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Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda

Dados bibliográficos

Estrutura

Volume comemorativo dos dois mil anos do nascimento de Jesus. Joanna de Ângelis comenta um item específico de cada um dos primeiros 27 capítulos do Evangelho Segundo o Espiritismo, totalizando 35 capítulos breves + prefácio. O método é declarado já no prefácio: “Firmada nas excelentes colocações expostas por Allan Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo, comenta um item de cada capítulo desse Livro extraordinário da Doutrina Espírita, conclamando o indivíduo à mudança de comportamento e de atitudes perante a vida.”

A novidade dentro da Série Psicológica de Joanna não é o eixo Jesus-psicoterapeuta — já consolidado em jesus-e-atualidade (1989) — mas a chave hermenêutica explicitamente junguiana: sombra coletiva e sombra individual, Self/Eu profundo vs. ego, anima/animus, arquétipos. Onde o-ser-consciente e o-despertar-do-espirito adotam o vocabulário da Quarta Força (Psicologia Transpessoal), aqui Joanna recua até a fonte junguiana e a aplica diretamente à leitura kardequiana do Evangelho.

Mapeamento ESE

Cap.TítuloItem ESEVersículo
1Soberanas leisI, item 3Mt 5:17
2O reinoII, item 2Jo 18:36
3RealezaII, item 4Jo 18:37
4Diversidade de moradasIII, item 3Jo 14:2
5RenascimentosIV, item 25Jo 3:3
6A desgraça realV, item 24Mt 5:6
7O jugo leveVI, item 7Mt 11:28
8O maiorVII, item 6Mt 18:4
9EscândalosVIII, item 12Mt 18:7
10A paciênciaIX, item 7
11ReconciliaçãoX, item 6
12JulgamentosX, item 10
13Libertação pelo amorXI, item 8
14O egoísmoXI, item 11
15A vingançaXII, item 9
16O ódioXII, item 10Lc 6:36
17Os infortúnios ocultosXIII, item 4Mt 8:4
18A beneficênciaXIII, item 11Mt 6:1
19A piedadeXIII, item 17Mc 12:44
20Amor filialXIV, item 8Mt 19:19
21Luz da caridadeXV, item 10Lc 10:37
22PropriedadeXVI, item 7Lc 16:13
23A avarezaXVI, item 11Lc 12:20
24PerfeiçãoXVII, item 2Mt 5:48
25Convidados e aceitosXVIII, item 2Mt 22:14
26Poder da féXIX, item 2Mt 17:20
27Últimos e primeirosXX, item 2Mt 20:16
28MediunidadeXXI, item 4Lc 6:43
29Matrimônio e amorXXII, item 2Mt 19:5
30Espada e pazXXIII, item 11Mt 10:34
31CruzesXXIII, item 12Lc 14:27
32PsicoterapeutaXXIV, item 12Mt 9:12
33A buscaXXV, item 2Mt 7:7
34Gratuidade do bemXXVI, item 7Mt 10:8
35Pedir e conseguirXXVII, item 7Mc 11:24

Resumo por eixos

1. Aparelho conceitual junguiano sistematizado

A obra introduz, de forma articulada, a terminologia da Psicologia Profunda junguiana como instrumento de leitura do ESE. Os termos recorrem em quase todos os capítulos:

  • Sombra coletiva — herança ancestral patriarcal, “sombra bíblica”, inconsciente coletivo da espécie e da cultura semita do I século. Aparece já no cap. 1 (“paixões da sombra, envolvente dos legisladores e seus tribunais”) e atravessa os caps. 8, 12, 14, 16, 23.
  • Sombra individual / lado escuro da personalidade — instintos primários, ego autodefensor, “fixações do trânsito pelos instintos primários” (cap. 4). A “auto-iluminação” do cap. 5 é a diluição da sombra pelo amor.
  • Self / Eu profundo / Si — núcleo divino latente, “deus interno que se encontra adormecido” (cap. 24). O ensinamento de Jesus é descrito como “evolução do Self, iluminando a sombra e vencendo-a” (cap. 1).
  • Anima/Animus — Jesus como “Exemplo da perfeita identificação da anima com o animus” (prefácio). Releitura do Bom Samaritano (cap. 21) com a hospedaria como anima e o hospedeiro como animus; mesma grade aplicada à árvore-fruto da mediunidade (cap. 28).
  • Arquétipos — relidos não só como inconsciente coletivo da espécie, mas com raiz reencarnacionista (“Os Seus arquétipos procediam de outras imagens ancestrais representativas de patamares vibratórios superiores”, cap. 23). Convergente com a discordância parcial nominal de Jung registrada em Vida: Desafios e Soluções cap. 7.
  • Selbst — termo alemão usado uma única vez (cap. 16, sobre o ódio): “matar Jesus significava, no inconsciente coletivo de então, assassinar […] o Selbst, interpretado como a imagem de Deus no homem”. Não há identificação ontológica entre Self e Deus — Joanna mantém “Jesus e Deus são independentes”.

2. Cristologia kardequista antitrinitária

Tese reafirmada com vigor especialmente nos caps. 4, 16, 17 e 32:

  • “A cristologia em que se fundamentava a Igreja antiga, e ainda permanece, apesar das atuais conquistas indiscutíveis da astrofísica, considerando Jesus-Deus — em total embriaguez conceptual que se opõe à realidade de Jesus-Homem, Filho e não Pai, não se diluindo no mistério da Santíssima Trindade, próprio ao pensamento mítico ancestral” (cap. 4).
  • “Jesus e Deus são independentes: um é Ser criado, e outro é o Criador. A ultrapassada ortodoxia teológica responsável pela composição do Filho-Pai, tornando-O Incausado, atropela a lógica e a ética mais elementares” (cap. 16).
  • Reafirmação da unicidade da reencarnação de Jesus na Terra: “Jesus-Homem, que nunca se reencarnara antes na Terra, apresenta-se-nos como o Ser integrado, que houvera adquirido conhecimento e amor, e viera experimentar provações e ultrajes, a fim de conseguir êxito na tarefa que Lhe fora confiada por Deus” (cap. 5). Alinhada com ESE cap. I, item 4.

A obra rejeita explicitamente a leitura sacrificial-redentora: Joanna afirma que Deus não “ofereceu o sangue do Seu filho para aplacar a própria fúria, desse modo salvando a Humanidade” (cap. 23) — o assassinato de Jesus foi “um crime hediondo” e não um deicídio cósmico (cap. 6).

3. Reencarnação como psicoterapia

O cap. 5 é o tratamento mais articulado do tema na Série Psicológica em chave evangélica. Comenta o diálogo de Jesus com Nicodemos (Jo 3:3) e fixa três aportes:

  1. O “nascer de novo” é literalmente reencarnação, não metáfora — “nenhuma paráfrase pode substituir o sentido profundo do nascer da carne, do nascer do Espírito”.
  2. Distinção operacional ressurreição da carne (retorno em corpo físico — reencarnação) vs. ressurreição dos mortos (retorno em corpo espiritual após desencarnação).
  3. Distúrbios psicóticos e neuróticos sediados no perispírito: “Muitos dos distúrbios psicóticos e neuróticos, superficiais ou profundos, estão sediados nas estruturas vibratórias das vivências transatas, quando houve delito ou tragédia, que se imprimiram nos painéis do inconsciente profundo — as tecelagens ultradelicadas do perispírito — e ficaram adormecidas nos refolhos do ser ou programaram a organização psicofísica com os fatores correspondentes à necessidade de terapia moral.”

A reencarnação é apresentada como “processo psicoterapêutico de amor divino”, articulando lei de causa e efeito e a clínica psicológica.

4. Pluralidade dos mundos habitados (cap. 4)

Comenta ESE III, item 3 (Jo 14:2 — “Há muitas moradas na casa de meu Pai”). A leitura é fiel à escala canônica do ESE III, item 4: existem mundos infernais (purgatoriais, com habitabilidade compatível com Espíritos calcetas), depois ascende-se a outros menos severos, até alcançar mundos felizes “onde não mais existem dores nem vazios existenciais”. A Terra é descrita como “escola de provas e de depurações” (variante de mundo de expiação e provas).

Universalismo religioso compatível com Kardec: Krishna, Buda, Lao-Tsé, Confúcio e Hermes Trismegisto são reconhecidos como “missionários do Bem e do Amor” cujas vidas “expressavam a grandiosa anterioridade de sua procedência” — denominados pelo próprio Jesus como “ovelhas que não pertencem a este rebanho”. Joanna mantém Jesus no topo da hierarquia espiritual da Terra, sem nivelar moralidades.

5. Aportes psicológicos específicos

  • Bem-aventuranças (cap. 6)“o canto das Bem-aventuranças é o poema de maior destaque na constelação dos discursos de Jesus”. Distingue duas desgraças: a dos infortúnios externos (que podem ser bênçãos formativas) e a “desgraça real” do autor de injustiças contra outrem.
  • Jesus-Terapeuta preventivo (cap. 7) — não basta curar a manifestação; é preciso erradicar a causa antes que a sombra produza ação malévola. “O médico é sacerdote do amor” — crítica à frieza esculápica.
  • Criança como modelo do Self (cap. 8) — a inocência infantil é “fantástica conquista do Self” que escapa às disputas do ego. Lê o episódio dos discípulos disputando a primazia (Mt 18) como “encontro do ego doentio com o libertador”.
  • Bom Samaritano em chave anima/animus (cap. 21) — articulação detalhada: hospedaria = anima maternal, hospedeiro = animus paternal, samaritano = consciência humanizada que reconhece o irmão. “Há uma harmonia psicológica tão profunda na parábola que encanta e concede-lhe caráter de integração num conteúdo perfeito.”
  • Avareza como instinto patriarcal (cap. 23) — relê Lc 12:20 desconstruindo o “patriarcado da consciência” projetado em Deus. Jesus “jamais veio para julgar e condenar”; nunca foi “dominado por representações inconscientes arquetípicas” porque seus arquétipos eram de procedência espiritual superior.
  • Tabor / transfiguração (cap. 26) — Moisés e Elias retornam “desvestidos de matéria” para confirmar o ministério de Jesus. Joanna lê o evento como revogação implícita da proibição mosaica de comunicação com o mundo espiritual (Lv 19:31; Dt 18:10-11): a interdição era pedagógica para o povo recém-saído da escravidão; agora, com Jesus, a mediunidade é reaberta como faculdade legítima.
  • Mediunidade como árvore-anima e fruto-animus (cap. 28)“A árvore, representando a anima da mediunidade, oferece o fruto, seu animus, em perfeita identidade. […] O profeta e as suas revelações, o animus e a anima da imagem elucidadora, compõem a unidade que, pela qualidade demonstrará se a sua é uma origem saudável.” Pela primeira vez na obra, Joanna nomeia explicitamente que neste capítulo a Psicologia Transpessoal toma o lugar da Psicologia Profunda.
  • Jesus-Psicoterapeuta (cap. 32) — capítulo-síntese do eixo terapêutico: “O Homem-Jesus, totalmente livre da sombra individual como da coletiva, […] penetrava com facilidade na problemática profunda do ser, direcionando-se às causas essenciais que modelam a existência terrena.”
  • Prece como ponte vibratória (cap. 35) — fechamento da obra. “A oração é emanação do pensamento bem-direcionado e rico de conteúdos vibratórios que se expande até sincronizar com as ondas equivalentes.” O ato de orar é “expressão de humildade perante a Vida e um despertar da consciência”.

Temas centrais

  1. Jesus-Psicoterapeuta como chave de leitura do Evangelho
  2. Sombra coletiva (cultura, patriarcado, religião dominadora) e sombra individual (lado escuro da personalidade)
  3. Self / Eu profundo vs. ego como dinâmica espiritual fundamental
  4. Anima/animus — Jesus como androginia psicológica e modelo de integração
  5. Arquétipos com raiz reencarnacionista (releitura espírita de Jung)
  6. Cristologia antitrinitária — Jesus-Homem, não Jesus-Deus
  7. Reencarnação como psicoterapia divina; psicogênese de distúrbios no perispírito
  8. Universalismo histórico compatível com hierarquia kardequiana
  9. Prece como ponte vibratória entre a criatura e o Criador

Conceitos tratados

Personalidades citadas

  • joanna-de-angelis — autora espiritual
  • divaldo-franco — médium psicógrafo
  • jesus — sujeito da obra
  • allan-kardec — Joanna se ancora explicitamente em Kardec; cita o “advento da Psicologia Espírita defluente da Doutrina codificada por Allan Kardec” (cap. 3)
  • carl-gustav-jung — fonte teórica não nomeada explicitamente, mas vocabulário central (sombra, Self, anima/animus, Selbst, arquétipos)

Personalidades históricas citadas (sem página na wiki)

  • Flávio Josefo (historiador judeu, séc. I) — referência histórica a Jesus em Antiguidades Judaicas
  • Tácito (historiador romano, séc. II) — Anais, sobre o incêndio de Roma
  • Plínio, o Jovem (séc. II) — carta a Trajano sobre os ritos cristãos
  • Krishna — citado como missionário do Bem (cap. 4); Bhagavad-Gita aludida no cap. 24 (luta contra os “kurus”)
  • Buda, Lao-Tsé, Confúcio, Hermes Trismegisto — anteriores moralistas reconhecidos por Joanna

Divergências

Nenhuma divergência estrutural com Kardec identificada. A obra opera no registro de aprofundamento psicológico sobre leitura kardequiana do Evangelho. Pontos sensíveis investigados:

  • Universalismo religioso (cap. 4): consistente com ESE Introdução, item III — Kardec já reconhece superioridade moral de Jesus sem negar antecessores morais.
  • “Selbst / imagem de Deus” (cap. 16): Joanna não identifica Deus com o ego ou com qualquer estrutura psíquica humana; afirma “Jesus e Deus são independentes”.
  • Ressurreição (cap. 5): explicitamente reencarnação, não retorno corporal milagroso — alinhada com LE q. 1010 e reencarnação.
  • “Filho-Pai” / Trindade (cap. 4 e 16): rejeição explícita — alinhada com Kardec.

Fontes

  • Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda. 5. ed. Salvador: LEAL — Livraria Espírita Alvorada Editora, 2014. 256 p. (Série Psicológica – Especial, vol. 11). ISBN 978-85-8266-055-3. 1ª ed.: 2000. Edição: jesus-e-o-evangelho-a-luz-da-psicologia-profunda-divaldo-p-franco-joanna-de-angelis.
  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. (Obra-base comentada por Joanna nesta volume — caps. I a XXVII.)
  • Bíblia. Mateus, Marcos, Lucas, João — versículos comentados nos epígrafes de cada capítulo.