Obediência e resignação

Pergunta

Em que se distinguem a obediência e a resignação no ensino espírita, e por que Jesus as apresenta como virtudes ativas, e não como simples passividade ou negação da vontade?

Citação literal

A doutrina de Jesus ensina, em todos os seus pontos, a obediência e a resignação, duas virtudes companheiras da doçura e muito ativas, se bem os homens erradamente as confundam com a negação do sentimento e da vontade.

A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração, forças ativas ambas, porquanto carregam o fardo das provações que a revolta insensata deixa cair. O pusilânime não pode ser resignado, do mesmo modo que o orgulhoso e o egoísta não podem ser obedientes. Jesus foi a encarnação dessas virtudes que a antiguidade material desprezava. Ele veio no momento em que a sociedade romana perecia nos desfalecimentos da corrupção. Veio fazer que, no seio da Humanidade deprimida, brilhassem os triunfos do sacrifício e da renúncia carnal.

Cada época é marcada, assim, com o cunho da virtude ou do vício que a tem de salvar ou perder. A virtude da vossa geração é a atividade intelectual; seu vício é a indiferença moral. (…) Submetei-vos à impulsão que vimos dar aos vossos espíritos; obedecei à grande lei do progresso, que é a palavra da vossa geração.

Lázaro. Paris, 1863. (ESE, cap. IX, item 8.)

Comentário de Kardec

Kardec coloca o item 8 imediatamente após “A paciência” (item 7, do Espírito amigo, Havre, 1862) e antes de “A cólera” (itens 9–10, Espírito protetor, Bordéus, 1863), no capítulo IX dedicado às bem-aventuranças dos brandos e dos pacíficos (Mt 5:5, 9). A sequência editorial é proposital: a brandura dos pacíficos só se sustenta quando obediência e resignação operam por dentro, contendo o orgulho — que é, segundo o Espírito protetor de Bordéus, a fonte habitual da cólera (ESE, cap. IX, item 9). Kardec assina o título da seção; o desenvolvimento vem inteiro do Espírito Lázaro.

Análise

Duas virtudes, duas faculdades

Lázaro entrega uma definição quase técnica:

  • Obediência = consentimento da razão. É o entendimento que adere à lei depois de tê-la pesado. Não é submissão cega — pressupõe que o intelecto reconheceu a justiça do mandamento.
  • Resignação = consentimento do coração. É a afetividade que aceita a prova, sem revolta nem desespero. Pressupõe fé raciocinada — compreensão da lei de causa e efeito e da pluralidade das existências.

A divisão razão/coração corresponde, no vocabulário kardecista, às duas dimensões em que o Espírito é provado: o entendimento, que tem de aceitar a lei; e a afetividade, que tem de suportar o que a lei traz consigo.

”Forças ativas ambas”

A fórmula é o coração do item. Lázaro antecipa a objeção popular — obedecer e resignar-se parecem ato de fraqueza. A correção é taxativa: “forças ativas ambas, porquanto carregam o fardo das provações que a revolta insensata deixa cair”.

Quem se rebela contra a prova abandona o fardo; o resignado carrega-o. Resignar é mais difícil que reclamar — exige domínio do orgulho e da impaciência. O mesmo vale para a obediência: aderir à lei contraria a inclinação egoísta natural; obedecer é vencer-se. A virtude está no esforço sustentado, não no gesto exterior de submissão.

Os falsos sósias

Lázaro fixa duas exclusões diagnósticas que, em palestra, valem a pena explicitar:

Não é a virtudeÉ o seu sósia mórbido
ResignaçãoPusilanimidade — covardia que se acomoda por falta de força para reagir.
ObediênciaOrgulho/egoísmo — incapazes de submeter o “eu” a uma lei superior.

A pusilanimidade renuncia por fraqueza; a resignação aceita por força. O orgulhoso quer mandar e por isso não se dobra; o obediente, depois de ter pesado, aceita ser conduzido. Os sósias são vícios travestidos — atendem ao apelo externo da virtude sem o seu fundamento moral. Daí a importância do critério de humildade: ela é o solo comum em que obediência e resignação podem germinar.

Jesus como modelo histórico

Lázaro recorre à história, não à abstração. A “antiguidade material” — Roma imperial em decadência — desprezava obediência e resignação como virtudes de escravos. Jesus encarna o oposto: aceita a prova até o fim sem renunciar à verdade, obedece ao Pai sem perder a soberania interior. “Os triunfos do sacrifício e da renúncia carnal” no centro do Império materialista são, em Lázaro, a inversão histórica que abre o cristianismo.

A leitura espírita do sofrimento de Jesus é coerente com a tese: prova escolhida no estado errante, não imolação expiatória que aplaca a ira de Deus (LE q. 258, q. 851; ESE cap. XV; kenose-de-cristo). Jesus obedece e se resigna livremente — daí o valor moral do exemplo.

Cada época, sua virtude e seu vício

A última parte do item desloca o foco do indivíduo para a geração: “A virtude da vossa geração é a atividade intelectual; seu vício é a indiferença moral.”

Lázaro, em 1863, descreve o século XIX europeu — e, por extensão analógica, qualquer época em que o progresso técnico-científico avança sem contrapeso moral. A “indiferença moral” é a doença específica de uma sociedade que sabe muito e sente pouco; que produz e consome, mas não se compadece. A correção que o Espírito propõe é obediência à lei do progresso — entendido, em Kardec, como progresso moral integral, e não apenas intelectual ou material (LE q. 776–800; progresso-espiritual).

A advertência final é severa: “Ai do espírito preguiçoso, ai daquele que cerra o seu entendimento! (…) nós, que somos os guias da Humanidade em marcha, lhe aplicaremos o látego e lhe submeteremos a vontade rebelde.” Não é ameaça externa — é descrição da lei do progresso que opera, por dor quando não opera por convencimento.

Resignação ≠ apatia; obediência ≠ servidão

A confusão que Lázaro denuncia — “a negação do sentimento e da vontade” — é o equívoco que ainda afasta muitos da virtude:

  • Resignar-se não é desistir de melhorar a condição. A resignação aplica-se ao inevitável (doença sem cura, perda irreparável, prova já em curso); o evitável deve ser combatido pelo esforço e pela caridade. Aceitar passivamente o mal que se pode corrigir é omissão, não virtude (ver resignacao).
  • Obedecer não é abdicar do discernimento. A obediência espírita é à lei — de Deus, da consciência, do progresso —, não a homens, instituições ou tradições que dela se afastem. Kardec é explícito noutra ponta do ESE: a fé inabalável é só a que pode encarar a razão face a face em todas as épocas (ESE, cap. XIX, item 7).

A bem-aventurança que abre o capítulo IX — “Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra” — encerra-se, no item 8, com a chave que torna a brandura possível: obediência e resignação como forças, não como renúncias.

Conceitos relacionados

Fontes

  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. IX (“Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos”), item 8 — “Obediência e resignação” (Lázaro, Paris, 1863). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Edição: evangelho-segundo-o-espiritismo.
  • Novo Testamento. S. Mateus 5:5, 9.