Proibição de evocar os mortos

Análise detalhada de Kardec sobre o argumento eclesiástico de que a lei de Moisés proíbe as comunicações com os Espíritos, demonstrando que tal proibição não se aplica ao Espiritismo e que o Evangelho de Jesus jamais a ratificou.

Ensino de Kardec

A Igreja admite a realidade das manifestações espirituais, porém as atribui exclusivamente à intervenção dos demônios. Os opositores das comunicações mediúnicas recorrem sobretudo à lei mosaica como argumento supremo. Kardec transcreve as passagens invocadas — do Levítico (cap. XIX, v. 31; cap. XX, v. 27) e do Deuteronômio (cap. XVIII, vv. 9-12) — e as submete a exame crítico (C&I, 1ª parte, cap. XI, itens 1-2).

A incoerência da invocação seletiva da lei mosaica

Kardec observa que, se a lei de Moisés deve ser rigorosamente observada no tocante às evocações, deveria sê-lo igualmente em tudo o mais:

“Se a lei de Moisés deve ser rigorosamente observada sobre este ponto, ela o deve ser sobre todos os outros, pois por que ela seria boa no que se refere às evocações, e má em outras partes?” (C&I, 1ª parte, cap. XI, item 3)

Kardec cita exemplos que evidenciam o absurdo de aplicar literalmente a legislação mosaica à época moderna, como o artigo que manda lapidar o boi que mata alguém e proíbe comer-lhe a carne (Êxodo, cap. XXI, v. 28), e a proibição de os sacerdotes possuírem bens (Deuteronômio, cap. XXVIII, vv. 1-2) — norma que a própria Igreja não observa (C&I, 1ª parte, cap. XI, item 4).

Contexto histórico: práticas egípcias e adivinhação

A proibição tinha razão de ser no contexto particular dos hebreus. Moisés queria romper com os costumes trazidos do Egito, onde as evocações eram habituais e objeto de abuso. Tratava-se de um meio de adivinhação, associado à magia, à bruxaria e até a sacrifícios humanos — não de comunicações com finalidade moral e consoladora (C&I, 1ª parte, cap. XI, itens 3-4).

“Naquele tempo, as evocações tinham por finalidade a adivinhação, e que se fazia comércio delas; estavam associadas às práticas da magia e da bruxaria, e mesmo acompanhadas de sacrifícios humanos. Moisés tinha portanto razão de proibir essas coisas.” (C&I, 1ª parte, cap. XI, item 4)

Lei de Deus vs. lei civil de Moisés

Kardec distingue duas partes na legislação mosaica: a lei de Deus, promulgada no Sinai (invariável), e a lei civil ou disciplinar, adaptada aos costumes e ao caráter do povo (modificável conforme os tempos). A proibição das evocações pertence à segunda categoria (C&I, 1ª parte, cap. XI, item 5).

O silêncio do Evangelho

Jesus modificou a lei mosaica em diversos pontos, mas jamais mencionou a proibição de evocar os mortos — omissão significativa, pois tratou de questões bem menos relevantes. Kardec conclui:

“Não veio Jesus modificar a lei mosaica? […] Ora, ele não fala em nenhum lugar da proibição de evocar os mortos. Era porém uma questão bastante grave, para que ele a tivesse omitido em suas instruções, enquanto tratou de outras mais secundárias.” (C&I, 1ª parte, cap. XI, item 6)

Contradição interna do argumento eclesiástico

Se Moisés proibiu evocar os Espíritos dos mortos, é porque eles podem vir — do contrário a proibição seria inútil. E se podem vir, não são exclusivamente demônios, como pretende a Igreja (C&I, 1ª parte, cap. XI, item 8).

Além disso, se as almas bem-aventuradas não pudessem deixar o céu para socorrer os mortais, por que a Igreja invoca os santos e a Virgem Maria, pedindo sua assistência? Se os santos podem vir, por que os demais Espíritos não poderiam? (C&I, 1ª parte, cap. XI, item 12)

Espiritismo não é necromancia

Kardec ressalta a diferença fundamental entre a evocação espírita e as práticas condenadas por Moisés. Os espíritas não interrogam os mortos para adivinhar o futuro, não fazem comércio da faculdade mediúnica, não praticam sacrifícios nem sortilégios. A motivação é piedosa: instruir-se, aperfeiçoar-se e aliviar as almas sofredoras (C&I, 1ª parte, cap. XI, item 4).

“Os espíritas não ‘sacrificam as criancinhas e não espalham licores para venerar os deuses,’ não interrogam nem os astros, nem os mortos, nem os augúrios para conhecer o futuro […]; não são movidos nem pela curiosidade, nem pela cupidez, mas por um sentimento piedoso e unicamente pelo desejo de se instruir, de se aperfeiçoar e de aliviar as almas sofredoras.” (C&I, 1ª parte, cap. XI, item 4)

O verdadeiro motivo do temor

Kardec sugere que a insistência em proibir as comunicações espirituais revela o temor de que os Espíritos “viessem esclarecer os homens sobre os pontos que se faz questão de deixar na sombra” (C&I, 1ª parte, cap. XI, item 14). E conclui:

“O culto que estiver na verdade absoluta não terá nada a temer da luz, pois a luz fará sobressair a verdade, e o demônio não poderia prevalecer contra a verdade.” (C&I, 1ª parte, cap. XI, item 14)

Aplicação prática

Este capítulo é indispensável para quem prepara palestras sobre mediunidade e enfrenta objeções de base bíblica. A argumentação de Kardec é metódica e pode ser apresentada ponto a ponto: (1) a lei mosaica não rege o Cristianismo; (2) o Evangelho silencia sobre a proibição; (3) o contexto histórico explica a interdição de Moisés; (4) o Espiritismo condena exatamente o que Moisés proibia — charlatanismo, adivinhação e exploração.

Para o estudo individual, o capítulo convida à reflexão sobre a coerência intelectual: não se pode invocar seletivamente a autoridade de Moisés, aceitando o que convém e descartando o resto. A liberdade dos Espíritos de virem comunicar-se, quando e se lhes convém, é uma garantia de que a evocação respeitosa não perturba ninguém — ao contrário, é fonte de instrução e consolo tanto para encarnados quanto para desencarnados.

Na Viagem Espírita em 1862

Na Instrução VIII, Kardec retoma o tema com os mesmos argumentos de O Céu e o Inferno, reforçando dois pontos: (1) a proibição de Moisés implica que é possível evocar os mortos — “seria necessário fazer-se uma lei proibindo a subida à Lua?”; (2) Moisés proibiu por razões práticas — os hebreus traziam do Egito práticas abusivas e supersticiosas que precisavam ser erradicadas. “Hoje, as coisas não são mais as mesmas, e o que podia ser outrora um inconveniente já não o é no estado atual da sociedade.”

Ver viagem-espirita-em-1862.

Páginas relacionadas

Fontes

  • Kardec, Allan. O Céu e o Inferno. 1ª parte, cap. XI — “Da proibição de evocar os mortos”. FEB.