Verdadeiro espírita

Definição

Aquele que não apenas crê nos fatos espíritas, mas aceita para si todas as consequências morais da Doutrina e se esforça por praticá-las. O verdadeiro espírita é sinônimo de espírita cristão: une a crença à reforma íntima.

Ensino de Kardec

As três categorias de espíritas

Na Viagem Espírita em 1862, Kardec distingue três categorias bem definidas:

“1ª) Os que creem pura e simplesmente nos fenômenos das manifestações, mas que não lhes deduzem nenhuma consequência moral; 2ª) Os que veem o lado moral, mas o aplicam aos outros e não a si próprios; 3ª) Os que aceitam para si mesmos todas as consequências da Doutrina, e que praticam ou se esforçam por praticar a sua moral. Estes, vós bem o sabeis, são os verdadeiros espíritas, os espíritas cristãos.” [[obras/viagem-espirita-em-1862|(Kardec, Viagem Espírita em 1862, Discurso I)]]

A moral do verdadeiro espírita

Kardec sintetiza os deveres práticos:

“Amai-vos uns aos outros; perdoai aos vossos inimigos; retribuí o mal com o bem; não tenhais ódio, nem rancor, nem animosidade, nem inveja, nem ciúme; sede severos para convosco mesmos e indulgentes para com os outros.” [[obras/viagem-espirita-em-1862|(Kardec, Viagem Espírita em 1862, Discurso I)]]

O verdadeiro espírita “pode ter inimigos, mas não é inimigo de ninguém” — não deseja o mal a ninguém e, com mais forte razão, não procura fazê-lo.

Divisa dupla

Kardec propõe inscrever na bandeira espírita:

  • “Fora da caridade não há salvação” — a finalidade do Espiritismo
  • “Fora da caridade não há verdadeiros espíritas” — o dever que impõe

Eco no Evangelho Segundo o Espiritismo

O cap. XVII do ESE — “Sede perfeitos” — apresenta o célebre retrato do homem de bem (ESE, cap. XVII, item 3), que é a concretização do verdadeiro espírita: pratica a lei de justiça, de amor e de caridade na sua maior pureza; interroga a consciência sobre seus atos; faz aos outros o que quereria para si.

A perfeicao-moral (LE, q. 893–919) ensina que a virtude mais meritória é a caridade mais desinteressada — exatamente o que distingue o espírita da terceira categoria.

Desdobramentos

A distinção entre as três categorias explica “anomalias aparentes” no movimento espírita: espíritas que creem mas não praticam, ou que pregam a moral sem aplicá-la a si. Kardec observa que os espíritas da “primeira formação” (época dos fenômenos) são os que mais frequentemente ficaram na primeira ou segunda categoria. Os que se formaram depois, atraídos pela filosofia e pela moral, já constituem a maioria dos praticantes.

Aplicação prática

O autoexame constante é o caminho: “Fiz o bem que podia? Sacrifiquei algum interesse em favor do próximo?” (LE, Conclusão, item III). A caridade não é só esmola — é indulgência, perdão, benevolência em todas as relações. Quem se diz espírita sem praticar a caridade “dá de si mesmo o mais formal desmentido” (ESE, cap. XV, item 10).

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Fontes

  • Kardec, Allan. Viagem Espírita em 1862. Discurso I — “Questões pessoais e adversários”.
  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. XV (“Fora da caridade não há salvação”) e Cap. XVII (“Sede perfeitos”). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte 3, cap. XII, q. 893–919; Conclusão, item III. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.