Dr. Morhéry

Identificação

  • Nome: Dr. Morhéry (prenome não especificado por Kardec na Revista)
  • Profissão: doutor em medicina diplomado
  • Residência: Plessis-Bloudet, perto de Loudéac (Côtes-du-Nord, Bretanha, França)
  • Vínculo institucional: membro correspondente da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas em 1860
  • Posição doutrinária prévia: sua tese inaugural de medicina foi escrita em momento em que “a Medicina havia caído no mais profundo materialismo. Era um protesto contra essa corrente que nos arrastou para a Medicina orgânica e a farmacologia mineral, de que tanto se abusou” — autor já predisposto ao espiritualismo metodológico antes do Espiritismo

Papel

Médico que controlou clinicamente a mediunidade de cura de Désirée Godu em sua casa em Plessis-Bloudet, entre 25/02 e ~20/03/1860, fichando em método científico 152 casos de doenças diversas — panarícios, oftalmias graves, paralisias antigas, escrofulose, dartrose, cataratas, cânceres terminais.

O caso é registrado em duas cartas suas publicadas em revista-espirita-1860 (abr/1860, “Cartas do Dr. Morhéry sobre a Srta. Désirée Godu”), com novas notícias em out/1860 e nov/1860.

A função doutrinária é tripla:

  1. Modelo de espírita médico que mantém o método científico. Morhéry recebe Désirée Godu “sem conhecê-la e sem jamais tê-la visto”, instala sala de observação clínica, ficha cada caso, distingue cura de melhora subjetiva, recusa-se a antecipar conclusões. “Como vos disse, nada quero prejulgar, nada afirmar, salvo os resultados constatados pela experiência.” Modelo da convergência entre observação médica e fenomenologia espírita.

  2. Modelo da deferência humilde do médico ao fenômeno mediúnico. “Não sou homem que deixe ao esquecimento certos meios empregados, que hoje desprezamos. […] Voltarei ao assunto e vos porei ao corrente desta curiosa experiência. Ligo a isto a maior importância. Se ela triunfar, será uma brilhante manifestação contra a qual será impossível lutar, porque nada detém os que sofrem e querem curar-se. Estou decidido a tudo enfrentar com esse objetivo, inclusive o ridículo que tanto se teme na França.” Modelo do médico que coloca o serviço aos doentes acima do amor-próprio profissional.

  3. Defesa do princípio aberto da Ciência. “A Faculdade constata os fatos, agrupa-os e classifica-os, para formar a preciosa base do ensino, mas não os produz exclusivamente. […] Não foi a Faculdade que descobriu a vacina, mas simples pastores; não foi a Faculdade que descobriu a casca do Peru, mas os índios daquele país.” — argumento programático da humildade epistêmica que Kardec elogia.

Citações relevantes

Sobre o método de observação:

“Desde 25 de fevereiro, comecei minhas observações com grande número de doentes, quase todos indigentes e impossibilitados de se tratarem adequadamente. […] Fichei, desde 25 de fevereiro, 152 casos de moléstias muito diversas. […] Mais tarde farei o balanço de minhas observações e relatarei as mais notáveis.” (carta de 20/03/1860, RE abr/1860)

Sobre a abertura ao novo:

“Sei que alguns confrades trocistas poderão rir-se da esperança que me anima. Mas que me importa, se a esperança se realizar! […] À outros, que a julgam instrumento do diabo, responderei firmemente: se o demônio vem à Terra curar os incuráveis, abandonados e indigentes, deve-se concluir que, enfim, o demônio se converteu e tem direito aos nossos agradecimentos.” (carta inicial, RE abr/1860)

Sobre uma cura observada (cura de cancro do lábio):

“A cura me parecia impossível e o declarei francamente à senhorita Godu, a fim de premuni-la contra uma derrota inevitável. Minha opinião não mudou quanto ao prognóstico. Ainda não posso crer na cura de um câncer tão adiantado. Contudo, devo declarar que, desde o primeiro curativo, o doente experimenta um alívio e desde aquele dia, 25 de fevereiro, dorme bem e se alimenta; voltou-lhe a confiança; a chaga mudou de aspecto de modo visível e se isto continuar, a despeito da minha opinião formal, serei obrigado a esperar uma cura.” (carta de 20/03/1860, RE abr/1860)

Comentário de Kardec sobre Morhéry:

“O Sr. Morhéry não se deixa tomar pelo entusiasmo. Ele observa as coisas friamente, como homem esclarecido e sem ilusões. Demonstra inteira boa-fé, pondo de lado o amor próprio do médico. Não teme confessar que a Natureza pode prescindir dele, inspirando a uma jovem sem instrução, meios de curar que não encontrou nem nos ensinos da Faculdade nem em seu próprio cérebro, e nem por isso se julga humilhado. […] O Sr. Morhéry, esclarecido sobre os dois pontos essenciais — o Espiritismo como fonte e a Medicina comum como controle — pondo de lado o amor próprio e qualquer sentimento pessoal, está na melhor posição para julgar imparcialmente.” (RE, abr/1860, observação)

Obras associadas

Sua tese inaugural de medicina (mencionada nas cartas mas não citada em detalhe por Kardec) — protesto contra o materialismo médico do começo do séc. XIX — não é tratada doutrinariamente.

Páginas relacionadas

Fontes

  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, abr/1860 (“Cartas do Dr. Morhéry sobre a Srta. Désirée Godu”) e demais notícias em out e nov/1860. Edição local: 1860.