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Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda
Dados bibliográficos
- Autor espiritual: Joanna de Ângelis
- Médium: Divaldo Pereira Franco
- Editora: Livraria Espírita Alvorada Editora (LEAL) — Salvador-BA
- Detentor dos direitos: Centro Espírita Caminho da Redenção (CECR)
- 1ª edição: 2000 · 5ª edição (consultada): 2014 · 256 p.
- Série Psicológica Especial — volume 11
- ISBN: 978-85-8266-055-3
- Assinatura da Autora espiritual: Salvador, 30 de junho de 2000
- Nível na hierarquia da wiki: 3 — Complementar consagrado
- Texto integral: jesus-e-o-evangelho-a-luz-da-psicologia-profunda-divaldo-p-franco-joanna-de-angelis
Estrutura
Volume comemorativo dos dois mil anos do nascimento de Jesus. Joanna de Ângelis comenta um item específico de cada um dos primeiros 27 capítulos do Evangelho Segundo o Espiritismo, totalizando 35 capítulos breves + prefácio. O método é declarado já no prefácio: “Firmada nas excelentes colocações expostas por Allan Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo, comenta um item de cada capítulo desse Livro extraordinário da Doutrina Espírita, conclamando o indivíduo à mudança de comportamento e de atitudes perante a vida.”
A novidade dentro da Série Psicológica de Joanna não é o eixo Jesus-psicoterapeuta — já consolidado em jesus-e-atualidade (1989) — mas a chave hermenêutica explicitamente junguiana: sombra coletiva e sombra individual, Self/Eu profundo vs. ego, anima/animus, arquétipos. Onde o-ser-consciente e o-despertar-do-espirito adotam o vocabulário da Quarta Força (Psicologia Transpessoal), aqui Joanna recua até a fonte junguiana e a aplica diretamente à leitura kardequiana do Evangelho.
Mapeamento ESE
| Cap. | Título | Item ESE | Versículo |
|---|---|---|---|
| 1 | Soberanas leis | I, item 3 | Mt 5:17 |
| 2 | O reino | II, item 2 | Jo 18:36 |
| 3 | Realeza | II, item 4 | Jo 18:37 |
| 4 | Diversidade de moradas | III, item 3 | Jo 14:2 |
| 5 | Renascimentos | IV, item 25 | Jo 3:3 |
| 6 | A desgraça real | V, item 24 | Mt 5:6 |
| 7 | O jugo leve | VI, item 7 | Mt 11:28 |
| 8 | O maior | VII, item 6 | Mt 18:4 |
| 9 | Escândalos | VIII, item 12 | Mt 18:7 |
| 10 | A paciência | IX, item 7 | — |
| 11 | Reconciliação | X, item 6 | — |
| 12 | Julgamentos | X, item 10 | — |
| 13 | Libertação pelo amor | XI, item 8 | — |
| 14 | O egoísmo | XI, item 11 | — |
| 15 | A vingança | XII, item 9 | — |
| 16 | O ódio | XII, item 10 | Lc 6:36 |
| 17 | Os infortúnios ocultos | XIII, item 4 | Mt 8:4 |
| 18 | A beneficência | XIII, item 11 | Mt 6:1 |
| 19 | A piedade | XIII, item 17 | Mc 12:44 |
| 20 | Amor filial | XIV, item 8 | Mt 19:19 |
| 21 | Luz da caridade | XV, item 10 | Lc 10:37 |
| 22 | Propriedade | XVI, item 7 | Lc 16:13 |
| 23 | A avareza | XVI, item 11 | Lc 12:20 |
| 24 | Perfeição | XVII, item 2 | Mt 5:48 |
| 25 | Convidados e aceitos | XVIII, item 2 | Mt 22:14 |
| 26 | Poder da fé | XIX, item 2 | Mt 17:20 |
| 27 | Últimos e primeiros | XX, item 2 | Mt 20:16 |
| 28 | Mediunidade | XXI, item 4 | Lc 6:43 |
| 29 | Matrimônio e amor | XXII, item 2 | Mt 19:5 |
| 30 | Espada e paz | XXIII, item 11 | Mt 10:34 |
| 31 | Cruzes | XXIII, item 12 | Lc 14:27 |
| 32 | Psicoterapeuta | XXIV, item 12 | Mt 9:12 |
| 33 | A busca | XXV, item 2 | Mt 7:7 |
| 34 | Gratuidade do bem | XXVI, item 7 | Mt 10:8 |
| 35 | Pedir e conseguir | XXVII, item 7 | Mc 11:24 |
Resumo por eixos
1. Aparelho conceitual junguiano sistematizado
A obra introduz, de forma articulada, a terminologia da Psicologia Profunda junguiana como instrumento de leitura do ESE. Os termos recorrem em quase todos os capítulos:
- Sombra coletiva — herança ancestral patriarcal, “sombra bíblica”, inconsciente coletivo da espécie e da cultura semita do I século. Aparece já no cap. 1 (“paixões da sombra, envolvente dos legisladores e seus tribunais”) e atravessa os caps. 8, 12, 14, 16, 23.
- Sombra individual / lado escuro da personalidade — instintos primários, ego autodefensor, “fixações do trânsito pelos instintos primários” (cap. 4). A “auto-iluminação” do cap. 5 é a diluição da sombra pelo amor.
- Self / Eu profundo / Si — núcleo divino latente, “deus interno que se encontra adormecido” (cap. 24). O ensinamento de Jesus é descrito como “evolução do Self, iluminando a sombra e vencendo-a” (cap. 1).
- Anima/Animus — Jesus como “Exemplo da perfeita identificação da anima com o animus” (prefácio). Releitura do Bom Samaritano (cap. 21) com a hospedaria como anima e o hospedeiro como animus; mesma grade aplicada à árvore-fruto da mediunidade (cap. 28).
- Arquétipos — relidos não só como inconsciente coletivo da espécie, mas com raiz reencarnacionista (“Os Seus arquétipos procediam de outras imagens ancestrais representativas de patamares vibratórios superiores”, cap. 23). Convergente com a discordância parcial nominal de Jung registrada em Vida: Desafios e Soluções cap. 7.
- Selbst — termo alemão usado uma única vez (cap. 16, sobre o ódio): “matar Jesus significava, no inconsciente coletivo de então, assassinar […] o Selbst, interpretado como a imagem de Deus no homem”. Não há identificação ontológica entre Self e Deus — Joanna mantém “Jesus e Deus são independentes”.
2. Cristologia kardequista antitrinitária
Tese reafirmada com vigor especialmente nos caps. 4, 16, 17 e 32:
- “A cristologia em que se fundamentava a Igreja antiga, e ainda permanece, apesar das atuais conquistas indiscutíveis da astrofísica, considerando Jesus-Deus — em total embriaguez conceptual que se opõe à realidade de Jesus-Homem, Filho e não Pai, não se diluindo no mistério da Santíssima Trindade, próprio ao pensamento mítico ancestral” (cap. 4).
- “Jesus e Deus são independentes: um é Ser criado, e outro é o Criador. A ultrapassada ortodoxia teológica responsável pela composição do Filho-Pai, tornando-O Incausado, atropela a lógica e a ética mais elementares” (cap. 16).
- Reafirmação da unicidade da reencarnação de Jesus na Terra: “Jesus-Homem, que nunca se reencarnara antes na Terra, apresenta-se-nos como o Ser integrado, que houvera adquirido conhecimento e amor, e viera experimentar provações e ultrajes, a fim de conseguir êxito na tarefa que Lhe fora confiada por Deus” (cap. 5). Alinhada com ESE cap. I, item 4.
A obra rejeita explicitamente a leitura sacrificial-redentora: Joanna afirma que Deus não “ofereceu o sangue do Seu filho para aplacar a própria fúria, desse modo salvando a Humanidade” (cap. 23) — o assassinato de Jesus foi “um crime hediondo” e não um deicídio cósmico (cap. 6).
3. Reencarnação como psicoterapia
O cap. 5 é o tratamento mais articulado do tema na Série Psicológica em chave evangélica. Comenta o diálogo de Jesus com Nicodemos (Jo 3:3) e fixa três aportes:
- O “nascer de novo” é literalmente reencarnação, não metáfora — “nenhuma paráfrase pode substituir o sentido profundo do nascer da carne, do nascer do Espírito”.
- Distinção operacional ressurreição da carne (retorno em corpo físico — reencarnação) vs. ressurreição dos mortos (retorno em corpo espiritual após desencarnação).
- Distúrbios psicóticos e neuróticos sediados no perispírito: “Muitos dos distúrbios psicóticos e neuróticos, superficiais ou profundos, estão sediados nas estruturas vibratórias das vivências transatas, quando houve delito ou tragédia, que se imprimiram nos painéis do inconsciente profundo — as tecelagens ultradelicadas do perispírito — e ficaram adormecidas nos refolhos do ser ou programaram a organização psicofísica com os fatores correspondentes à necessidade de terapia moral.”
A reencarnação é apresentada como “processo psicoterapêutico de amor divino”, articulando lei de causa e efeito e a clínica psicológica.
4. Pluralidade dos mundos habitados (cap. 4)
Comenta ESE III, item 3 (Jo 14:2 — “Há muitas moradas na casa de meu Pai”). A leitura é fiel à escala canônica do ESE III, item 4: existem mundos infernais (purgatoriais, com habitabilidade compatível com Espíritos calcetas), depois ascende-se a outros menos severos, até alcançar mundos felizes “onde não mais existem dores nem vazios existenciais”. A Terra é descrita como “escola de provas e de depurações” (variante de mundo de expiação e provas).
Universalismo religioso compatível com Kardec: Krishna, Buda, Lao-Tsé, Confúcio e Hermes Trismegisto são reconhecidos como “missionários do Bem e do Amor” cujas vidas “expressavam a grandiosa anterioridade de sua procedência” — denominados pelo próprio Jesus como “ovelhas que não pertencem a este rebanho”. Joanna mantém Jesus no topo da hierarquia espiritual da Terra, sem nivelar moralidades.
5. Aportes psicológicos específicos
- Bem-aventuranças (cap. 6) — “o canto das Bem-aventuranças é o poema de maior destaque na constelação dos discursos de Jesus”. Distingue duas desgraças: a dos infortúnios externos (que podem ser bênçãos formativas) e a “desgraça real” do autor de injustiças contra outrem.
- Jesus-Terapeuta preventivo (cap. 7) — não basta curar a manifestação; é preciso erradicar a causa antes que a sombra produza ação malévola. “O médico é sacerdote do amor” — crítica à frieza esculápica.
- Criança como modelo do Self (cap. 8) — a inocência infantil é “fantástica conquista do Self” que escapa às disputas do ego. Lê o episódio dos discípulos disputando a primazia (Mt 18) como “encontro do ego doentio com o libertador”.
- Bom Samaritano em chave anima/animus (cap. 21) — articulação detalhada: hospedaria = anima maternal, hospedeiro = animus paternal, samaritano = consciência humanizada que reconhece o irmão. “Há uma harmonia psicológica tão profunda na parábola que encanta e concede-lhe caráter de integração num conteúdo perfeito.”
- Avareza como instinto patriarcal (cap. 23) — relê Lc 12:20 desconstruindo o “patriarcado da consciência” projetado em Deus. Jesus “jamais veio para julgar e condenar”; nunca foi “dominado por representações inconscientes arquetípicas” porque seus arquétipos eram de procedência espiritual superior.
- Tabor / transfiguração (cap. 26) — Moisés e Elias retornam “desvestidos de matéria” para confirmar o ministério de Jesus. Joanna lê o evento como revogação implícita da proibição mosaica de comunicação com o mundo espiritual (Lv 19:31; Dt 18:10-11): a interdição era pedagógica para o povo recém-saído da escravidão; agora, com Jesus, a mediunidade é reaberta como faculdade legítima.
- Mediunidade como árvore-anima e fruto-animus (cap. 28) — “A árvore, representando a anima da mediunidade, oferece o fruto, seu animus, em perfeita identidade. […] O profeta e as suas revelações, o animus e a anima da imagem elucidadora, compõem a unidade que, pela qualidade demonstrará se a sua é uma origem saudável.” Pela primeira vez na obra, Joanna nomeia explicitamente que neste capítulo a Psicologia Transpessoal toma o lugar da Psicologia Profunda.
- Jesus-Psicoterapeuta (cap. 32) — capítulo-síntese do eixo terapêutico: “O Homem-Jesus, totalmente livre da sombra individual como da coletiva, […] penetrava com facilidade na problemática profunda do ser, direcionando-se às causas essenciais que modelam a existência terrena.”
- Prece como ponte vibratória (cap. 35) — fechamento da obra. “A oração é emanação do pensamento bem-direcionado e rico de conteúdos vibratórios que se expande até sincronizar com as ondas equivalentes.” O ato de orar é “expressão de humildade perante a Vida e um despertar da consciência”.
Temas centrais
- Jesus-Psicoterapeuta como chave de leitura do Evangelho
- Sombra coletiva (cultura, patriarcado, religião dominadora) e sombra individual (lado escuro da personalidade)
- Self / Eu profundo vs. ego como dinâmica espiritual fundamental
- Anima/animus — Jesus como androginia psicológica e modelo de integração
- Arquétipos com raiz reencarnacionista (releitura espírita de Jung)
- Cristologia antitrinitária — Jesus-Homem, não Jesus-Deus
- Reencarnação como psicoterapia divina; psicogênese de distúrbios no perispírito
- Universalismo histórico compatível com hierarquia kardequiana
- Prece como ponte vibratória entre a criatura e o Criador
Conceitos tratados
- jesus-psicoterapeuta — eixo articulador da obra
- psicologia-transpessoal — explicitamente referenciada no cap. 28
- autoconhecimento — “todo ser humano tem que realizar o seu trabalho de autoiluminação” (cap. 16)
- perispirito — sede dos painéis psíquicos das existências passadas (cap. 5)
- reencarnacao — reinterpretada como psicoterapia (cap. 5)
- lei-de-causa-e-efeito — fundamentação ética da reencarnação
- pluralidade-dos-mundos-habitados — cap. 4
- mundos-de-expiacao-e-provas — Terra como “escola de provas e de depurações”
- mundos-felizes — destinação final (cap. 4)
- mediunidade — caps. 26 e 28; Tabor como abertura legítima do intercâmbio
- prece — capítulo-síntese (cap. 35)
- bem-aventurancas — cap. 6
- caridade — cap. 21 (Luz da caridade)
- egoismo — caps. 14, 23, 25
- avareza — cap. 23
- depressao — referência em distúrbios psíquicos com raiz pretérita (cap. 5)
Personalidades citadas
- joanna-de-angelis — autora espiritual
- divaldo-franco — médium psicógrafo
- jesus — sujeito da obra
- allan-kardec — Joanna se ancora explicitamente em Kardec; cita o “advento da Psicologia Espírita defluente da Doutrina codificada por Allan Kardec” (cap. 3)
- carl-gustav-jung — fonte teórica não nomeada explicitamente, mas vocabulário central (sombra, Self, anima/animus, Selbst, arquétipos)
Personalidades históricas citadas (sem página na wiki)
- Flávio Josefo (historiador judeu, séc. I) — referência histórica a Jesus em Antiguidades Judaicas
- Tácito (historiador romano, séc. II) — Anais, sobre o incêndio de Roma
- Plínio, o Jovem (séc. II) — carta a Trajano sobre os ritos cristãos
- Krishna — citado como missionário do Bem (cap. 4); Bhagavad-Gita aludida no cap. 24 (luta contra os “kurus”)
- Buda, Lao-Tsé, Confúcio, Hermes Trismegisto — anteriores moralistas reconhecidos por Joanna
Divergências
Nenhuma divergência estrutural com Kardec identificada. A obra opera no registro de aprofundamento psicológico sobre leitura kardequiana do Evangelho. Pontos sensíveis investigados:
- Universalismo religioso (cap. 4): consistente com ESE Introdução, item III — Kardec já reconhece superioridade moral de Jesus sem negar antecessores morais.
- “Selbst / imagem de Deus” (cap. 16): Joanna não identifica Deus com o ego ou com qualquer estrutura psíquica humana; afirma “Jesus e Deus são independentes”.
- Ressurreição (cap. 5): explicitamente reencarnação, não retorno corporal milagroso — alinhada com LE q. 1010 e reencarnação.
- “Filho-Pai” / Trindade (cap. 4 e 16): rejeição explícita — alinhada com Kardec.
Fontes
- Joanna de Ângelis / Franco, Divaldo Pereira (psicografia). Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda. 5. ed. Salvador: LEAL — Livraria Espírita Alvorada Editora, 2014. 256 p. (Série Psicológica – Especial, vol. 11). ISBN 978-85-8266-055-3. 1ª ed.: 2000. Edição: jesus-e-o-evangelho-a-luz-da-psicologia-profunda-divaldo-p-franco-joanna-de-angelis.
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. (Obra-base comentada por Joanna nesta volume — caps. I a XXVII.)
- Bíblia. Mateus, Marcos, Lucas, João — versículos comentados nos epígrafes de cada capítulo.