O Fim do Mundo

Dados bibliográficos

  • Autor: camille-flammarion (1842–1925)
  • Título original: La Fin du Monde
  • Primeira edição francesa: Paris, 1893 (1ª edição em livro; capítulos haviam saído em folhetim na Revue Encyclopédique e em La Science illustrée)
  • Tradução brasileira: Manuel Quintão, FEB (Federação Espírita Brasileira)
  • Nível: 3 — Complementar aprovado (autor consagrado, médium e amigo pessoal de Allan Kardec)
  • Gênero: romance filosófico-científico (ensaio em forma narrativa)
  • Texto integral: o-fim-do-mundo

Lugar na obra de Flammarion

O Fim do Mundo é o segundo dos três romances-ensaio de Flammarion — publicado quatro anos depois de Urânia (1889) e quatro anos antes de Estela (1897). A tríade forma um arco quase contínuo em que o mesmo método narrativo é aplicado em três escalas distintas da tese espírita:

ObraAnoEscala da narrativa
[[wiki/obras/urania|Urânia]]1889Cósmica — viagem com a musa da Astronomia por sistemas planetários, encontro com Spero reencarnado em Marte
O Fim do Mundo1893Coletiva — destino da humanidade terrestre inteira: cataclismo cometário no séc. XXV; decadência e extinção em 10 milhões de anos; migração para Júpiter
[[wiki/obras/estela|Estela]]1897Individual — história de amor entre Rafael Dargilan e Estela d’Ossian, morte conjunta no Tirol e reencarnação em Marte

Entre as três obras, O Fim do Mundo é a de maior abrangência temporal (séc. XXV → ano 10 milhões → eternidade pós-solar) e a única em que o protagonista narrativo coletivo é a Humanidade como espécie, não um casal ou um observador.

Gênero romance-ensaio

O Fim do Mundo mistura ficção narrativa e exposição doutrinária — mesmo gênero de Urânia e Estela. As descrições do séc. XXV (Estados Unidos da Europa, comunicação interplanetária com Marte, criados símios), do ano 10 milhões (Omégar e Eva como último casal humano) e do epílogo (choque de sóis extintos engendrando nova nebulosa) são especulação literária a serviço da divulgação doutrinária, não revelação mediúnica submetida ao crivo plural característico do método kardecista. Kardec, ao publicar a comunicação espontânea “O planeta Vênus” em 1862, aplicou cláusula condicional explícita (“essa comunicação sobre Vênus não tem os caracteres de autenticidade absoluta”). Flammarion, no gênero ensaio-romance, dispensa esse crivo. A obra deve ser lida como exercício imaginativo a serviço da divulgação doutrinária, não como revelação experimental.

Estrutura

Duas partes de sete capítulos cada + epílogo filosófico.

Primeira Parte — No século XXV — As teorias (caps. I–VII)

Cap.Título
IA ameaça celeste
IIO cometa
IIIA sessão do Instituto
IVComo acabará o mundo
VO Concílio do Vaticano
VIA crença no fim do mundo através dos tempos
VIIO choque

Século XXV. A Europa unificou-se em “Estados Unidos da Europa”, a guerra foi abolida pela liga feminina internacional, a imprensa transformou-se em puro órgão mercantil, criados símios substituem domésticos. O Observatório de Gaorisancar (no Himalaia, 8 000 m de altitude) descobre um cometa esverdeado dirigindo-se à Terra. Análise espectroscópica revela predominância de óxido de carbono — gás venenoso para a hemoglobina. A sessão do Instituto (cap. III) ocupa o coração narrativo da parte: o Diretor do Observatório, o Presidente da Academia de Medicina, o Presidente da Sociedade Astronômica, o Secretário perpétuo e o cardeal-arcebispo debatem cenários (envenenamento atmosférico, incêndio por transformação de movimento em calor, anestesia coletiva, fim apocalíptico no fogo). O cap. IV (“Como acabará o mundo”) expõe a tese geológica do nivelamento dos continentes em 4–8 milhões de anos. O cap. VII narra o choque: catástrofe parcial, 218 mil mortes em Paris, queda de bólido próximo a Roma noticiada (falsamente, depois desmentida) como esmagamento do papa e dos cardeais — episódio que satiriza o jornalismo mercantilista da época. A Terra sobrevive.

Segunda Parte — Dentro de dez milhões de anos (caps. I–VII)

Cap.Título
IAs etapas futuras
IIAs metamorfoses
IIIO apogeu
IVVanitas vanitatum
VOmégar
VIEva
VIIO último dia

Salto de 10 milhões de anos. Cap. I percorre as transformações sociais já consumadas (paz universal, supressão do funcionalismo, governo unificado, calendário astronômico, hora universal). Cap. II descreve as metamorfoses naturais (continentes submersos, fauna domesticada, calor central extinto, captura dos raios solares). O cap. III (“O apogeu”) é o coração doutrinário positivo da obra: a humanidade atinge o auge intelectual e moral, descobre o oitavo sentido — o psíquico, comunica-se por telepatia natural, troca mensagens com Marte e Vênus (mais tarde com Júpiter), abole a alimentação grosseira em favor de extratos químicos, vive 150 anos. Cap. IV (“Vanitas vanitatum”) inicia a curva descendente: a água começa a desaparecer da atmosfera, vegetação rareia, populações migram para a zona equatorial. Caps. V e VI apresentam Omégar (em cidade equatorial do Pacífico) e Eva (em cidade ao sul de Ceilão), os dois últimos rebentos humanos, ainda em luta com a aridez planetária. Telepatia atravessa as terras desertas e os atrai um para o outro. O cap. VII (“O último dia”) narra o desfecho: Omégar e Eva morrem nas ruínas de uma pirâmide egípcia; a sombra de Khéops aparece como Espírito, identifica-se, anuncia suas reencarnações sucessivas e seu domicílio atual em Júpiter, leva as duas almas para o planeta gigante.

Epílogo — Dissertação filosófica

Tratado especulativo em que Flammarion, fora da narrativa, sustenta: (a) o Sol também se extinguirá em ~30 milhões de anos; (b) outros sóis e mundos existem por todo o infinito; (c) o universo é eterno e ilimitado — citação clássica de Pascal: “esfera cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não está em parte alguma”; (d) o choque de dois sóis extintos engendra nova nebulosa que recomeça o ciclo; (e) as almas que adquiriram a imortalidade continuam progredindo nas hierarquias do universo psíquico invisível. Encerramento doutrinariamente kardecista.

Eixos doutrinários

1. Pluralidade dos mundos habitados como destino coletivo (Parte II, cap. III; cap. VII)

Eixo central da obra. Diferentemente de Urânia (Spero individual reencarnado em Marte) e Estela (Rafael e Estela em par), O Fim do Mundo trata a pluralidade como destino da espécie humana inteira. A humanidade, depois de esgotar a Terra, transfere-se em bloco para Júpiter — planeta maior e em fase vital mais primitiva, que herda o legado:

“Júpiter recebeu a herança da Terra. Nosso mundo completou sua tarefa, não mais haverá gerações neste ambiente… Adeus!” (Parte II, cap. VI — fala da mãe de Eva “ressurgida”)

A formulação é consistente com a doutrina de Kardec, ainda que Flammarion a leve a uma escala literária extrema: (LE q. 173) sustenta que o Espírito “pode reencarnar no mesmo globo ou passar a mundos superiores”; (LE q. 222) ensina que os mundos diferem pelo grau de adiantamento físico e moral; (ESE cap. III) articula a escala canônica dos cinco tipos de mundos habitados — ver pluralidade-dos-mundos-habitados. Júpiter na narrativa funciona como mundo destinatário sucessor — sem que Flammarion articule explicitamente a escala de Kardec, a posição doutrinária é coerente.

2. Aparição de Khéops — núcleo doutrinário (Parte II, cap. VII)

O momento mais propriamente espírita da obra. Quando Omégar e Eva morrem nas ruínas de uma pirâmide egípcia, a sombra de Khéops materializa-se e fala:

“Nada temais — disse — venho receber-vos. Não morrereis… Ninguém morre, ninguém jamais morreu. O tempo rola na eternidade e a eternidade fica. Fui Khéops, eu que vos falo e aqui reinei, nos prístinos tempos deste mundo. Depois, aqui expiei meus crimes em sucessivas existências servis; e quando fiz jus à imortalidade, fui habitar Netuno, Ganímedes, Reia, Titã, Saturno, Marte e outros mundos de vós desconhecidos. Atualmente, moro em Júpiter. […] Os mundos se sucedem no tempo, como no espaço. Tudo é eterno, tudo se funde no divino. Confiai em mim, vinde comigo.” (Parte II, cap. VII)

Em poucas linhas Flammarion concentra três pilares doutrinários simultâneos:

  • Imortalidade da alma“Ninguém morre, ninguém jamais morreu”. Convergente com (LE q. 134–137) e (ESE cap. II).
  • Reencarnação como expiação progressiva — Khéops, faraó orgulhoso, expia em “sucessivas existências servis” antes de fazer “jus à imortalidade”. Doutrina kardecista direta: (LE q. 167) sobre encarnações sucessivas como meio de purificação; (LE q. 222) e (ESE cap. V) sobre provas escolhidas para reparação.
  • Pluralidade dos mundos habitados como progressão pós-morte — a alma migra entre planetas (Netuno → Ganímedes → satélites de Saturno → Saturno → Marte → Júpiter), em ordem não estritamente ascendente — Flammarion menciona satélites de planetas exteriores como estações de progresso. Especulação literária, não revelação verificada, mas em moldura kardecista (LE q. 173).

Khéops como figura histórica (faraó da IV dinastia, ~2600 a.C., construtor da Grande Pirâmide) usada ficcionalmente como Espírito comunicante — não gera página de personalidade na wiki. A escolha narrativa de Flammarion explora a dimensão da memória terrestre: a pirâmide é o único monumento que sobrevive a 10 milhões de anos de erosão e Khéops é a única personalidade da história antiga ainda reconhecível.

3. Oitavo sentido psíquico / telepatia natural (Parte II, cap. III; caps. V–VI)

O apogeu da humanidade inclui a descoberta de um oitavo sentido, descrito explicitamente:

“O sentido predominante, porém, o que representava o maior papel nas relações humanas era indubitavelmente o oitavo, o sentido psíquico, que permitia aos espíritos comunicarem-se à distância. […] Todo pensamento excita no cérebro um movimento vibratório, que origina ondas etéreas e, quando estas encontram um cérebro sintonizado com o emissor, podem comunicar-lhe o pensamento inicial.” (Parte II, cap. III)

A telepatia é apresentada como faculdade natural latente, não como dom mediúnico raro. É também o que torna possível o encontro de Omégar e Eva (caps. V–VI): apesar das comunicações elétricas terem cessado entre as duas últimas cidades, Eva “chamava alguém e sentia que alguém a compreendia” — projeta seu pensamento à distância e atrai Omégar ao seu local pelo aerocabo telecomandado mentalmente.

Convergência com a doutrina kardecista das manifestações psíquicas naturais: Kardec dedica capítulos do (LM, 2ª parte, caps. VI–VIII) à mediunidade da vista, da audição e do pensamento, e em (Gênese, cap. XIV, “Os fluidos”) explica a transmissão do pensamento por ondulações fluídicas que atravessam o espaço. Urânia já havia documentado dezenas de casos colhidos da Society for Psychical Research (ver 5-telepatia-aparicoes-e-fenomenos-psiquicos-parte-iii-cap-i). Em O Fim do Mundo a telepatia é projetada como faculdade futura universalmente desenvolvida.

4. Realidade do invisível e imortalidade da alma (Parte II, cap. VII)

No diálogo entre Omégar e Eva antes do encontro com Khéops, Flammarion coloca na boca do protagonista a tese ontológica central da obra:

“Sabemos que o mundo visível, atingível, perceptível aos nossos sentidos, não existe sob as formas aparentes que nos impressionam e não passam de um véu do mundo real e invisível. […] a realidade reside no invisível, […] a alma é uma força psíquica indestrutível, que se torna pessoalmente imortal, isto é, consciente de sua imortalidade, desde que começou a viver intelectualmente, desprendida da espessa ganga material. […] O Universo é regido por forças imateriais, […] as almas são realidades, seres indestrutíveis, que podem comunicar-se, manifestar-se à distância; […] o espaço não é barreira de separação, antes laço de união entre os mundos.” (Parte II, cap. VII)

Formulação textualmente kardecista. Cobre:

  • Aparência vs. realidade do invisível(LE q. 23–24) sobre Deus como Espírito supremo; (LE q. 76–82) sobre o princípio espiritual como realidade primária.
  • Imortalidade da alma como consciência de si(LE q. 134–141) sobre o Espírito conservar sua individualidade após a morte.
  • Espaço como laço entre os mundos — convergência direta com (ESE cap. III, item 4) e com a doutrina dos fluidos universais (fluidos).

O fechamento filosófico fora da narrativa formula a lei do progresso em chave cosmológica radical:

“A consciência de todos os seres humanos que tinham vivido na Terra graduara-se no ideal; os seres haviam progredido por suas transmigrações através dos mundos e todos reviviam em Deus, desprendidos das gangas materiais, plainando na luz eterna e progredindo sempre. […] O universo aparente, o mundo visível, é o cadinho no qual se elabora, incessantemente, o mundo psíquico, único real e definitivo.”

O choque de dois sóis extintos engendra uma nova nebulosa: “E foi, assim, um recomeço do mundo, uma gênese que futuros Moisés e Laplace haveriam de recordar. […] Para outras criações, outros seres e outros pensamentos. E sempre, sempre o espaço infinito permaneceu repleto de mundos e de estrelas, de almas e de sóis. Nem nunca deixou de haver eternidade.”

Convergência integral com (LE q. 776–800, Lei do Progresso) e com a moldura kardecista da criação contínua e progressiva ([[wiki/obras/genese|A Gênese]], caps. VI–VII; ver progresso-espiritual). A imagem do universo-cadinho onde se elabora o “mundo psíquico, único real e definitivo” é uma das formulações mais explícitas de Flammarion sobre a primazia ontológica do espírito sobre a matéria — paralela ao aforismo 19 do testamento de Spero em Urânia, mas aqui em registro narrativo de fechamento e não de testamento programático.

6. Crítica social satírica (Parte I; Parte II, cap. III)

A obra é também a mais socialmente satírica dos três romances-ensaio. Quatro frentes principais:

  • Imprensa mercantilista (Parte I, cap. II) — “a imprensa periódica de todo o mundo, sem exceção, transformara-se de há muito em mero agente de mercantilismo. […] Por isso e para isso, maquinavam falsas notícias […] minavam a todo o instante a segurança do Espaço, mascaravam a verdade, atribuíam aos sábios falsos conceitos, caluniavam atrevidamente, semeavam escândalos, mentiam, arrazoavam assassínios e ladroeiras”. A reviravolta narrativa do “papa esmagado” (cap. VII) é a personificação desta crítica.
  • Capitalismo financeiro (Parte I, cap. III e cap. VII) — figura recorrente do “judeu americano, príncipe das finanças, diretor do periódico Século XXV” que opera arbitragem na Bolsa antes, durante e depois do cataclismo. Personagem que veicula estereótipo antissemita típico do séc. XIX (a equivalência judeu/finança como construção literária) — ver “Divergências” abaixo.
  • Militarismo (Parte II, cap. III) — passagem extensa sobre como a guerra foi abolida na Europa pela liga feminina internacional que se recusou a casar com militares. A análise é doutrinariamente convergente com a posição kardecista da paz universal como decorrência natural da elevação moral (cf. ESE cap. XII; LE q. 742 sobre a guerra como flagelo passageiro).
  • Funcionalismo burocrático (Parte II, cap. III) — “praga do funcionalismo burocrático, que […] ameaçava as nações de esgotamento” — abolido após a revolução internacional-anarquista de 1950. Crítica econômica de tom liberal-cooperativista, não doutrina espírita stricto sensu.

A crítica das religiões institucionais (relegadas ao “plano das lendas místicas” no séc. XXX) é tratada em “Divergências” abaixo — é onde Flammarion excede o limite kardecista.

Divergências com Kardec

Três callouts inline, padrão estabelecido em Urânia e Estela. Nenhuma divergência é estrutural a ponto de gerar página própria em divergencias — duas são duplicação aguda de divergências já flaggadas nas duas obras irmãs.

"Filosofia astronômica" substitui as religiões — formulação mais aguda que em Urânia e Estela

No cap. III da Parte II (“O apogeu”), Flammarion descreve a humanidade do ano 10 milhões: “uma só religião (a filosofia astronômica); nada de sistemas religiosos oficializados, e sim a voz das consciências esclarecidas. […] As religiões antigas, quais o catolicismo, o islamismo, o budismo, o moisaísmo, tinham sido relegadas ao plano das lendas místicas. A trindade católica habitava o céu pagão. Os holocaustos oferecidos aos deuses antropomorfos e aos seus profetas, durante tantos séculos, quais foram Buda, Osíris, Jeová, Júpiter, Jesus ou Maria, Moisés, Maomé, os cultos antigos e modernos, todas essas abstrações do pietismo religioso se tinham evaporado com o incenso das preces.” A formulação é mais aguda que o aforismo 19 do testamento de Spero em Urânia (“a Astronomia deve ser a base de toda a crença filosófica e religiosa”) e mais aguda que a fórmula final de Estela (cap. XXXV — “a religião do porvir será a religião da Ciência”): coloca Jesus no mesmo plano de Júpiter, Maomé, Osíris e Jeová — confusão que dissolve a hierarquia de autoridade primordial entre os ensinamentos morais de Jesus e os demais sistemas religiosos. Kardec sustenta posição inversa: “Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo, e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da sua lei.” (LE q. 625, comentário; ver também ESE cap. I, itens 3–5). Esta é a mesma divergência já flaggada em divergencias-com-kardec e em divergencias-com-kardec — em O Fim do Mundo atinge a sua forma mais explícita. Recomendação: leitor que aceita os outros eixos doutrinários (aparição de Khéops, oitavo sentido psíquico, lei do progresso) deve descartar especificamente esta identificação polêmica.

Tom anti-clerical satírico (Parte I, caps. V e VII)

O cap. V (“O Concílio do Vaticano”) satiriza diretamente o Concílio Vaticano I de 1869–1870 (decretação da infalibilidade pontifícia, ainda recente quando Flammarion escrevia) e o cap. VII narra como notícia sensacional a queda de bólido sobre o concílio em Roma, esmagando o papa e os cardeais — depois revelada como informação falsa lucrativa fabricada pelo financista mercantilista. O alvo narrativo real da sátira não é o catolicismo, mas o jornalismo mercantilista (ver eixo 6 acima). Ainda assim, o tom carrega o anticlericalismo virulento do positivismo francês do séc. XIX — registro que Kardec evita: a posição kardecista é distinguir a moral de Jesus das instituições que a deturparam (ESE cap. I; (Gênese, cap. XVIII)), sem cair em deboche anti-eclesial. Citação em palestra exige mediação cultural — o leitor brasileiro contemporâneo pode confundir a sátira com posição doutrinária.

Estereótipo antissemita do "judeu americano" (Parte I, caps. III e VII)

Personagem recorrente que opera arbitragem na Bolsa antes, durante e depois do cataclismo, chamado repetidamente de “judeu americano, príncipe das finanças”. Constructo literário antissemita típico do séc. XIX francês — a equivalência judeu/finança circulava em Drumont (La France juive, 1886) e em parte do positivismo da época. Não é doutrina espírita nem reflete posição de Kardec, que em (Gênese, cap. XII) trata os hebreus como povo eleito da revelação progressiva, e em (RE) cita rabinos com respeito. Esse artefato cultural do texto deve ser nomeado e desautorizado ao citar a obra em ambientes de palestra. Não confundir com a tipologia de “judeu errante” ou “judeu pecador” da literatura religiosa medieval — é construção econômica burguesa, contemporânea à fundação do antissemitismo político moderno.

Conceitos tratados

  • pluralidade-dos-mundos-habitados — eixo central; humanidade migra coletivamente para Júpiter (Parte II, cap. VII); Khéops percorreu Netuno, Ganímedes, Reia, Titã, Saturno, Marte antes de Júpiter.
  • reencarnacao — formulação de Khéops como reencarnação como expiação progressiva (“expiei meus crimes em sucessivas existências servis”).
  • progresso-espiritual — eixo 5; lei do progresso projetada à escala cósmica no epílogo.
  • manifestacoes-espiritas — aparição de Khéops como Espírito (Parte II, cap. VII); telepatia natural entre Omégar e Eva.
  • fluidos — telepatia descrita como ondulação etérea (Parte II, cap. III).

Personalidades citadas

  • jesus — citado no cap. III da Parte II em contexto polêmico (lista de “abstrações do pietismo religioso” ao lado de Júpiter, Buda, Maomé) — ver “Divergências”.
  • allan-kardec — não citado nominalmente, mas a moldura doutrinária (pluralidade, reencarnação, oitavo sentido, imortalidade) é toda kardecista; Flammarion proferiu o discurso fúnebre no túmulo de Kardec em 1869.

Personagens ficcionais (não geram página): Omégar (último homem); Eva (última mulher); Diretor do Observatório de Paris; Presidente da Academia de Medicina; Presidente da Sociedade Astronômica; Secretário perpétuo da Academia; “jovem laureada do Instituto” (calculista da órbita do cometa); “judeu americano, príncipe das finanças” (constructo antissemita — ver Divergências); coadjutor do Arcebispo de Paris; cardeal-arcebispo.

Personalidades históricas tangenciais (não geram página): Khéops (faraó da IV dinastia, ~2600 a.C. — usado ficcionalmente como Espírito comunicante, ver eixo 2); Pascal (citado pela definição clássica do universo infinito “esfera cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não está em parte alguma”); Newton, Halley, Maupertuis, Lalande, Laplace, Arago, Faye, Tisserand, Bouquet de la Grye, H. Poincaré (linhagem astronômica citada na sessão do Instituto); Le Verrier (citado de passagem); Moisés, Confúcio, Platão, Maomé, Alexandre, Carlos Magno, Napoleão (catálogo histórico de figuras “que não tinham sobrenadado” em 10 milhões de anos).

Como ler

  • Para palestras kardecistas sobre pluralidade dos mundos e reencarnação interplanetária: o cap. VII da Parte II (aparição de Khéops) é a passagem mais citável — concentra em meio capítulo as três teses (imortalidade, reencarnação como expiação, migração entre mundos) em diálogo direto e dramatizado. Funciona como apólogo narrativo para introduzir LE q. 167, q. 173 e q. 222.
  • Para palestra sobre crítica espírita à imprensa mercantilista e à guerra: a Parte I (caps. I–III, VII) e o cap. III da Parte II (“O apogeu”, trecho sobre a liga feminina contra o militarismo) oferecem citação direta. Convergência com (ESE cap. XII; LE q. 742).
  • Para estudo sistemático doutrinário: o diálogo Omégar/Eva no cap. VII (eixo 4 — realidade do invisível, imortalidade como força psíquica) é citável lado a lado com LE q. 23–24, q. 76–82, q. 134–141. O epílogo (eixo 5 — progresso eterno) cruza com LE q. 776–800 e (Gênese, caps. VI–VII).
  • Para apresentação ao estudante iniciante: a obra é menos acessível que Urânia e Estela — a primeira parte é tecnicamente densa (cálculos astronômicos, física do óxido de carbono, geologia) e a segunda parte exige paciência com a longa exposição do “apogeu”. Recomendar como segunda ou terceira leitura de Flammarion, depois de Urânia (mais lírica) ou Estela (mais romanesca).
  • Cuidado especial com: (a) o estereótipo antissemita do “judeu americano” — nomear e desautorizar; (b) o trecho do “apogeu” sobre Jesus equiparado a Júpiter/Maomé — descartar especificamente sem rejeitar o eixo doutrinário onde aparece; (c) a sátira do Concílio do Vaticano — discernir do alvo real (imprensa mercantilista).

Páginas relacionadas

Fontes

  • Flammarion, Camille. O Fim do Mundo (La Fin du Monde, Paris, 1893). Trad. Manuel Quintão. Rio de Janeiro: FEB. Edição: o-fim-do-mundo.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, q. 23–24, q. 76–82, q. 134–141, q. 167, q. 173, q. 222, q. 625, q. 742, q. 776–800. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, caps. I, II, III, V, XII. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. A Gênese, caps. VI–VII, XII, XIV, XVIII. Trad. Guillon Ribeiro. FEB.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, 2ª parte, caps. VI–VIII (telepatia, mediunidade do pensamento). Trad. Guillon Ribeiro. FEB.