Origem do mal

Definição

O mal não é uma criação divina nem o atributo de um ser especial (Satanás), mas o resultado da imperfeição dos seres inteligentes e do exercício do livre-arbítrio. É, essencialmente, a ausência do bem — “como o frio é a ausência do calor” (Gênese, cap. III, item 8).

Ensino de Kardec

O mal não vem de Deus

“Sendo Deus o princípio de todas as coisas e sendo todo sabedoria, todo bondade, todo justiça, tudo o que dele procede há de participar dos seus atributos […]. O mal que observamos não pode ter nele a sua origem.” (Gênese, cap. III, item 1)

A hipótese de um ser equipotente a Deus (Arimã ou Satanás) é refutada por contradição lógica: se fosse igual a Deus, haveria duas potências rivais, “hipótese inconciliável com a unidade de vistas que se revela na estrutura do universo”; se fosse inferior, teria sido criado por Deus, o que negaria a bondade infinita (Gênese, cap. III, item 2).

Duas categorias de males

  1. Males que o homem pode evitar — os mais numerosos, provêm dos vícios: “orgulho, egoísmo, ambição, cupidez, de seus excessos em tudo” (Gênese, cap. III, item 6).
  2. Males que independem da vontade humana — flagelos naturais, que servem como estimulante para o progresso: “A dor é o aguilhão que o impele para a frente, na senda do progresso” (Gênese, cap. III, item 5).

O mal é relativo

As paixões têm “utilidade providencial” nas fases iniciais do progresso espiritual. O que era necessidade no ser primitivo torna-se defeito no ser adiantado: “Muita coisa, que é qualidade na criança, torna-se defeito no adulto. O mal é, pois, relativo, e a responsabilidade é proporcionada ao grau de adiantamento” (Gênese, cap. III, item 10).

Livre-arbítrio como chave

“Deus somente quer o bem; só do homem procede o mal. Se na criação houvesse um ser preposto ao mal, ninguém o poderia evitar; mas, tendo o homem a causa do mal em SI MESMO, tendo simultaneamente o livre-arbítrio e por guia as leis divinas, evitá-lo-á sempre que o queira.” (Gênese, cap. III, item 8)

O Espírito não foi criado perfeito, mas “simples e ignorante” (LE, q. 115), com aptidão igual para progredir. A perfeição resulta do trabalho próprio: “quis Deus que a perfeição resulte da depuração gradual do Espírito e seja obra sua” (Gênese, cap. III, item 9, nota).

O remédio ao lado do mal

“Deus, todo bondade, pôs o remédio ao lado do mal, isto é, faz que do próprio mal saia o remédio” (Gênese, cap. III, item 7). A experiência do sofrimento leva o homem, por livre-arbítrio, a buscar melhoria moral: “Se o homem se conformasse rigorosamente com as leis divinas, não há duvidar de que se pouparia aos mais agudos males e viveria ditoso na Terra” (Gênese, cap. III, item 6).

Aplicação prática

A compreensão da origem do mal fundamenta a postura espírita diante do sofrimento: não há castigo arbitrário, mas consequência natural das escolhas. Isso remove a culpa sobre Deus, sustenta a esperança no progresso e reforça a responsabilidade individual.

Divergências

Pecado original em Romanos 5. Paulo, em Rm 5:12–19, escreve que “por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte” e que “muitos foram feitos pecadores” pela desobediência de um só. A tradição cristã posterior (Agostinho, escolástica, Trento) absolutizou o argumento em dogma do pecado original transmitido por herança — o mal como culpa ancestral comum que só a redenção vicária de Cristo pode quitar.

Kardec recusa essa construção em três eixos: a lei está na consciência de cada Espírito, não herdada de Adão (LE q. 621); Adão não é o primeiro homem do planeta, mas símbolo de uma imigração específica numa Terra já povoada (Gênese cap. XI, itens 38–44; cf. raca-adamica); o sofrimento é consequência de imperfeições próprias ou de provas escolhidas pelo próprio Espírito (ESE cap. V, itens 3–6), não marca ancestral.

Ver pecado-original-em-romanos-5.

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Fontes

  • Kardec, Allan. A Gênese, cap. III, itens 1–12. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 115, q. 121, q. 629–630, q. 866. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.