Codigo penal da vida futura

Conjunto de 33 principios deduzidos das observacoes espiritas que governam as penas e recompensas da alma apos a morte do corpo. Nao se trata de um codigo imposto por autoridade, mas de leis naturais constatadas pelo estudo dos Espiritos desencarnados em todas as categorias e por inumeros intermediarios ao redor do globo (C&I, 1a parte, cap. VII).

Ensino de Kardec

A carne e fraca

Antes de enunciar o codigo, Kardec refuta o pretexto de que a “carne e fraca” desculparia as mas acoes. Demonstra que o Espirito e o artesao de seu proprio corpo, moldando-o conforme suas necessidades e tendencias. Nao e o temperamento bilioso que torna o homem colerico, mas o Espirito irascivel que impele ao temperamento bilioso (C&I, 1a parte, cap. VII, “A carne e fraca”).

“Lancar a culpa de suas mas acoes a fraqueza da carne nao e, portanto, senao um subterfugio para escapar da responsabilidade. A carne so e fraca porque o Espirito e fraco.” (C&I, 1a parte, cap. VII)

A responsabilidade moral e, pois, total, mas proporcional ao desenvolvimento intelectual do Espirito: quanto mais esclarecido, menos desculpavel.

Os 33 principios --- selecao dos mais significativos

O codigo penal da vida futura resume-se em 33 pontos. Eis os mais centrais:

  1. Sofrimento vinculado a imperfeicao (1o). A alma sofre, na vida espiritual, as consequencias de todas as imperfeicoes de que nao se despojou durante a vida corporal. Seu estado, feliz ou desgraçado, e inerente ao grau de sua purificacao (C&I, 1a parte, cap. VII, 1o).

  2. Felicidade perfeita ligada a perfeicao (2o). Toda imperfeicao e ao mesmo tempo causa de sofrimento e de privacao de gozo; toda qualidade adquirida e causa de gozo e de atenuacao dos sofrimentos (C&I, 1a parte, cap. VII, 2o).

  3. Proporcionalidade rigorosa (3o). Nao ha uma unica imperfeicao que nao traga consequencias lastamaveis, nem uma unica boa qualidade que nao seja fonte de gozo. A soma das penas e proporcionada a soma das imperfeicoes (C&I, 1a parte, cap. VII, 3o).

  4. Livre-arbitrio e progresso (4o). Em virtude da lei do progresso, toda alma tem a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta e desfazer-se do mal. O futuro nao esta fechado a nenhuma criatura. Deus nao repudia nenhum de seus filhos (C&I, 1a parte, cap. VII, 4o).

  5. O inferno esta em toda parte (5o). O sofrimento esta vinculado a imperfeicao; a alma carrega em si mesma seu proprio castigo. Nao e preciso um lugar circunscrito. O inferno esta em toda parte onde ha almas sofredoras, como o ceu esta onde ha almas bem-aventuradas (C&I, 1a parte, cap. VII, 5o).

  6. Omissao do bem (6o). O Espirito sofre nao so por todo o mal que fez, mas por todo o bem que poderia ter feito e nao fez (C&I, 1a parte, cap. VII, 6o).

  7. Conta rigorosa do bem e do mal (8o). Nao ha uma unica ma acao, um unico mau pensamento que nao tenha consequencias fatais, nem um unico bom movimento da alma que seja perdido, mesmo nos mais perversos, porque e um comeco de progresso (C&I, 1a parte, cap. VII, 8o).

  8. Penas subordinadas ao aperfeicoamento (13o). A duracao do castigo esta subordinada ao aperfeicoamento do Espirito culpado. Nenhuma condenacao por tempo determinado e pronunciada. O Espirito e sempre o arbitro de seu proprio destino (C&I, 1a parte, cap. VII, 13o).

“Deus, que e justo, pune o mal enquanto ele existe; cessa de punir quando o mal nao existe mais.” (C&I, 1a parte, cap. VII, 13o)

  1. Arrependimento, expiacao e reparacao (16o-17o). O arrependimento e o primeiro passo, mas sozinho nao basta; sao precisas a expiacao e a reparacao. A reparacao consiste em fazer bem aquele a quem se fez mal. Quem nao repara suas faltas nesta vida encontrar-se-a, numa existencia ulterior, em contato com as mesmas pessoas (C&I, 1a parte, cap. VII, 16o-17o).

“A necessidade da reparacao e um principio de rigorosa justica que se pode considerar como a verdadeira lei de reabilitacao moral dos Espiritos.” (C&I, 1a parte, cap. VII, 17o, nota)

  1. Deus nunca abandona (20o). Sejam quais forem a inferioridade e a perversidade dos Espiritos, Deus nunca os abandona. Todos tem seu anjo guardiao que vela por eles, espia os movimentos de sua alma e esforca-se para suscitar bons pensamentos. O guia age quase sempre de maneira oculta, sem exercer nenhuma pressao (C&I, 1a parte, cap. VII, 20o).

  2. Responsabilidade pessoal (21o). Cada um e responsavel apenas por suas faltas pessoais; ninguem carrega a pena das faltas de outrem, a menos que tenha dado lugar a tal (C&I, 1a parte, cap. VII, 21o).

  3. Igualdade absoluta na criacao (32o). Deus nao criou seres privilegiados. Sua justica brilha na igualdade absoluta que preside a criacao de todos os Espiritos. Todos tem um mesmo ponto de partida; a estrada da felicidade esta aberta a todos (C&I, 1a parte, cap. VII, 32o).

Sintese final (33o)

O item 33 condensa todo o codigo em tres principios-sintese:

O sofrimento esta vinculado a imperfeicao.

Toda imperfeicao, e toda falta que dela decorre, traz consigo seu proprio castigo, por suas consequencias naturais e inevitaveis, como a doenca e decorrente dos excessos, o tedio da ociosidade, sem que haja necessidade de uma condenacao especial para cada falta e cada individuo.

Todo homem, podendo desfazer-se das imperfeicoes pelo efeito de sua vontade, pode poupar a si mesmo os males que delas decorrem, e assegurar sua felicidade futura.(C&I, 1a parte, cap. VII, 33o)

E conclui: tal e a lei da justica divina --- a cada um segundo suas obras, no ceu como na terra.

Aplicacao pratica

Este capitulo e uma ferramenta de estudo e de palestra de enorme valor, pois resume toda a doutrina espirita sobre as penas futuras em principios claros e numerados. Ao preparar palestras sobre justica divina, expiacao ou vida futura, o palestrante pode selecionar os principios mais relevantes ao tema e apresenta-los de forma organizada, sempre com a citacao correspondente.

O conceito de que o sofrimento e inerente a imperfeicao --- e nao uma punicao imposta de fora --- transforma a compreensao do mal: nao ha um Deus vingativo que castiga, mas uma lei natural que opera como a doenca decorre dos excessos. Essa perspectiva e particularmente util para consolar os aflitos, pois mostra que o sofrimento tem fim e que o proprio Espirito possui os meios de abrevia-lo.

Paginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Ceu e o Inferno. 1a parte, cap. VII. FEB.
  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. V. FEB.