 ou 13 em casamentos legítimos; deixou 9 viúvas), e regulamentou a poligamia em 4 esposas legítimas como instituição religiosa.

Mas Kardec relativiza imediatamente: “o desregramento dos costumes era tal na época de Maomé, que uma reforma radical era muito difícil […] Portanto, podemos dizer que regulamentando a poligamia ele pôs limites à desordem e conteve abusos mais graves”. O erro é pessoal, não doutrinário fundamental.

Pontos doutrinários alinhados com o Espiritismo

a) Unidade de Deus“Crença num Deus único, onipotente, eterno, infinito, onipresente, clemente e misericordioso, criador dos céus, dos anjos e da Terra, pai do homem”. Recusa absoluta do politeísmo árabe pré-islâmico (a religião dos hanyfes — adoradores do Deus único de Abraão).

b) Recusa da Trindade lida como politeísmo — Maomé interpretou a doutrina cristã da Trindade ao pé da letra, vendo nela três deuses em vez de três pessoas distintas em um só Deus. Kardec admite o equívoco e atribui-o a “falsa interpretação”. “Se esse mistério é incompreensível para tantos cristãos, e se entre estes provocou tantos comentários e controvérsias, não é de admirar que Maomé não o tenha compreendido” (RE nov/1866).

c) Recusa da divindade de Jesus, mas reconhecimento como profeta“Não digais que há uma trindade em Deus. […] O Messias não corará por ser o servo de Deus, assim como os anjos que rodeiam o seu trono e lhe obedecem” (Surata IV, v. 169–170). Maomé reconhece Jesus como profeta e como Verbo de Deus, mas não como Deus encarnado. Esta posição converge com a leitura kardequiana: ver obras-postumas (Kardec recusa a divindade de Cristo, afirma Jesus como Espírito puro da mais alta ordem).

d) Indícios de pluralidade das existências no Alcorão — Kardec destaca: “O vocábulo voltar implica a ideia de já ter vindo, isto é, de ter vivido antes da existência atual. Maomé a expressa muito bem quando diz: ‘Reapareceis diante dele e ele vos mostrará as vossas obras. Voltareis ante o Deus de Verdade.’ É o fundo da doutrina da preexistência da alma” (RE nov/1866). E ainda: “Que esperança temos de voltar à Terra para nos corrigirmos?” (Surata VII, v. 50–51) — “a ideia de reviver na Terra entrou no pensamento de Maomé”.

e) Recusa da fatalidade absoluta — Kardec esclarece: “Maomé não ensinou o dogma da fatalidade absoluta, como pensam geralmente. Essa crença, de que estão imbuídos os muçulmanos […] não passa de uma falsa interpretação e de uma falsa aplicação do princípio da submissão à vontade de Deus levada além dos limites racionais; eles não compreendem que tal submissão não exclui o exercício das faculdades do homem” (RE nov/1866).

f) Caridade, tolerância e respeito ao Evangelho“Não façais violência aos homens por causa de sua fé” (Surata II, v. 257). “Os Cristãos serão julgados segundo o Evangelho. Aqueles que os julgarem de outro modo serão prevaricadores” (Surata V, v. 51). “Não duvides de encontrar no céu o guia dos israelitas” (Surata XXXII, v. 23). Kardec comenta: “Eis certas máximas de caridade e de tolerância que gostaríamos de ver em todos os corações cristãos!”

Obras associadas

  • revista-espirita-1866“Maomé e o Islamismo” (estudo monográfico em RE ago/1866 + RE nov/1866); fonte principal da avaliação espírita.

Citações relevantes do Alcorão (tradução de Savary, citada por Kardec)

“Em nome do Deus clemente e misericordioso. — Louvor a Deus, soberano dos mundos. — A misericórdia é a sua partilha. — Ele é o rei no dia do juízo. — Nós te adoramos, Senhor, e imploramos a tua assistência. — Dirige-nos no caminho da salvação.” (Introdução, Surata I — abertura canônica do Alcorão).

“O Oriente e o Ocidente pertencem a Deus; para qualquer lugar que se voltem vossos olhos, reconhecereis a sua face. Ele enche o Universo com a sua imensidade e com a sua ciência.” (Surata II, v. 109–112) — paralelo direto com onipresença divina articulada por Kardec em “Deus está em toda parte” (RE mai/1866).

“Voltareis em seguida diante do Deus da verdade. Não é a ele que cabe julgar? Ele é o mais exato dos juízes.” (Surata VI, v. 60–64) — vocábulo voltar indica preexistência, segundo análise de Kardec.

“Combatei vossos inimigos na guerra empreendida pela religião, mas não ataqueis primeiro. Deus odeia os agressores.” (Surata II, v. 186) — recusa da agressão como princípio.

“Certamente os muçulmanos, os judeus, os cristãos e os sabeístas, que creem em Deus e no juízo final, e que fizerem o bem, receberão a recompensa de suas mãos; eles estarão isentos do medo e dos suplícios.” (Surata V, v. 73) — universalismo soteriológico que Kardec destaca.

Discurso final de Maomé (peregrinação do adeus, 632)

“Ó povos! Escutai minhas palavras […] Sede humanos e justos entre vós. Que a vida e a propriedade de cada um sejam invioláveis e sagradas para os outros […] Tratai bem as mulheres; elas são vossas auxiliares e nada podem por si sós. Vós as tomastes como um bem que Deus vos confiou e delas tomastes posse por palavras divinas.” — citado em Ibn-Ishâc e Ibn-Ishâm, transcrito por Kardec em RE nov/1866.

Páginas relacionadas

Avaliação histórica de Kardec (síntese final)

“Embora não consideremos Maomé como um verdadeiro profeta, porque empregou para propagar sua religião meios violentos e impuros e porque ele próprio foi muito fraco para se submeter à lei comum […], não obstante ele tem o mérito de ter feito penetrar as mais belas doutrinas do Velho e do Novo Testamento num povo que não era esclarecido por nenhum raio da fé e sob este ponto de vista deve parecer, mesmo aos olhos não maometanos, como um enviado de Deus.” — G. Weil, citado e endossado por Kardec em RE nov/1866.

Fontes

  • KARDEC, Allan. “Maomé e o Islamismo” (1º artigo). Revista Espírita, ano 1866, agosto. Disponível em 08-agosto.
  • KARDEC, Allan. “Maóme e o Islamismo” (2º artigo). Revista Espírita, ano 1866, novembro. Disponível em 11-novembro.
  • SAINT-HILAIRE, Barthélemy. Mahomet et le Coran. Paris: Didier, 1865 (referência principal de Kardec).
  • SAVARY, M. Le Coran. Paris (tradução utilizada por Kardec para as suratas citadas).
  • CAUSSIN DE PERCEVAL — orientalista francês citado.
  • MUIR, W. — orientalista inglês citado.
  • WEIL, G. Mohammet der Prophet. Stuttgart, 1843 (citado por Kardec, com tradução do julgamento sobre Maomé).
  • IBN-ISHÂC e IBN-ISHÂM — fontes árabes históricas do discurso da peregrinação do adeus.