Emmanuel Swedenborg

Identificação

  • Nome: Emanuel Swedenborg (1688–1772), nascido Emanuel Swedberg, enobrecido pela rainha Ulrica em 1719
  • Origem: Estocolmo, Suécia. Filho de Jesper Swedberg, bispo de Skara
  • Carreira: cientista e funcionário público — destacou-se em Mecânica, Física e Metalurgia. Assessor da Escola de Metalurgia de Estocolmo (nomeação de Carlos XII, 1716). Participou da Dieta sueca em 1761
  • Ruptura mística: em 1743, aos 55 anos, teve em Londres a primeira “revelação” — uma visão de Cristo que, segundo seu relato, o consagrou a explicar “aos homens o sentido interior e espiritual da Sagrada Escritura”. Pediu demissão e dedicou o restante da vida (29 anos) ao apostolado da Nova Jerusalém
  • Obras principais: Arcana Coelestia (8 volumes), De Caelo et Inferno (1758), Vera Christiana Religio (1771)
  • Repercussão: após a morte, surgiram igrejas swedenborgianas (a New Church) e a doutrina influenciou martinistas, teósofos e parte do romantismo alemão e francês

Papel

Espírito médium vidente e escritor intuitivo precursor, com obra de doutrina parcial — reconhecido por Kardec como uma das grandes figuras cuja lembrança fica ligada à pré-história do Espiritismo, apesar dos erros do seu sistema. Tratado em duas peças sucessivas em novembro de 1859 da Revista Espírita:

  1. “Swedenborg” — notícia biográfica (compilada pela Sra. P… e revisada por Kardec) e crítica doutrinária.
  2. “Comunicação de Swedenborg prometida na sessão de 16 de setembro” — evocação na qual o próprio Swedenborg retrata seus principais erros.

A função doutrinária é tripla:

  1. Diagnóstico mediúnico retroativo — Kardec recusa as duas leituras polarizadas (santo taumaturgo / charlatão visionário) e enquadra Swedenborg na categoria objetiva da mediunidade: foi médium vidente e escritor intuitivo, faculdade natural, sem milagre nem fraude.
  2. Lição metodológica sobre controle das comunicações — Swedenborg cometeu o erro modelar de aceitar cegamente o Espírito que se identificou como “Deus, o Senhor, Criador e Redentor”. O caso é citado para advertir os médiuns contra a fascinação por nomes elevados.
  3. Reabertura por arrependimento — o próprio Swedenborg, evocado, retrata seus principais erros doutrinários (penas eternas, três céus / três infernos, doutrina das correspondências). Modelo de Espírito que, depois de morto, revisa publicamente seu próprio sistema — caso paralelo ao de voltaire no mesmo ano.

Críticas de Kardec à doutrina swedenborguiana

1. Doutrina das correspondências

Swedenborg sustentava que o mundo espiritual e o mundo natural são unidos por correspondências: a Terra corresponde ao homem; alimentos sólidos a “bens”, líquidos a “verdades”; o ouro corresponde ao bem celeste; a prata, à verdade espiritual; o bronze, ao bem natural; árvores e arbustos a tipos de conhecimento; etc.

Kardec considera o sistema arbitrário e desnecessário, e o próprio Swedenborg evocado o repudia em palavra:

”— O fundamento da vossa doutrina repousa sobre as correspondências. Ainda acreditais nessas relações que descobríeis entre cada coisa do mundo material e cada coisa do mundo moral?
— Não. É uma ficção.”
(RE, nov/1859)

2. Penas eternas e três céus / três infernos

Doutrina central da Igreja da Nova Jerusalém: o destino post-mortem é fixo e definitivo, distribuído em três céus (sob ordens diferentes de anjos) ou três infernos (sob ordens diferentes de demônios). “Os santos se dirigem de boa vontade para um dos três céus e os pecadores para um dos três infernos, de onde jamais sairão.”

Kardec julga: “Esta doutrina desesperadora anula a misericórdia de Deus, porque lhe recusa o poder de perdoar os pecadores surpreendidos por morte violenta ou acidental.” O próprio Swedenborg evocado se retrata:

“As penas não são eternas, bem o vejo. Deus é muito justo e muito bom para punir eternamente a criatura que não tem força suficiente para resistir às paixões.” (RE, nov/1859, “Comunicação de Swedenborg”)

3. Falsa identificação do Espírito comunicante como Deus

Em 1743, em Londres, Swedenborg viu durante o jantar uma figura que disse: “Eu sou Deus, o Senhor, Criador e Redentor. Escolhi-te para explicar aos homens o sentido interior e espiritual da Sagrada Escritura.” Swedenborg aceitou. Kardec adverte: “A qualidade que a si mesmo se atribuiu o Espírito que a ele se manifestou bastaria para o pôr em guarda, sobretudo considerando a trivialidade de sua apresentação.”

O próprio Swedenborg evocado confirma o erro:

”— Qual foi o Espírito que vos apareceu e disse ser o próprio Deus? Era realmente Deus?
— Não. Acreditei no que me dizia porque nele via um ser sobre-humano e por isso fiquei lisonjeado.
— Por que tomou ele o nome de Deus?
— Para ser melhor obedecido.”
(RE, nov/1859)

A lição metodológica é decisiva para a codificação: Espíritos que se anunciam com nomes muito elevados (Deus, Cristo, Maria) devem ser submetidos ao controle severo da razão, não acolhidos pela autoridade do nome. Princípio que entrará no LM (1861), 2ª parte, cap. XXIV, item 267, regra 8.

Reconhecimento de Kardec

Apesar das críticas, Kardec encerra a notícia biográfica com elogio:

“Apesar dos erros do seu sistema, Swedenborg não deixa de ser uma das grandes figuras cuja lembrança ficará ligada à História do Espiritismo, do qual foi um dos primeiros e mais zelosos pioneiros.” (RE, nov/1859, “Swedenborg”)

Citações relevantes (autoavaliação do Espírito)

“A minha moral espírita e a minha doutrina não estão isentas de grandes erros, que hoje reconheço.” (RE, nov/1859)

“Eu vos disse que estais num caminho mais seguro que o meu, visto que as vossas luzes são em geral mais amplas. Eu tinha que lutar contra uma ignorância muito maior e sobretudo contra a superstição.” (RE, nov/1859)

”— Poderíeis dizer-nos de que maneira eram recebidas por vós as comunicações dos Espíritos? Escrevíeis aquilo que vos era revelado, à maneira dos médiuns, ou por inspiração?
— Quando eu estava em silêncio e em recolhimento, meu Espírito como que ficava deslumbrado, em êxtase, e eu via claramente uma imagem à minha frente, que me falava e ditava o que eu deveria escrever. Por vezes, minha imaginação se misturava a isso.”
(RE, nov/1859)

Recepção complementar — Yvonne Pereira (À Luz do Consolador)

A crônica Emmanuel Swedenborg de [[wiki/obras/a-luz-do-consolador|À Luz do Consolador]], de Yvonne Pereira, faz a leitura histórico-positiva complementar à crítica doutrinária de Kardec na RE de 1859, sem com ela conflitar (Kardec mesmo encerra a notícia de 1859 chamando-o “uma das grandes figuras […] pioneiros”):

  1. Último dos reveladores nos Prolegômenos do LE. Yvonne lembra que Swedenborg figura na relação de Espíritos que ditaram a Codificação inscrita nos Prolegômenos de O Livro dos Espíritos, ao lado de São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, o Espírito de Verdade, Sócrates, Platão, Fénelon e Franklin (ver espiritos-reveladores).
  2. Precursor do conceito de ectoplasma. O “vapor aquoso muito visível” que Swedenborg dizia exalar-se dos próprios poros é identificado por Yvonne como o ectoplasma, reconhecido pelos pesquisadores psíquicos do séc. XIX/XX — propriedade natural que ele teria sido o primeiro a observar em si, no séc. XVIII.
  3. Defesa de André Luiz pela concordância. Yvonne usa Swedenborg (e Bozzano, Vale Owen, Oliver Lodge) para defender André Luiz do descrédito apriorístico, invocando o critério da Introdução do ESE: “a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente […] em vários lugares” — não negar gratuitamente, mas estudar e examinar. Articula com fe-raciocinada.

Obras associadas

Não há obras de Swedenborg psicografadas após sua morte registradas na Revista. As obras citadas pertencem todas à primeira existência terrena.

Páginas relacionadas

Fontes

  • KARDEC, Allan. Revista Espírita, nov/1859, “Swedenborg” e “Comunicação de Swedenborg prometida na sessão de 16 de setembro”. Edição local: 1859.
  • SWEDENBORG, Emanuel. De Caelo et Inferno (1758) — referência da doutrina dos três céus / três infernos criticada por Kardec.
  • PEREIRA, Yvonne do Amaral (Frederico Francisco). À Luz do Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 1997 (Emmanuel Swedenborg). Ver a-luz-do-consolador.