Alphonse de Lamartine
Identificação
- Nome: Alphonse Marie Louis Prat de Lamartine
- Nascimento: 21 de outubro de 1790, Mâcon, França
- Desencarnação: 28 de fevereiro de 1869, Paris, França (aos 78 anos)
- Profissão: Poeta romântico, prosador, historiador, político.
- Cargos públicos: Ministro das Relações Exteriores (1848); chefe efetivo do Governo Provisório da Segunda República Francesa (24/02 a 11/05/1848); deputado da Saône-et-Loire e da Assembleia Constituinte de 1848; candidato à presidência da República (dez/1848, derrotado por Luís Napoleão Bonaparte).
Poeta romântico francês de primeira ordem, autor das Méditations poétiques (1820) — obra que inaugura o romantismo francês. Nas duas décadas seguintes, alia obra literária a obra histórica (Histoire des Girondins, 1847) e a engajamento político decisivo, sendo o principal artífice da Revolução de fevereiro de 1848 e proclamando a Segunda República Francesa do balcão da Câmara. Ministro das Relações Exteriores no governo provisório, governa de fato a França entre 24/02 e 11/05/1848. Após a derrota nas eleições presidenciais de dezembro de 1848, retira-se da vida política e passa as duas décadas finais em trabalho literário forçado pelas dívidas — período em que sofre o ostracismo público que tanto lamentaria sua comunicação pós-morte.
Desencarna em 28 de fevereiro de 1869, um mês antes de Allan Kardec (31/03/1869), em Paris. A Revue Spirite abrigará duas comunicações pós-morte de Lamartine — uma indireta (pelo Espírito de louis-desnoyers em 5/03/1869) e outra direta (em 14/03/1869, médium Pierre-Gaëtan Leymarie) — ambas publicadas em 1869.
Como precursor do Espiritismo
Lamartine não é um precursor doutrinário no sentido de Jean Reynaud ou Charles Fourier — não publicou tratado filosófico explícito sobre reencarnação ou pluralidade dos mundos. Mas a sua comunicação pós-morte o insere voluntariamente na linhagem dos pré-anunciadores:
“Compreendi o pensamento de Swedenborg e da escola dos teósofos, de Fourier, de Jean Reynaud, de Henri Martin, de Victor Hugo, e o Espiritismo, que me era familiar, embora em contradição com os meus preconceitos e o meu nascimento, preparava-me para o desligamento, para a partida.” (RE abr/1869, médium Leymarie, 14/03/1869)
Esta é a última grande peça da linhagem precursora publicada em vida de Kardec, encerrando o ciclo que começa com Swedenborg (séc. XVIII) → doutrina dos teósofos → Charles Fourier (m. 1837) → Jean Reynaud (m. 1863) → Henri Martin → Victor Hugo → Lamartine → manifestações americanas (1848) → filosofia espírita (1857). A continuidade da linhagem foi traçada por Kardec em RE ago/1863 (“Jean Reynaud e os precursores do Espiritismo”) e RE dez/1862 (“Charles Fourier, Louis Jourdain e a reencarnação”).
Comunicações pós-morte
Comunicação indireta por Louis Desnoyers (RE abr/1869, 05/03/1869)
A primeira menção de Lamartine na Revue pós-mortem é peça do Louis Desnoyers (jornalista do Le Siècle) — em comunicação central que faz parte do estudo “O despertar do Sr. Louis” (caso paradigmático de estado confusional pós-morte). Desnoyers homenageia Lamartine como vencedor pela morte que se transfigura no além-túmulo:
“Lamartine era um grande e nobre Espírito, cavalheiresco, entusiasta, um verdadeiro mestre na acepção da palavra, um diamante muito puro, bem lapidado. Ele era belo, grande; ele tinha o olhar, ele tinha o gesto do predestinado; ele sabia pensar, escrever; ele sabia falar; ele era um inspirado, um transformador!… Poeta, mudou o impulso da Literatura, emprestando-lhe suas asas prodigiosas; homem, ele governou um povo, uma revolução, e suas mãos se retiraram puras do contato com o poder.”
Nota factual: uma senhora membro da Sociedade que conhecia Lamartine pessoalmente e tinha assistido aos seus últimos momentos atestou que “depois de sua morte sua fisionomia se havia literalmente transfigurado, que ela não tinha mais a decrepitude da velhice” — o Espírito de Desnoyers refere essa transfiguração (RE abr/1869, observação da Sociedade).
Comunicação direta de Lamartine (RE abr/1869, 14/03/1869, médium Leymarie)
Comunicação central, pela qual Lamartine consolida sua adesão ao Espiritismo e dá testemunho do desligamento sem dor:
“Há um ano, eu tinha uma profunda intuição. Falava pouco, mas viajava sem cessar pelas planícies etéreas, onde tudo se refunde sob o olhar do Senhor dos mundos; o problema da vida se desenrolava majestosamente, gloriosamente. Compreendi o pensamento de Swedenborg e da escola dos teósofos, de Fourier, de Jean Reynaud, de Henri Martin, de Victor Hugo, e o Espiritismo, que me era familiar, embora em contradição com os meus preconceitos e o meu nascimento, preparava-me para o desligamento, para a partida. A transição não foi penosa; como o pólen de uma flor, meu Espírito, levado por um turbilhão, encontrou a planta irmã.”
Convite programático aos espíritas:
“Permutai vossas ideias, espíritas que acreditais em nós. Estudai nas fontes sempre novas do nosso ensino; firmai-vos, e que cada membro da família seja um apóstolo que fale, marche e se conduza com vontade, com a certeza de que não dais nada ao desconhecido. Sabei muito para que vossa inteligência se eleve. A ciência humana, reunida à ciência dos vossos auxiliares invisíveis, mas luminosos, vos fará senhores do futuro. Expulsareis a sombra para vir a nós, isto é, à luz, a Deus.”
A peça também faz apelo conjugal póstumo à esposa Marianne-Élisa Birch (m. 1863): “Não, minha bem-amada, não perdi tua alma, que vivia gloriosa, cintilante de todas as claridades do mundo invisível. Minha vida é um protesto vivo contra o flagelo ameaçador do ceticismo em suas múltiplas formas”.
Lições principais
- A intuição espírita pode anteceder a adesão pública. Lamartine “falava pouco” sobre o Espiritismo nos últimos anos, mas viajava em pensamento “sem cessar pelas planícies etéreas” — caso de espírita por intuição que se reconhece como tal apenas no desligamento (categoria distinta da “espírita por intuição” sociológica de RE jan/1869).
- A transição sem dor para almas desligadas. Sua morte serviu de exemplo doutrinário: lentidão da decadência (“o desencorajamento tomava o belo velho”) + transfiguração no momento final + reconhecimento imediato no além-túmulo.
- Fechamento da linhagem precursora. Lamartine é a última grande peça nominal da linhagem Swedenborg → Fourier → Reynaud → Hugo, fechando-a em vida de Kardec.
- Recusa do ostracismo como prova. “Vi o meu calvário, e enquanto Lamartine o subia penosamente, os filhos desta França tão amada lhe cuspiam no rosto, sem respeito aos seus cabelos brancos, o ultraje, o desafio, a injúria. Prova solene, senhores, na qual a alma se retempera e se retifica”.
Obras associadas
Obras literárias e políticas (não-doutrinárias, citadas para contexto):
- Méditations poétiques (1820) — inaugura o romantismo francês.
- Nouvelles méditations poétiques (1823).
- Harmonies poétiques et religieuses (1830).
- Voyage en Orient (1835).
- Jocelyn (1836) — poema épico.
- Histoire des Girondins (1847) — história da Revolução Francesa que prepara emocionalmente a Revolução de 1848.
- Histoire de la Révolution de 1848 (1849) — auto-relato como testemunha-protagonista.
- Cours familier de littérature (1856-1869) — coleção mensal de ensaios literários pelos quais sobrevive financeiramente nas duas décadas finais.
Sem obra doutrinária explícita; sua contribuição ao Espiritismo é pós-morte e por adesão tardia.
Páginas relacionadas
- revista-espirita-1869 — comunicações pós-morte (abr/1869).
- charles-fourier — companheiro na linhagem precursora; comunicação na mesma sessão (mar/1869).
- jean-reynaud — companheiro na linhagem precursora.
- swedenborg — primeiro elo da linhagem dos precursores.
- victor-hugo — citado por Lamartine na linhagem.
- louis-desnoyers — autor da homenagem em comunicação à SPEE.
- Pierre-Gaëtan Leymarie — médium das comunicações de Lamartine.
- identidade-dos-espiritos — caso de identificação por estilo literário mantido pós-morte (a comunicação reproduz o lirismo característico da prosa lamartiniana).
- morte — modelo de transição sem dor para almas desligadas.
Fontes
- KARDEC, Allan. “Dissertações espíritas — Lamartine”. Revista Espírita, abril de 1869 (Sociedade espírita de Paris, 14 de março de 1869, médium Leymarie).
- KARDEC, Allan. “O despertar do Sr. Louis” (comunicação de Louis Desnoyers sobre Lamartine). Revista Espírita, abril de 1869 (Sociedade de Paris, 5 de março de 1869, médium Leymarie).
- LAMARTINE, Alphonse de. Méditations poétiques. Paris: Au dépôt de la Librairie grecque-latine-allemande, 1820.
- LAMARTINE, Alphonse de. Histoire des Girondins. Paris: Furne, 1847.
- Edição local integral: 04-abril.