Désirée Godu

Identificação

  • Nome: Désirée Godu (n. ~1835)
  • Origem: Lorient, depois Hennebon (Morbihan, Bretanha, França)
  • Família: filha de antigo militar, cavaleiro da Legião de Honra; mãe colaboradora do trabalho mediúnico; família “patriarcal”
  • Idade em 1860: 25 anos
  • Mediunidade: passou sucessivamente por todas as fases — médium de efeitos físicos (mesas), vidente, auditiva, falante, escrevente; finalmente concentrou todas as faculdades na cura de doentes desde ~1854

Papel

Médium curadora de notoriedade pública na Bretanha em 1860. Caso paradigmático da mediunidade-de-cura na codificação espírita: faculdade exercida desinteressadamente, com controle clínico independente, sem cobrança ou exploração.

A Revista Espírita dedica-lhe três artigos sucessivos em revista-espirita-1860:

  1. “Médiuns especiais” (RE, fev/1860) — primeira menção, dentro do ensaio doutrinário sobre as variedades da mediunidade.
  2. “Um médium curador” (RE, mar/1860) — dossiê detalhado a partir de carta do Sr. Pierre, professor em Lorient.
  3. “Cartas do Dr. Morhéry sobre a Srta. Désirée Godu” (RE, abr/1860) — relatório clínico do Dr. Morhéry, membro correspondente da SPEE, que a recebeu em sua casa em Plessis-Bloudet (Côtes-du-Nord) e fichou 152 casos entre 25/02 e 20/03/1860.

A função doutrinária é tripla:

  1. Modelo de mediunidade desinteressada. A família Godu “dá esmolas de remédios receitados e, muitas vezes, tudo quanto necessário para curativos, tanto aos ricos quanto aos pobres que a procuram”. Caso oposto ao da mercantilização denunciada em RE mar/1859.

  2. Modelo de controle clínico independente. O Dr. Morhéry — médico diplomado, antes cético, depois espírita — fichou os casos com método: 152 observações, das quais panarícios, oftalmias graves, paralisias antigas, escrofulose, dartrose, cataratas, cânceres terminais. Confessa que “não sou homem que deixe ao esquecimento certos meios empregados, que hoje desprezamos”. Foram constatadas curas notáveis (3 febres intermitentes rebeldes, 3 panarícios e 2 inflamações subaponevróticas em poucos dias, surdez de 18 anos curada em 3 dias).

  3. Caso de instrução mediúnica espontânea. Sem instrução escolar formal além do elementar, Désirée Godu foi instruída pelo Espírito orientador em anatomia, propriedades das plantas e eletricidade através de visões de “livros, gravuras ou desenhos” — método que precede sua atuação curadora. “Ela não é sonâmbula. Ninguém a adormece. É desperta, e bem desperta, que ela penetra os doentes com seu olhar.”

Citações relevantes

Sobre a faculdade:

“O Espírito que a guia lhe propôs a [missão] de curar toda sorte de moléstias, o que ela aceitou. Para se comunicar, ele agora se serve de seus órgãos, e muitas vezes contra a vontade dela, em vez das batidas nas mesas. Quando é o Espírito que fala, o timbre da voz já não é o mesmo, e os seus lábios não se movem.” (RE, fev/1860, “Um médium curador”, relato do Sr. Pierre)

Sobre a abnegação:

“Para ela, trabalhar é orar, e o faz com consciência. Antes de ter que tratar de doentes, passava o dia inteiro costurando roupas para os pobres e enxovais para os recém-nascidos, empregando os mais engenhosos meios para que os presentes chegassem ao destino anonimamente, de sorte que a mão esquerda sempre ignorasse o que dava a direita.” (RE, fev/1860)

Observação programática de Kardec sobre o orgulho como escolho dos médiuns curadores:

“O orgulho é o escolho de grande número de médiuns e vimos muitos cujas faculdades transcendentes se aniquilaram ou perverteram, desde que deram ouvidos a esse demônio tentador. As melhores intenções não impedem seus embustes, e é precisamente contra os bons que ele dirige suas baterias. […] Aquele que a Providência destina a ser posto em evidência o será pela força das coisas, e os Espíritos bem saberão tirá-lo da obscuridade, caso isto seja útil, ao passo que frequentemente só haverá decepções para aquele que é atormentado pela necessidade de fazer com que falem de si.” (RE, mar/1860, observação à carta do Sr. Pierre)

Relato clínico de Morhéry:

“Vi curar sem quinino três febres intermitentes, rebeldes, das quais uma tinha resistido a todos os meios por mim empregados. A senhorita Godu curou igualmente três panarícios e duas inflamações subaponevróticas da mão, em poucos dias. Fiquei realmente surpreendido.” (Dr. Morhéry, carta de 20/03/1860, RE abr/1860)

Obras associadas

Páginas relacionadas

Fontes

  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, fev/1860 (“Médiuns especiais”), mar/1860 (“Um médium curador”), abr/1860 (“Cartas do Dr. Morhéry sobre a Srta. Désirée Godu”). Edição local: 1860.