Conde de R… C…

Identificação

  • Nome: anônimo na publicação (“Conde de R… C…”). Identificado por Kardec como “nosso ilustre colega” e membro titular da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
  • Profissão: capitão da marinha imperial francesa, com experiência de viagens à volta do mundo
  • Caráter: descrito por Kardec como pessoa de superior inteligência e instrução, “excelente espírita”
  • Em 1859: retido em casa por gota quando se ofereceu voluntariamente para o estudo

Papel

Primeiro voluntário deliberado para evocação programada do Espírito de pessoa viva na história documentada do Espiritismo. Em carta de 23/11/1859 ao presidente da SPEE (Allan Kardec), inspirado pelo precedente dos médicos que legavam o corpo às salas anatômicas, propôs:

“Pensei que aquilo que os médicos fizeram pelo corpo, um membro da Sociedade poderia fazer pela alma, ainda em vida, pondo-se à vossa disposição para um ensaio desse gênero. Talvez pudésseis, preparando de antemão as perguntas que desta vez nada teriam de pessoal, obter novos esclarecimentos sobre o fato do isolamento da alma e do corpo. Aproveitando uma indisposição que me retém em casa, venho oferecer-me como paciente para estudo, se quiserdes.” (carta de 23/11/1859, citada em RE jan/1860)

Duas sessões foram realizadas em sua ausência física (corpo dormindo em casa) — 25/11/1859 e 02/12/1859 — publicadas em revista-espirita-1860 de jan/1860 sob o título “Espírito de um lado, corpo do outro. Palestra com o Espírito de um vivo”.

A função doutrinária é tripla:

  1. Caso-modelo da emancipação da alma como fenômeno espontâneo no sono. Durante o sono, o Espírito do encarnado pode desligar-se parcialmente do corpo e responder a evocações com plena consciência de si. Material que entra em LM, 2ª parte, cap. VIII (Da bicorporeidade e da transfiguração).

  2. Caso de continuidade do “Eu” no Espírito. A frase do Conde “Sou Eu que aqui estou” (resposta à pergunta sobre como mantém consciência da própria individualidade enquanto o corpo dorme) é citação canônica que entra na doutrina espírita do “Eu” como Espírito: o corpo é acessório; a parte essencial é o Espírito.

  3. Antecedente direto do estudo do Dr. Vignal em fev/1860. A SPEE adota o método e o repete com Vignal em 03/02/1860, confirmação independente.

Citações relevantes

Sobre a consciência da individualidade durante o sono:

”— Como tendes consciência de vossa individualidade aqui presente, quando o vosso corpo está no leito?
— Neste momento o corpo me é simples acessório. Sou Eu que aqui estou.”
(RE, jan/1860, sessão de 25/11/1859)

Observação de Kardec a esse trecho:

“‘Sou Eu que aqui estou’ é uma resposta notável. Para ele, o corpo não é a parte essencial do seu ser. A parte essencial é o Espírito, que constitui o Eu. O seu Eu e o seu corpo são duas coisas distintas.” (RE, jan/1860, observação)

Sobre o estado relativo de despertar do Espírito:

”— Vede-nos tão claramente como, quando em pessoa, assistis às nossas sessões?
— Mais ou menos, mas um pouco velado. Ainda não durmo bem.”
(RE, jan/1860)

Sobre a faculdade de transporte instantâneo:

”— Podeis transportar-vos instantaneamente, e à vontade, daqui para a casa e vice-versa?
— Sim.
— Indo para casa e vindo para cá, tendes consciência do trajeto que fazeis? Vedes os objetos que estão no caminho?
— Poderia, mas negligencio fazê-lo, pois não há interesse.”
(RE, jan/1860)

Sobre a distinção em relação ao sonambulismo:

”— O estado em que vos encontrais é semelhante ao de um sonâmbulo?
— Não inteiramente. Meu corpo dorme, isto é, está mais ou menos inerte. O sonâmbulo não dorme. Suas faculdades orgânicas estão modificadas, mas não aniquiladas.”
(RE, jan/1860)

Sobre a doença que o reteve:

”— Qual a doença que vos retém em casa?
— A gota.
— Há um remédio para a gota? Se o conheceis, poderíeis indicá-lo, pois prestaríeis um grande serviço.
— Poderia, mas não o farei. O remédio seria pior que o mal.”
(RE, jan/1860)

Obras associadas

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Fontes

  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, jan/1860, “Espírito de um lado, corpo do outro. Palestra com o Espírito de um vivo” (sessões de 25/11/1859 e 02/12/1859). Edição local: 1860.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. VIII (Da bicorporeidade e da transfiguração). FEB.