Fluido cósmico universal
Definição
Substância primitiva e única que preenche todo o espaço e constitui a matéria-prima de todos os corpos e fluidos do universo. É a matéria elementar em seu estado mais simples, a partir da qual todas as formas de matéria tangível e etérea se originam por combinação e transformação.
“Há um fluido etéreo que enche o espaço e penetra os corpos. Esse fluido é o éter ou matéria cósmica primitiva, geradora do mundo e dos seres.” (Gênese, cap. VI, item 10)
Kardec também o chama de cosmo ou matéria cósmica: “não há, em todo o universo, senão uma única substância primitiva: o cosmo, ou matéria cósmica dos uranógrafos” (Gênese, cap. VI, item 7).
Ensino de Kardec
No Livro dos Espíritos
O conceito aparece na discussão sobre a matéria e os elementos gerais do universo. Os Espíritos ensinam que o que chamamos de eletricidade, magnetismo e outros fluidos são “modificações do fluido universal, que não é, propriamente falando, senão matéria mais perfeita, mais sutil e que se pode considerar independente” (LE, q. 27a).
A matéria cósmica é o princípio de toda matéria ponderal: “A matéria etérea e sutil que constitui esse fluido vos é imponderável. Nem por isso, entretanto, deixa de ser o princípio da vossa matéria pesada” (LE, q. 29).
O fluido universal é também o veículo do pensamento entre os Espíritos: “O fluido universal estabelece entre eles constante comunicação; é o veículo da transmissão do pensamento, como, para vós, o ar o é do som. É uma espécie de telégrafo universal” (LE, q. 282).
No Evangelho Segundo o Espiritismo
A prece é apresentada como ação sobre o fluido universal: “Todos os seres, encarnados e desencarnados, [estão] mergulhados no fluido universal, que ocupa o espaço […]. Esse fluido recebe da vontade uma impulsão; ele é o veículo do pensamento” (ESE, cap. XXVII, item 9).
Em A Gênese
A Gênese apresenta o desenvolvimento mais completo do conceito, organizando-o em dois estados:
- Estado de eterização (imponderabilidade) — o estado primitivo normal.
- Estado de materialização (ponderabilidade) — estado consecutivo, resultando na matéria tangível.
“O ponto intermédio é o da transformação do fluido em matéria tangível. Mas, ainda aí, não há transição brusca” (Gênese, cap. XIV, item 2).
São-lhe inerentes todas as forças do universo: gravidade, coesão, afinidade, atração, magnetismo, eletricidade — diversificações de uma lei única (Gênese, cap. VI, item 10).
O fluido cósmico é também a matéria-prima do princípio vital: este é “uma das modificações do fluido cósmico, pela qual este se torne princípio de vida, como se torna luz, fogo, calor, eletricidade” (Gênese, cap. X, item 17).
E é a matéria-prima do perispírito: “O perispírito […] é um dos mais importantes produtos do fluido cósmico; é uma condensação desse fluido em torno de um foco de inteligência ou alma” (Gênese, cap. XIV, item 7).
Preparação direta na Revista Espírita — 1866
O cap. XIV de Gênese tem como texto-matriz o artigo “Introdução ao estudo dos fluidos espirituais” publicado em 1866. Pontos centrais sobre o fluido cósmico universal:
- Tese da unidade material — “os corpos reputados simples não passam de modificações, de transformações de um elemento único, princípio universal designado sob os nomes de éter, fluido cósmico ou fluido universal” (RE mar/1866, seção III). O calórico, a luz, a eletricidade, o magnetismo são variantes desse fluido único.
- Substrato comum dos corpos ponderáveis e imponderáveis — “esse fluido que, segundo toda probabilidade, é imponderável, seria ao mesmo tempo o princípio dos fluidos imponderáveis e dos corpos ponderáveis” (RE mar/1866, seção III).
- Articulação com Moisés (Gn 2:7) e Paulo (1Co 15) como antecipações intuitivas — “Sendo o fluido universal o princípio de todos os corpos da Natureza […] Moisés estava certo quando disse: ‘Deus formou o corpo do homem do limo da terra’” (RE mar/1866, seção VII).
Em André Luiz: o “plasma divino”
Em Evolução em Dois Mundos (1958, parte I, cap. 1), André Luiz reapresenta o fluido cósmico em linguagem deliberadamente inclusiva de outras tradições, sem deixar a substância kardequiana:
“O fluido cósmico é o plasma divino, hausto do Criador ou força nervosa do Todo-Sábio. Nesse elemento primordial, vibram e vivem constelações e sóis, mundos e seres, como peixes no oceano.” [[obras/evolucao-em-dois-mundos|(André Luiz / Chico Xavier, Evolução em Dois Mundos, parte I, cap. 1)]]
Pontos de contato com Kardec:
- O plasma é a substância única com que “as Inteligências Divinas” co-criam, em paralelo com a “matéria cósmica primitiva, geradora do mundo e dos seres” da Gênese (cap. VI, item 10).
- A frase “em Deus nos movemos e existimos” — citada no fim do capítulo — repete At 17:28, também invocada por Kardec em ESE, cap. I.
- Toda matéria é definida como “energia tornada visível”, e toda energia, “originariamente, é força divina” — formulação que sintetiza a distinção kardequiana entre fluido em estado eterizado e materializado (Gênese, cap. XIV, item 2).
Aprofundamentos específicos da obra:
- O fluido cósmico é trabalhado por hierarquias espirituais chamadas “Inteligências Divinas, grandes Devas da teologia hindu, Arcanjos da interpretação de variados templos religiosos” — vocabulário pluralista que reafirma a unicidade da substância sob múltiplas tradições.
- O pensamento humano é definido como “subproduto do fluido cósmico, absorvido pela mente humana, em processo vitalista semelhante à respiração” (parte I, cap. 13). Toda mente toma do plasma divino e o transubstancia em pensamento contínuo, gerando “raio da emoção” ou “raio do desejo” — fluidos diferenciados pela qualidade do sentimento que os tipifica.
- Plantas e animais no Plano espiritual reproduzem-se por absorção desse plasma, recolhendo “produtos sutilizados ou sínteses quimioeletromagnéticas” (parte II, cap. 1).
- A alimentação dos desencarnados e o passe magnético (parte II, caps. 1, 15) operam pela manipulação consciente desse fluido — o que articula prece, fluido cósmico e cura num único circuito vital.
A leitura de André Luiz é coerente com a tese kardequiana de que todos os fluidos derivados são modificações da substância única (LE, q. 27a), e oferece uma fenomenologia mais detalhada da circulação desse plasma entre encarnados e desencarnados.
Distinção: fluido cósmico universal vs. fluidos
O fluido cósmico universal é a substância-mãe, o princípio material único e indiferenciado. Os fluidos (espirituais, magnéticos, vitais, etc.) são suas modificações — produtos diferenciados por combinação, condensação ou ação da inteligência. A relação é análoga à da água pura com suas inúmeras soluções: a água é uma, mas as soluções são muitas e de propriedades diversas.
Ver fluidos para a hierarquia completa dos fluidos derivados.
Aplicação prática
A compreensão do fluido cósmico universal unifica a visão espírita sobre matéria, vida, perispírito, ação dos Espíritos e prece: tudo se desenvolve a partir de uma substância única submetida a leis igualmente únicas. Essa unidade fundamenta a tese kardeciana de que não há sobrenatural — apenas graus de conhecimento das leis naturais.
Páginas relacionadas
- fluidos — os fluidos derivados (espirituais, vitais, magnéticos)
- principio-vital — modificação fluídica que origina a vida orgânica
- perispirito — condensação fluídica que reveste o Espírito
- deus — causa primária; o fluido cósmico não é Deus, mas sua criação
- espirito — o outro princípio constitutivo do universo (irredutível à matéria)
- livro-dos-espiritos — q. 27–29, q. 65, q. 282
- evangelho-segundo-o-espiritismo — cap. XXVII, item 9
- genese — caps. VI, X, XIV
- evolucao-em-dois-mundos — fluido cósmico como “plasma divino” (André Luiz, 1958, parte I, caps. 1, 13)
- centros-vitais — fulcros de absorção do plasma no psicossoma
- criacao-do-planeta-terra — papel do fluido cósmico na cosmogonia da Terra
Fontes
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 27–29, q. 65, q. 282. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XXVII, item 9. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Kardec, Allan. A Gênese, cap. VI, itens 7–10; cap. X, item 17; cap. XIV, itens 2, 7. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Kardec, Allan. “Introdução ao estudo dos fluidos espirituais”. Revista Espírita, ano 1866, março. Edição: 03-marco.
- XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo (André Luiz). Evolução em Dois Mundos. FEB, 1958. Parte I, caps. 1, 13. Edição: evolucao-em-dois-mundos.