Bem-aventurança dos pacificadores

Definição

Sétima bem-aventurança do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (S. Mateus, 5:9). Kardec trata-a no capítulo IX do ESE, em conjunto com a bem-aventurança dos brandos (Mt 5:5), sob o título “Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos”. A brandura contém a violência na relação direta; os pacíficos promovem paz, são instrumentos ativos de conciliação.

Ensino de Kardec

Brandura e paz como mesma lei

“Por estas máximas, Jesus faz da brandura, da moderação, da mansuetude, da afabilidade e da paciência, uma lei. Condena, por conseguinte, a violência, a cólera e até toda expressão descortês de que alguém possa usar para com seus semelhantes” (ESE, cap. IX, item 4). Kardec ensina que a paz prometida aos pacíficos não começa entre povos; começa no trato cotidiano: um “Raca” — termo desdenhoso — já basta para desmentir a bem-aventurança (ESE, cap. IX, item 4, comentando Mt 5:22).

”Serão chamados filhos de Deus”

A fórmula tem peso preciso. Kardec conecta-a à promessa aos brandos: “justiça lhes será feita, assim na Terra como no céu, porque serão chamados filhos de Deus. Quando a Humanidade se submeter à lei de amor e de caridade, deixará de haver egoísmo” (ESE, cap. IX, item 5). Ser “filho de Deus” é participar da natureza divina pelo parentesco moral — o pacificador assemelha-se a Deus, cuja obra é a ordem e a concórdia. Não é título ornamental: é descrição do lugar que o Espírito ocupa na escala divina quando exerce essa função.

A cólera, inimiga da paz

“Pesquisai a origem desses acessos de demência passageira que vos assemelham ao bruto (…); pesquisai e, quase sempre, deparareis com o orgulho ferido” (Espírito protetor, ESE, cap. IX, item 9). O pacificador é, antes de tudo, quem pacificou em si próprio a fonte habitual das brigas: o amor-próprio. Enquanto o orgulho reinar internamente, não há como levar paz a fora.

Kardec rebate a desculpa fisiológica: “O corpo não dá cólera àquele que não na tem. (…) Todas as virtudes e todos os vícios são inerentes ao Espírito” (ESE, cap. IX, item 10). O temperamento pode inclinar, mas não determina; o Espírito pacificador é pacificador também num corpo irritável.

Reconciliação como dever prioritário

A bem-aventurança é inseparável do preceito do capítulo X: “Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário (…). Deixai a vossa dádiva junto ao altar e ide, antes, reconciliar-vos com o vosso irmão” (ESE, cap. X, itens 5 e 7). O pacificador não espera que o outro dê o primeiro passo; antecipa-se. Quem pode reconciliar e não o faz deixa de ser pacificador, por mais que se abstenha de agredir.

Paciência é caridade

“Sede pacientes. A paciência também é uma caridade e deveis praticar a lei de caridade ensinada pelo Cristo” (Espírito amigo, ESE, cap. IX, item 7). A paz que o pacificador traz não é mágica; custa-lhe — em silêncio diante da provocação, em perdão, em renúncia ao revide. “A caridade que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil de todas. Outra há, porém, muito mais penosa e, conseguintemente, muito mais meritória: a de perdoarmos aos que Deus colocou em nosso caminho para serem instrumentos do nosso sofrer” (ibid.).

Obediência e resignação como formas da paz

“A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração, forças ativas ambas (…). O pusilânime não pode ser resignado, do mesmo modo que o orgulhoso e o egoísta não podem ser obedientes” (Lázaro, ESE, cap. IX, item 8). A paz evangélica é firmeza, não covardia: rende-se à vontade de Deus e às leis legítimas; resiste ao orgulho, à raiva, à injustiça.

Desdobramentos

Pacificadores vs. apaziguadores falsos

Há paz aparente que só acomoda a injustiça, adiando-a. Jesus adverte: “Não julgueis que vim trazer a paz à Terra; não vim trazer a paz, mas a espada” (S. Mateus, 10:34). A bem-aventurança não abençoa quem “apaga a luz para que não haja brigas”; abençoa quem constrói paz real, a custo de verdade dita, injustiça denunciada e reconciliação promovida. Paz sem justiça é indiferença travestida.

Paz interior como condição

Não se distribui o que não se tem. O pacificador vive da paz que cultiva em si — pela prece, pela vigilância, pela resignação à vontade de Deus. A casa espírita que quer “levar paz” precisa, primeiro, cultivá-la nas próprias reuniões, conversas e decisões internas. O que se irradia é o que se vive.

Relação com a transição planetária

A promessa aos pacíficos é coerente com o tema da Terra regenerada (ESE, cap. IX, item 5; A Gênese, cap. XVIII): um mundo em que “o fraco e o pacífico já não serão explorados, nem esmagados pelo forte e pelo violento”. Ser pacificador é, pois, antecipar as feições do mundo por vir; é colaborar, na escala pequena, com a transformação que Deus prepara na escala grande.

Aplicação prática

Pacificar começa por não atiçar: não repassar fofoca, não esquentar discórdia alheia, não vingar-se da crítica com crítica maior. Segue em atitude ativa: procurar o irmão com quem há mal-entendido; mediar entre companheiros em conflito; desarmar reuniões tensas com palavra justa. Na casa espírita, o pacificador é quem suporta a crítica sem se inflamar, encerra discussões pessoais e guarda sigilo. Em casa, é quem interrompe o ciclo da resposta áspera — alguém tem que ser o primeiro a calar, e a bem-aventurança sugere que seja o espírita.

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. IX (“Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos”), itens 1–10.
  • Kardec, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Cap. XVIII (“Os tempos chegados”).
  • Novo Testamento. S. Mateus 5:9, 21–22.