Bem-aventurança dos puros de coração
Definição
Sexta bem-aventurança do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que têm puro o coração, porquanto verão a Deus” (S. Mateus, 5:8). Kardec dedica-lhe o capítulo VIII do ESE. A “pureza” evangélica não é ritual nem cerimonial, mas pureza da intenção — coração que não pensa no mal, não se compraz no mal, não abriga rancor nem mau desejo, ainda que não passe à ação.
Ensino de Kardec
Pureza ligada à simplicidade e à humildade
“A pureza do coração é inseparável da simplicidade e da humildade. Exclui toda ideia de egoísmo e de orgulho” (ESE, cap. VIII, item 3). Por isso Jesus toma a criança como emblema: “Deixai que venham a mim as criancinhas e não as impeçais, porquanto o reino dos céus é para os que se lhes assemelham” (S. Marcos, 10:14–15; ESE, cap. VIII, item 2).
Kardec antecipa a objeção espírita: sendo o Espírito da criança antigo, traz imperfeições de existências anteriores — então em que sentido serve de modelo? “É exata a comparação, porém, do ponto de vista da vida presente, porquanto a criancinha, não havendo podido ainda manifestar nenhuma tendência perversa, nos apresenta a imagem da inocência e da candura. Daí o não dizer Jesus, de modo absoluto, que o reino dos céus é para elas, mas para os que se lhes assemelhem” (ESE, cap. VIII, item 3).
Por que a criança oferece esse símbolo
“Pois que o Espírito da criança já viveu, por que não se mostra, desde o nascimento, tal qual é?” (ESE, cap. VIII, item 4). A resposta espírita: ao encarnar, o Espírito entra em perturbação e suas faculdades ficam em estado latente; “é necessário esse estado de transição para que o Espírito tenha um novo ponto de partida e para que esqueça, em sua nova existência, tudo aquilo que a possa entravar” (ibid.). “No curso dos primeiros anos, o Espírito é verdadeiramente criança (…); ele é mais maleável e, por isso mesmo, mais acessível às impressões capazes de lhe modificarem a natureza” (ibid.). Por esse motivo, “Jesus está com a verdade, quando (…) toma a criança por símbolo da pureza e da simplicidade.”
Pureza está no pensamento, não só no ato
“Aprendestes que foi dito aos antigos: ‘Não cometereis adultério. Eu, porém, vos digo que aquele que houver olhado uma mulher, com mau desejo para com ela, já em seu coração cometeu adultério com ela’” (S. Mateus, 5:27–28; ESE, cap. VIII, item 5). Kardec esclarece: “A palavra adultério não deve absolutamente ser entendida aqui no sentido exclusivo da acepção que lhe é própria, porém, num sentido mais geral. (…) A verdadeira pureza não está somente nos atos; está também no pensamento, porquanto aquele que tem puro o coração, nem sequer pensa no mal” (ESE, cap. VIII, item 6).
As três gradações do pensamento
“Em resumo, naquele que nem sequer concebe a ideia do mal, já há progresso realizado; naquele a quem essa ideia acode, mas que a repele, há progresso em vias de realizar-se; naquele, finalmente, que pensa no mal e nesse pensamento se compraz, o mal ainda existe na plenitude da sua força” (ESE, cap. VIII, item 7). Deus julga as três condições diferentemente, mas só a primeira merece o nome de pureza.
Mãos não lavadas: pureza ritual não basta
Jesus demole a pureza cerimonial contra os fariseus: “Não é o que entra na boca que macula o homem; o que sai da boca do homem é que o macula. (…) porquanto do coração é que partem os maus pensamentos, os assassínios, os adultérios (…). Essas são as coisas que tornam impuro o homem; o comer sem haver lavado as mãos não é o que o torna impuro” (S. Mateus, 15:11, 17–20; ESE, cap. VIII, itens 8–10).
Kardec conclui: “A substância, muito simples, acabara por desaparecer debaixo da complicação da forma. Como fosse muito mais fácil praticar atos exteriores do que reformar-se intimamente, os homens se iludiam com a aparência” (ESE, cap. VIII, item 10).
”Verão a Deus”
Ver a Deus não é, evidentemente, visão corporal; é compreender as coisas divinas. O Espírito puro percebe a ordem divina nas coisas, reconhece a mão da Providência, acolhe a revelação. O impuro, ao contrário, tem a visão obstruída pelo orgulho e pelo egoísmo — “o orgulho é a catarata que lhe tolda a visão” (ESE, cap. VII, item 10). A bem-aventurança descreve, portanto, a condição que permite o conhecimento espiritual autêntico.
Desdobramentos
Responsabilidade pelos pensamentos
A bem-aventurança é o fundamento da regra que Kardec repete no ESE: “sois responsáveis pelos vossos pensamentos, os quais todos Deus conhece” (cap. X, item 14). A pureza não exige ausência de tentação — “naquele a quem essa ideia acode, mas que a repele, há progresso em vias de realizar-se” —, mas exige recusa ativa do deleite mental no mal.
Relação direta com a mediunidade
A pureza de coração é pré-requisito para mediunidade saudável. “Os Espíritos atraídos pelos médiuns são, em geral, da mesma natureza moral deles” (LM, 2ª parte, cap. XIX, item 226). Coração impuro atrai comunicações impuras; pureza moral é a melhor proteção contra as obsessões. Cap. VIII do ESE é, por isso, leitura obrigatória em evangelhos-no-lar e reuniões mediúnicas.
Pureza adulta e pureza infantil
A criança é emblema da pureza porque ainda não manifestou o mal; o adulto é responsável por construir a pureza, renunciando às inclinações imperfeitas. A bem-aventurança não exige regressão à ingenuidade — exige inocência reconquistada, que Kardec chama em outro ponto de “caridade modesta, simples e indulgente” (ESE, cap. X, item 10).
Aplicação prática
A bem-aventurança interdita o discurso duplo — ser correto no ato e maldoso no pensamento. Aplicar exige exame diário: há mau desejo que alimento em silêncio? há inveja que nutro vendo a alegria alheia? há vingança que ensaio mentalmente? A “pureza” pedida não é a do puritano que se imagina melhor que os outros; é a do humilde que vigia o próprio coração e, ao flagrar o mau pensamento, o repele sem compraz-se nele. No lar, nas reuniões, na internet: pureza começa onde ninguém vê.
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Fontes
- Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. VIII (“Bem-aventurados os que têm coração puro”), itens 1–20.
- Novo Testamento. S. Mateus 5:8, 27–28; 15:1–20; S. Marcos 10:13–16; S. Lucas 11:37–40.