Psicometria
Definição
Faculdade pela qual o médium percebe, ao contato de um objeto, documento ou ambiente, impressões e lembranças ali fixadas — fisionomias, eventos, estados afetivos, paradeiros. Operação mediúnica que combina duas componentes: extroversão da força nervosa do sensitivo e indução por Espíritos desencarnados ligados ao objeto ou à pessoa investigada.
“Faculdade de perceber o lado oculto do ambiente e de ler impressões e lembranças, ao contato de objetos e documentos, nos domínios da sensação a distância.” [[obras/mecanismos-da-mediunidade|(André Luiz / Chico Xavier, Mecanismos da Mediunidade, cap. 20)]]
Fundamento em Kardec
Kardec não dedica capítulo específico ao termo “psicometria” (cunhado em 1842 por Joseph Rodes Buchanan, e popularizado por William F. Denton em The Soul of Things, 1863). O fenômeno, porém, é parte natural da tipologia mediúnica do Livro dos Médiuns — capítulo das mediunidades sensitivas e videntes — e dos casos de mediunidade sonâmbula:
Médiuns sensitivos e videntes (LM cap. XVI)
Kardec lista entre as variedades de médiuns os sensitivos (sensíveis à presença de Espíritos), videntes, audientes, e os sonambúlicos (cuja alma “se desprende parcialmente” do corpo e percebe a distância). A psicometria moderna recobre este conjunto: o psicômetra é, simultaneamente, sensitivo (recolhe impressões), vidente/audiente interno (percebe imagens e vozes do ambiente investigado), e sonâmbulo parcial (sua percepção opera fora dos limites sensoriais comuns).
Atmosferas fluídicas (OPE)
“Cada indivíduo possui um fluido próprio que o envolve como atmosfera. […] O pensamento cria imagens fluídicas no perispírito, como fotografias, permitindo que videntes e Espíritos leiam pensamentos alheios.” (OPE, “Manifestações dos Espíritos — Fotografia e telegrafia do pensamento”)
A doutrina kardequiana das atmosferas fluídicas é o substrato: objetos manuseados longamente por uma pessoa impregnam-se de sua emanação perispiritual; um sensitivo extrovertido capta a impressão como se lesse uma fotografia. O fenômeno é parte da mesma fenomenologia das simpatias e antipatias instintivas (LE, q. 458).
Desdobramento em André Luiz (Mecanismos da Mediunidade, cap. 20)
Mecanismo: extroversão da força nervosa
“Em certos indivíduos, a onda mental a expandir-se, quando em regime de ‘circuito fechado’, na atenção profunda, carreia consigo agentes de percepção avançada com capacidade de transportar os sentidos vulgares para além do corpo físico, no estado natural de vigília. O fluido nervoso ou força psíquica, a desarticular-se dos centros vitais, incorpora-se aos raios de energia mental exteriorizados, neles configurando o campo de percepção que se deseje plasmar.” (Mecanismos, cap. 20)
A função operativa: o psicômetra “desarticula” a força nervosa de núcleos específicos (visão, audição) e a transfere para a onda mental projetada, “possuindo olhos e ouvidos a distância do envoltório denso”. O fenômeno é caso particular do desdobramento, em regime parcial e voluntário.
Psicometria como reflexo condicionado
“Nas pessoas dotadas de forte sensibilidade, basta o reflexo condicionado, por intermédio da oração ou da centralização de energia mental, para que, por si mesmas, desloquem mecanicamente a força nervosa correspondente a esse ou àquele centro vital do organismo fisiopsicossomático, entrando em relação com outros impérios vibratórios.” (Mecanismos, cap. 20)
Articula-se ao princípio do cap. 12: o automatismo da vida psíquica condiciona o desempenho mediúnico. Médium treinado entra em estado psicométrico por gatilho regular (prece, recolhimento, contato com o objeto).
Operação coletiva, não individual
O ponto operacional decisivo de André Luiz é que o psicômetra raramente trabalha sozinho. No caso paradigmático do desaparecimento — uma pessoa some sem deixar vestígio, levam-se um objeto pessoal ao médium em local distante, ele descreve fisionomia, caráter e paradeiro do desaparecido —, o que parece feito do médium é, no plano espiritual, operação cooperativa:
“Os encarnados veem habitualmente apenas o sensitivo que entrou em função, mas se esquecem, não raro, das Inteligências desencarnadas que se lhe incorporam à onda mental, fornecendo-lhe todos os avisos e instruções, atinentes ao feito.” (Mecanismos, cap. 20)
Espíritos afetivos ligados ao desaparecido convergem ao médium, transmitem fisionomia e localização, e o sensitivo lê o conjunto. O lenço, o objeto, o documento são “francos mediadores entre a Esfera física e a Esfera extrafísica, à maneira de agentes fortemente induzidos, estabelecendo fatores de telementação entre os dois Planos” (cap. 20).
Critério moral
“Se o consulente e o experimentador não se revestem de qualidades morais respeitáveis para o encontro do melhor a obter, podem carrear à presença do sensitivo elementos desencarnados menos afins com a tarefa superior a que se propõem.” (Mecanismos, cap. 20)
A psicometria, como toda mediunidade, é regida pela escala-espirita: o conjunto consulente + médium + objeto atrai Espíritos afins. Consulta com motivação inferior (curiosidade, vingança, ganho) recolhe informação correspondente ou fracassa.
Domínio estendido (cap. 20)
André Luiz inclui, na mesma família de fenômenos: visão através de corpos opacos, clarividência e clariaudiência telementadas, “apreensão críptica da sensibilidade” (impressão de motivação oculta), recursos radiestésicos (“filiados notadamente aos chamados fenômenos de telestesia”). A psicometria é, portanto, espécie do gênero amplo das percepções extra-sensoriais induzidas, todas operadas pela mesma extroversão da força nervosa em ondas mentais carreadas por Espíritos cooperantes.
Aplicação prática
Conduta do médium
- Recolhimento e prece como gatilho. Reflexo condicionado positivo orienta a sintonia para Espíritos elevados.
- Não interpretar para impressionar. Resistir à tentação de exibir acerto: o conjunto vibratório se vicia.
- Verificação independente. O médium não tem certeza absoluta da operação cooperativa; o que percebeu pode ter componente anímico (ver animismo). Deixar verificar.
Conduta do consulente
- Motivo limpo. Vingança, curiosidade ou interesse mesquinho atraem Espíritos análogos e produzem informação enganosa.
- Não absolutizar a leitura. Mesmo psicômetra dotado pode receber fragmentos da história do objeto, induzidos pela parcela do mundo espiritual que comparece. A psicometria assiste a investigação, não a substitui.
Casos limite
Objetos colecionáveis — joias, armas, documentos antigos — são “francos mediadores” potencialmente carregados. Ambientes de hospitais, prisões, antros, igualmente. Médium psicométrico em ambiente desconhecido pode ser submergido pela memória fluídica acumulada — risco de fadiga e de absorção de cargas inferiores.
Páginas relacionadas
- mediunidade — quadro doutrinário geral
- onda-mental — substrato da extroversão psicométrica
- desdobramento — psicometria é desdobramento parcial
- manifestacoes-espiritas — quadro fenomenológico geral (clarividência, clariaudiência, telestesia)
- perispirito — atmosfera fluídica que impregna objetos
- identidade-dos-espiritos — exame da fonte das impressões recebidas
- animismo — componente anímico inerente à operação
- escala-espirita — sintonia consulente + médium atrai nível correspondente
- livro-dos-mediuns — caps. XIV–XVI (sensitivos, videntes, sonâmbulos)
- mecanismos-da-mediunidade — cap. 20
Fontes
- Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, 2ª parte, caps. XIV–XVI (variedades de médiuns sensitivos, videntes, sonâmbulos). FEB.
- Kardec, Allan. Obras Póstumas, “Manifestações dos Espíritos — Fotografia e telegrafia do pensamento”. FEB.
- XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo (André Luiz). Mecanismos da Mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 1959. Cap. 20 (Psicometria). Edição: mecanismos-da-mediunidade.
- XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). Nos Domínios da Mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 1955. Cap. 26 (psicometria como espécie da fenomenologia mediúnica). Edição: nos-dominios-da-mediunidade.