Parábola do juiz iníquo
Definição
Parábola narrada em Lucas 18:1–8, também conhecida como parábola da viúva importuna. Uma viúva recorre insistentemente a um juiz que “nem a Deus temia, nem respeitava o homem” até obter justiça contra seu adversário. Jesus a propõe explicitamente “sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer” (Lc 18:1), concluindo por contraste: se até um juiz injusto cede à insistência, tanto mais Deus fará justiça aos que clamam a Ele.
Texto da parábola
“E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer, dizendo: Havia numa cidade um certo juiz, que nem a Deus temia, nem respeitava o homem. Havia também, naquela mesma cidade, uma certa viúva, que ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário. E por algum tempo não quis atendê-la; mas depois disse consigo: Ainda que não temo a Deus, nem respeito os homens, todavia, como esta viúva me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para que enfim não volte, e me importune muito. E disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz. E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles? Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” (S. Lucas, 18:1–8)
Ensino de Kardec
Kardec trata do tema no ESE, cap. XXVII (“Pedi e obtereis”), itens 1–10, e no cap. XXVIII (“Coletânea de preces espíritas”). A parábola é construída por contraste — raciocínio a fortiori: se até um magistrado injusto, movido apenas pelo incômodo, termina por fazer justiça à viúva, quanto mais Deus, que é soberanamente justo e bom, atenderá o clamor perseverante dos seus filhos (ESE, cap. XXVII, itens 1–2).
O ponto decisivo, porém, é que a perseverança na prece não é pressão sobre Deus, nem recurso mágico para dobrar-lhe a vontade. Como Kardec formula de modo lapidar: “pedir não é mudar a vontade de Deus, mas dispor a nossa” (ESE, cap. XXVII, item 7). A oração repetida não altera os desígnios divinos; altera o orante. É meio de educação moral: purifica a intenção, depura o desejo, fortalece a resignação ativa e prepara o Espírito para receber o que pede — ou para aceitar que o que pede não lhe convém.
Assim, a viúva da parábola é figura do orante perseverante, não do importuno. A demora aparente de Deus, “ainda que tardio para com eles” (Lc 18:7), é pedagógica: o tempo entre o pedido e a resposta é o tempo em que o Espírito amadurece para merecer e compreender o bem que solicita (ESE, cap. XXVII, itens 6, 8–9).
A pergunta final de Jesus — “quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” (Lc 18:8) — liga a perseverança na prece à fé viva, aquela que, segundo Kardec, “transporta montanhas” não por milagre, mas por dispor o Espírito à ação reta e confiante (ESE, cap. XIX).
Aplicação prática
- Orar sempre, sem desfalecer. A prece não é ato pontual de emergência, mas hábito de elevação. O desânimo diante da aparente ausência de resposta revela que se orava para obter, não para transformar-se.
- Exame da intenção. Antes de repetir um pedido, o orante kardecista pergunta-se: o que peço é justo? é útil? é compatível com a vontade de Deus e com meu progresso? A repetição serve para depurar o pedido, não para insistir em caprichos.
- Disposição da própria vontade. A prece perseverante é escola de submissão ativa: aprende-se a querer o que Deus quer, e não a exigir que Deus queira o que quero.
- Fé na justiça divina. A parábola consola o injustiçado: o atraso não é descuido. Mas também adverte — é preciso ser “escolhido”, isto é, viver em conformidade com o Evangelho, para clamar com autoridade moral.
Páginas relacionadas
- prece
- fe
- parabola-do-fariseu-e-do-publicano
- evangelho-segundo-o-espiritismo — caps. XXVII–XXVIII
- evangelho-segundo-lucas — cap. 18
Fontes
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, caps. XXVII (“Pedi e obtereis”), itens 1–10, e XXVIII (“Coletânea de preces espíritas”). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
- Bíblia Sagrada (ACF). S. Lucas, 18:1–8.