Joana d’Arc
Identificação
- Nome civil: Jeanne d’Arc, na grafia portuguesa Joana d’Arc ou Joana de Arco (1412–1431)
- Apelido histórico: La Pucelle d’Orléans, “a Donzela de Orléans”
- Origem: Domrémy, Lorena, França
- Morte: queimada viva em Rouen, em 30 de maio de 1431, sob acusação de heresia
- Beatificação e canonização: beatificada em 1909, canonizada por Bento XV em 1920 (posteriormente ao tempo de Kardec — em 1858 era figura histórica venerada como heroína nacional, ainda não santa pela Igreja)
Papel
Espírito autora de uma das comunicações mais notáveis da Revista Espírita de 1858: ditou sua própria biografia espiritual à médium ermance-dufaux, então com 14 anos. Kardec apresenta o trabalho na seção dedicada do fascículo de janeiro:
“É uma pergunta que nos tem sido feita muitas vezes, esta de saber se os Espíritos que respondem com maior ou menor precisão às perguntas que lhes são dirigidas poderiam fazer um trabalho de fôlego. A prova está na obra a que nos referimos, pois aqui já não se trata de uma série de perguntas e respostas, mas de uma narração completa e ordenada, como o faria um historiador, e contendo uma infinidade de detalhes pouco ou nada conhecidos sobre a vida da heroína.” (RE, jan/1858)
A História de Joana d’Arc ditada por ela própria foi publicada em volume separado pela editora Dentu (Palais-Royal, Paris, 1858, in-12, 3 fr.) — é a única das histórias então publicadas autonomamente; a de Luís XI ficou na Revista; a de Carlos VIII permaneceu inédita.
A função doutrinária do trabalho é dupla:
- Demonstração da continuidade da memória individual entre encarnações — argumento contra a hipótese de absorção da alma em “todo universal” (LE, q. 150). Um Espírito pode lembrar com precisão “uma infinidade de detalhes pouco ou nada conhecidos” séculos depois de desencarnar.
- Crítica à hipótese reducionista que atribuiria o conteúdo à memória da médium. Aos catorze anos, sem acesso a “documentos íntimos, dificilmente encontradiços nos arquivos da época”, o conteúdo não cabe na biografia da médium (RE, jan/1858).
Reanálise como modelo de mediunidade — RE dez/1867
Quase dez anos após a Histoire de Jeanne d’Arc ditada via Ermance Dufaux, Kardec retoma Joana d’Arc em “Jeanne D’Arc e seus comentadores” (RE dez/1867), a propósito da análise extensa de N. de Wailly (membro da Academia das Inscrições, na Bibliothèque de l’École de Chartres) sobre as obras históricas de H. Wallon e Jules Quicherat (editor crítico do processo de 1431). O artigo abre a leitura espírita de Joana como modelo eminente de mediunidade:
“Joana d’Arc não é um problema nem um mistério para os espíritas. É um modelo eminente de quase todas as faculdades mediúnicas, cujos efeitos, como uma porção de outros fenômenos, se explicam pelos princípios da doutrina, sem que haja necessidade de lhes buscar a causa no sobrenatural. Ela é a brilhante confirmação do Espiritismo, do qual foi um dos mais eminentes precursores, não por seus ensinamentos, mas pelos fatos, tanto quanto por suas virtudes, que nela denotam um Espírito superior.” (RE dez/1867)
Kardec promete “um estudo especial” posterior. Quicherat é citado como autoridade “que precedeu o Sr. Wallon e desta maneira adquiriu uma autoridade incontestável” — historiador que constatou os fatos sem se comprometer com explicação metafísica, deixando a “teólogos, psicólogos, fisiologistas” o trabalho de teorizar.
Faculdades mediúnicas documentadas em Joana, na leitura kardequiana via Quicherat e Wallon:
- Mediunidade auditiva — “vozes que ela escutava várias vezes por dia” (São Miguel, Santa Catarina, Santa Margarida); diferenciação clara de tonalidades; “sustentava com uma firmeza inabalável que Deus a aconselhava por intermédio dos santos e dos anjos”.
- Mediunidade visual — “ao mesmo tempo se manifestava uma viva luz, na qual ela percebia a figura de seus interlocutores”; “Eu os vejo com os olhos de meu corpo, dizia ela aos seus juízes, tão bem quanto vos vejo”.
- Discernimento de pensamentos secretos — revelou a Carlos VII “um segredo conhecido por Deus e por ele”, único meio de forçar a crença daquele “príncipe desconfiado”.
- Visão à distância — discerniu, estando em Tours, a presença de uma espada enferrujada com cinco cruzes, enterrada perto do altar da igreja de Sainte-Catherine de Fierbois (entre Loches e Chinon); a espada foi encontrada exatamente como descrita.
- Predição verificada — anunciou a Carlos VII, em uma das primeiras conversas, que seria ferida na libertação de Orléans sem ser posta fora de combate; o ferimento ocorreu em 7/05/1429, e em 12/04/1429 — 25 dias antes — um embaixador flamengo na França já havia escrito ao governo de Brabante registrando a predição (texto consignado nos registros da Câmara de Contas de Bruxelas): “Ela deve ser ferida por uma flecha num combate diante de Orléans, mas não morrerá”.
Kardec articula a recusa da hipótese reducionista (alucinação ou “impressionabilidade sensitiva, radiação da força nervosa”) com argumento metodológico: “Estão bem certos de que essas leis existem e que jamais devem ser conhecidas? Enquanto não o forem, não é melhor confessar francamente sua ignorância do que propor tais explicações?”
A peça opera três frentes simultaneamente: (a) recuperação de Joana como precursora histórica do Espiritismo (não doutrinariamente, mas pelos fatos); (b) reabilitação da fenomenologia mediúnica diante da crítica científica moderna; (c) confirmação metodológica de que as faculdades mediúnicas pertencem à ordem natural — coerente com a recusa do “milagre” formulada em “Do emprego da palavra ‘milagre’” (RE mai/1867) e fixada em [[wiki/obras/genese|Gênese]] caps. XIII–XV. Detalhe completo em revista-espirita-1867.
Obras associadas
- História de Joana d’Arc, ditada por ela mesma (Paris: Dentu, 1858) — único trabalho biográfico medianímico de Joana d’Arc publicado em volume na bibliografia kardequiana.
- Comunicações pessoais avulsas obtidas pela mesma médium, mencionadas por Kardec sem transcrição (RE, jan/1858).
Citações relevantes
Sobre o trabalho como prova de continuidade individual da alma:
“Para nós, que vimos a médium operar, a origem do livro não pode ser posta em dúvida.” (RE, jan/1858)
Páginas relacionadas
- revista-espirita-1858 — apresentação do trabalho na seção de janeiro.
- ermance-dufaux — médium psicógrafa e falante.
- luis-xi — outro Espírito histórico autobiografado pela mesma médium no mesmo ano.
- reencarnacao · identidade-dos-espiritos
Fontes
- Kardec, Allan. Revista Espírita, jan/1858, “História de Joana d’Arc ditada por ela própria à senhorita Ermance Dufaux”.
- Edição local: 1858.
- DUFAUX, Ermance (méd.). Histoire de Jeanne d’Arc dictée par elle-même. Paris: Dentu, Palais-Royal, 1858.