Bem-aventurança dos famintos de justiça

Definição

Quarta bem-aventurança do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os famintos e os sequiosos de justiça, pois que serão saciados” (S. Mateus, 5:6). Kardec a reúne no capítulo V do ESE ao lado de outras duas bem-aventuranças vinculadas ao sofrimento — a dos aflitos (Mt 5:4) e a dos perseguidos pela justiça (Mt 5:10) —, tratando-as sob o mesmo título geral (“Bem-aventurados os aflitos”). A chave doutrinária é a mesma: a saciedade não se dá neste mundo, mas na vida futura e na Terra regenerada, onde a justiça reinará.

Ensino de Kardec

Situação da humanidade terrestre

Kardec lê as três bem-aventuranças do capítulo V como um diagnóstico da Terra atual — mundo de expiação e provas, onde o bem coexiste com a injustiça. “Até agora os bens da Terra são açambarcados pelos violentos, em prejuízo dos que são brandos e pacíficos” (ESE, cap. IX, item 5). Faminto e sequioso de justiça é o Espírito que sofre com essa desordem — que sente a discrepância entre a lei divina e a prática humana — e não se conforma com ela.

Saciedade só na vida futura e na Terra regenerada

“Somente na vida futura podem efetivar-se as compensações que Jesus promete aos aflitos da Terra” (ESE, cap. V, item 3). A saciedade prometida tem, portanto, dois horizontes:

  • Individual — o Espírito sedento de justiça encontra nos mundos superiores o reino de concórdia que na Terra lhe faltou. “As vicissitudes da vida derivam de uma causa e, pois que Deus é justo, justa há de ser essa causa” (ibid.); quem persevera na justiça aqui colhe nos mundos felizes o que plantou.
  • Coletivo — a transição planetária. “Quando a Humanidade se submeter à lei de amor e de caridade, deixará de haver egoísmo; o fraco e o pacífico já não serão explorados, nem esmagados pelo forte e pelo violento. Tal a condição da Terra, quando (…) se houver tornado mundo ditoso, por efeito do afastamento dos maus” (ESE, cap. IX, item 5).

Fome e sede como virtude

A bem-aventurança não canoniza a carência material por si só. A sede de justiça é virtude ativa: é o Espírito que recusa conformar-se, que pugna pelo direito, que não se calou nem se vendeu. Kardec confirma no comentário à perseguição pela justiça: “Prestam-se, porém, a mais extensas aplicações as três palavras — justos, pobres e aflitos — que resumem todas as condições da vida” (ESE, cap. V, item 16). Saciar essa sede é tarefa contínua do espírita, que a carrega consigo das encarnações terrenas para as seguintes.

Leitura moral de Lucas

Lucas amplia o contraste: “Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. (…) Ai de vós que estais saciados, porque tereis fome” (S. Lucas, 6:21, 25; ESE, cap. V, item 2). A saciedade falsa — a que dispensa a busca pela justiça — é denunciada. Quem se contenta com o mundo como está já recebeu a sua parte e nada lhe resta a colher adiante.

Desdobramentos

Justiça evangélica vs. justiça retributiva

A justiça que Jesus promete saciar não é a de “olho por olho”, mas a justiça do Reino — fraternidade, igualdade, respeito ao próximo. “A caridade é a mais completa e mais sublime expressão da justiça” (ESE, cap. XV, item 5). Ter fome dessa justiça é ter fome de caridade ativa, de igualdade social real, de trato verdadeiramente fraterno entre os homens. Não é ódio aos injustos: é sede da situação em que a injustiça não mais caiba.

Quem trabalha pela justiça já come do pão prometido

A saciedade tem começo nesta vida. O Espírito que consagra os dias à justiça — ainda que em pequena escala, na família e na profissão — sente, já no esforço, um antegozo do que a lei divina lhe reserva. O contrário também é verdadeiro: quem se calou diante da injustiça para garantir saciedade própria colhe cedo o tédio e a inquietação que Jesus promete aos “saciados”.

Relação com a transição planetária

A saciedade coletiva depende do afastamento dos maus do nosso planeta, tema que Kardec desenvolve em A Gênese (cap. XVIII). A bem-aventurança é, nesse sentido, profecia: garante que a história humana tem termo justo, e que os que hoje clamam por reparação serão saciados na Terra renovada. Quem tem fome de justiça é precisamente quem já está em sintonia com o próximo estágio do mundo.

Aplicação prática

A bem-aventurança impede a acomodação. Quem se cala diante da iniquidade familiar, institucional ou social para não se incomodar não tem fome de justiça — por isso, tampouco terá a saciedade prometida. Ao mesmo tempo, a sede é evangélica, não revolucionária no sentido violento: o espírita combate a injustiça pela palavra, pelo exemplo, pela caridade ativa, pela educação — nunca pelo método do adversário. Ter fome de justiça, em casa espírita, começa por não fechar os olhos ao sofrimento que passa diante de nós.

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Fontes

  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. V (“Bem-aventurados os aflitos”), itens 1, 2, 3, 16. Cap. IX, item 5.
  • Kardec, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Cap. XVIII (“Os tempos chegados”).
  • Novo Testamento. S. Mateus 5:6, 10; S. Lucas 6:21, 25.