Transição planetária

Definição

Processo pelo qual a Terra, mundo de expiações e provas, transita para a condição de mundo de regeneração, pela substituição gradual dos Espíritos obstinados no mal por Espíritos mais adiantados. Não se opera por cataclismo súbito, mas pela renovação moral da população espiritual encarnada e desencarnada.

“A época atual é de transição; confundem-se os elementos das duas gerações.” (Gênese, cap. XVIII, item 28)

“Há muitas moradas na casa de meu Pai”

A base evangélica do conceito está em João 14:1–3: “Há muitas moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse, já eu vo-lo teria dito, pois me vou para vos preparar o lugar.”

Kardec interpreta: “A casa do Pai é o universo. As diferentes moradas são os mundos que circulam no espaço infinito e oferecem, aos Espíritos que neles encarnam, moradas correspondentes ao adiantamento dos mesmos Espíritos” (ESE, cap. III, item 2).

Os mundos não são estáticos: progridem pela depuração dos Espíritos que os habitam. A Terra, mundo de expiações e provas, há chegado ao ponto de ascender na escala (ESE, cap. III, itens 4–5; Gênese, cap. XVIII, item 2).

Ensino de Kardec

Classificação dos mundos

O Espiritismo classifica os mundos em categorias progressivas (ESE, cap. III, item 4):

  1. Mundos primitivos — primeiras encarnações
  2. Mundos de expiação e provas — predomina o mal (a Terra atual)
  3. Mundos regeneradores — transição, aurora da felicidade
  4. Mundos felizes — o bem sobrepuja o mal
  5. Mundos celestes ou divinos — reina exclusivamente o bem

“A Terra pertence à categoria dos mundos de expiação e provas” (ESE, cap. III, item 4), mas caminha para a categoria de mundo regenerador: “Este mundo […] esteve material e moralmente num estado inferior ao em que hoje se acha e se alçará sob esse duplo aspecto a um grau mais elevado. Ele há chegado a um dos seus períodos de transformação, em que, de orbe expiatório, mudar-se-á em planeta de regeneração” (ESE, cap. III, item 19 — Santo Agostinho).

Mecanismo da transição

A transformação é de ordem moral, não cataclísmica:

“A Terra, no dizer dos Espíritos, não terá de transformar-se por meio de um cataclismo que aniquile de súbito uma geração. A atual desaparecerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança alguma na ordem natural das coisas.” (Gênese, cap. XVIII, item 27)

O processo se dá por emigração e imigração de Espíritos: os obstinados no mal deixam de reencarnar na Terra e são direcionados a mundos inferiores; Espíritos melhores os substituem (Gênese, cap. XVIII, item 27). Ver emigracoes-e-imigracoes-dos-espiritos.

Progresso como lei

“O nosso globo, como tudo o que existe, está submetido à lei do progresso. Ele progride, fisicamente, pela transformação dos elementos que o compõem e, moralmente, pela depuração dos Espíritos encarnados e desencarnados que o povoam” (Gênese, cap. XVIII, item 2).

O progresso não é acidental, mas obedece a leis eternas: “Quando, por conseguinte, a humanidade está madura para subir um degrau, pode dizer-se que são chegados os tempos marcados por Deus” (Gênese, cap. XVIII, item 2).

”Novo céu e nova terra” no Apocalipse

Kardec cita explicitamente em Gênese cap. XVIII a profecia do Apocalipse joanino como passagem-fonte da transição planetária:

“E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram […]. E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas. E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas.” (Ap 21:1, 4–5)

A “nova Jerusalém” (Ap 21:2; 21:9–22:5) é a alegoria da humanidade regenerada — não cidade física descendo do céu nem milênio cosmológico literal. Tratamento conceitual completo em nova-jerusalem. A imagem das “folhas da árvore […] para a saúde das nações” (22:2) confirma a universalidade da regeneração — convergência total com LE q. 1015–1019.

Aplicação prática

A transição planetária fundamenta a esperança espírita no futuro da Terra sem escapismo ou passividade: o advento do mundo regenerador depende do esforço moral de cada Espírito. Quem se reforma interiormente contribui para a transição; quem se obstina no mal será naturalmente afastado pela lei de progresso. A mensagem é de responsabilidade ativa, não de espera passiva.

Na Viagem Espírita em 1862

Kardec confirma que os Espíritos comunicam de toda parte a proximidade da era nova. No Discurso III, reitera que a renovação não será cataclísmica, mas moral:

“Basta a Deus não mais permitir aos Espíritos imperfeitos que aqui se reencarnem; que daqui afaste os que, por orgulho, incredulidade e maus instintos constituem obstáculo ao progresso […]. Para isto, basta uma geração de homens e a vontade de Deus.” [[obras/viagem-espirita-em-1862|(Kardec, Viagem Espírita em 1862, Discurso III)]]

Kardec adverte contra expectativas de mudança brusca: “Não creiais que sejamos testemunhas de uma transformação visível; querem significar que estamos no momento da transição; que assistimos à partida dos antigos e à chegada dos novos.”

Ver viagem-espirita-em-1862.

Desenvolvimento por Emmanuel

Em A Caminho da Luz (caps. 24–25), Emmanuel descreve a transição planetária com detalhes complementares:

  • O Espiritismo é apresentado como a força moral indispensável à transição: “só o Espiritismo pode representar o valor moral onde se encontre o apoio necessário à edificação do porvir” (cap. 24).
  • A Terra “alijará todos os Espíritos rebeldes e galvanizados no crime, que não souberam aproveitar a dádiva de numerosos milênios” (cap. 24).
  • A América é apontada como destinatária do “cetro da civilização e da cultura, na orientação dos povos porvindouros” (cap. 24).
  • Emmanuel menciona uma terceira reunião da “comunidade das potências angélicas do sistema solar” para decidir sobre os destinos da Terra (cap. 24).

Ver a-caminho-da-luz.

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. III, itens 2–19. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. A Gênese, cap. XVIII, itens 1–35. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 55–58, q. 1019. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). A Caminho da Luz, caps. 24–25. FEB, 1939.