Inferno
O inferno, tal como concebido pelas religiões tradicionais, é a projeção amplificada dos males terrestres sobre a vida futura, produto da intuição das penas futuras combinada com a materialidade dos povos primitivos. O inferno cristão é imitação direta do inferno pagão, e o fogo eterno é símbolo, não realidade material.
Ensino de Kardec
Intuição das penas futuras
Em todos os tempos, o homem acreditou instintivamente que a vida futura seria feliz ou infeliz conforme o bem e o mal praticados. Porém a ideia que faz dessa vida está em relação com seu desenvolvimento moral: “penas e recompensas são reflexo de seus instintos predominantes” (C&I, 1ª parte, cap. IV, item 1). Povos guerreiros situam a suprema felicidade nas honras da bravura; povos sensuais, nas delícias da volúpia.
“Não podendo o homem primitivo conceber senão o que vê, calcou naturalmente seu futuro sobre o presente; para compreender outros tipos além dos que tinha à vista, precisava de um desenvolvimento intelectual que só devia se realizar com o tempo.” (C&I, 1ª parte, cap. IV, item 2)
Assim, nos climas ardentes, imaginou-se um inferno de fogo; nas regiões boreais, um inferno glacial. O quadro dos castigos futuros é “o reflexo dos males da humanidade, mas em mais ampla proporção” (C&I, 1ª parte, cap. IV, item 2).
Inferno cristão imitado do pagão
Kardec demonstra, com citações detalhadas, que o inferno cristão é derivação direta do inferno pagão. Os pagãos tinham o Tártaro com seus suplícios individuais (o tonel das Danaides, a roda de Íxion, o rochedo de Sísifo); os cristãos generalizaram e amplificaram essas penas.
“Se estes últimos tinham no deles o tonel das Danaides, a roda de Íxion, o rochedo de Sísifo, eram suplícios individuais; o inferno cristão tem para todos caldeiras borbulhantes cujas tampas os anjos levantam para ver as contorções dos condenados às penas eternas.” (C&I, 1ª parte, cap. IV, item 3)
Kardec nota que “jamais os pagãos descreveram os habitantes dos Campos Elíseos saciando a vista com os suplícios do Tártaro” — algo que teólogos cristãos como Santo Tomás de Aquino afirmaram sem hesitar (C&I, 1ª parte, cap. IV, item 3, nota).
Satã como herdeiro de Plutão
A figura de Satã é paralela à de Plutão, com uma diferença essencial: “Plutão se limitava a governar o sombrio império que lhe tocara na partilha, mas não era malvado; retinha em sua casa aqueles que haviam cometido o mal, porque essa era sua missão, mas não procurava induzir os homens ao mal para ter o prazer de fazê-los sofrer, ao passo que Satã recruta em toda a parte vítimas que se compraz em fazer atormentar” (C&I, 1ª parte, cap. IV, item 4).
A localização do inferno segue o mesmo padrão: como o céu fora posto nas regiões superiores, o inferno foi colocado “nos lugares inferiores, ou seja, no centro da Terra, ao qual certas cavidades sombrias e de aspecto terrível serviam de entrada” (C&I, 1ª parte, cap. IV, item 5). Jesus não pôde destruir subitamente essas crenças enraizadas, pois faltavam aos homens os conhecimentos necessários; limitou-se a falar vagamente dos castigos, sem nunca descrever os suplícios corporais que os cristãos transformaram em artigo de fé (C&I, 1ª parte, cap. IV, item 6).
Fogo eterno como símbolo
Kardec apresenta extensos relatos do “quadro do inferno cristão” conforme os teólogos — o fogo que “queima incessantemente os condenados sem jamais os consumir”, os demônios armados de forcados, as fornalhas eternas — para depois demonstrar seu caráter simbólico e alegórico. O inferno material exigiria milagres absurdos: Deus precisaria ressuscitar corpos mortais e infligir-lhes imortalidade justamente para perpetuar o suplício, tornando-se assim “um dos carrascos do inferno” (C&I, 1ª parte, cap. IV, item 13).
Visões extáticas como reflexo das preocupações
As visões de santos que “visitaram” o inferno — como Santa Teresa de Ávila — não são revelações, mas produções da imaginação amplificadas pelo estado extático:
“É preciso ver nisso uma prova do princípio de que o êxtase é a menos segura de todas as revelações […] encontra-se aí com muita frequência o reflexo das preocupações da véspera. As ideias das quais o espírito é nutrido […] reproduzem-se amplificadas como numa miragem.” (C&I, 1ª parte, cap. IV, item 15)
“Um pagão cheio de fé teria visto o Tártaro e as Fúrias, como teria visto no Olimpo Júpiter empunhando o raio” (C&I, 1ª parte, cap. IV, item 15). Cada extático vê o que sua cultura e suas crenças lhe sugerem, não uma realidade objetiva.
O “lago de fogo” no Apocalipse
O vocabulário escatológico mais carregado das tradições do inferno cristão vem do Apocalipse joanino: “lago de fogo e enxofre” (Ap 19:20; 20:10, 14–15; 21:8); “a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre” (Ap 14:11; cf. 19:3); “esta é a segunda morte” (Ap 20:14; 21:8). Essas passagens, lidas literalmente, alimentaram diretamente as descrições medievais do inferno [[obras/ceu-e-inferno|(Dante, Inferno)]] e os tratados sistemáticos da escolástica.
A leitura espírita dissolve a literalidade aplicando a chave hermenêutica do gênero apocalíptico (alegoria moral) e os argumentos doutrinários de C&I 1ª parte caps. VI–VII (penas temporárias, proporcionais, medicinais e interrompíveis pelo arrependimento). O “lago de fogo” é estado moral autoinfligido pelos Espíritos que persistem no mal, não lugar físico com chamas literais; “para todo o sempre” (gr. eis aiōnas aiōnōn) traduz duração extensa, não infinitude metafísica (ESE cap. III, item 6, sobre o uso bíblico de “eterno”); a “segunda morte” é alegoria da morte espiritual prolongada — atrofia moral grave mas reversível pela reforma (LE q. 1009).
Tratamento detalhado em penas-eternas-em-apocalipse.
Aplicação prática
O estudo deste capítulo é fundamental para o expositor espírita que deseja abordar o tema das penas futuras sem cair no devocionalismo nem na negação pura. Kardec não ridiculariza a intuição das penas — reconhece-a como legítima — mas demonstra que sua tradução em suplícios materiais eternos é fruto da imaturidade intelectual da humanidade.
A comparação sistemática entre o inferno pagão e o cristão (Plutão/Satã, Tártaro/inferno, Fúrias/demônios) é recurso pedagógico eficaz para mostrar a origem cultural — não revelada — dessas crenças. A análise das visões extáticas (C&I, 1ª parte, cap. IV, item 15) é útil em discussões sobre mediunidade e discernimento, lembrando que o estado de êxtase, por si, não garante veracidade.
Páginas relacionadas
- ceu-e-inferno
- apocalipse — passagens-fonte do “lago de fogo” e “segunda morte” (Ap 14, 19–21).
- penas-eternas-em-apocalipse — leitura espírita das passagens apocalípticas absolutizadas pela tradição.
- penas-e-gozos-futuros
- morte-espiritual — leitura espírita da “segunda morte” (Ap 20:14; 21:8).
- demonios
- ceu
- purgatorio
Fontes
- Kardec, Allan. O Céu e o Inferno. 1ª parte, cap. IV. FEB.