Bem-aventurança dos aflitos

Definição

Segunda bem-aventurança do Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que choram, pois que serão consolados” (S. Mateus, 5:4). Kardec abre com ela o capítulo V do ESE, onde reúne também as bem-aventuranças dos famintos de justiça (Mt 5:6) e dos perseguidos (Mt 5:10). A chave espírita da passagem é a justiça das aflições: o sofrimento é temporário, justo e produtivo, porque explicado pela pluralidade das existências e pela lei de causa e efeito.

Ensino de Kardec

O problema e sua solução

“Somente na vida futura podem efetivar-se as compensações que Jesus promete aos aflitos da Terra. Sem a certeza do futuro, estas máximas seriam um contrassenso; mais ainda: seriam um engodo” (ESE, cap. V, item 3). Mesmo a fé no futuro, porém, não bastaria a explicar por que uns sofrem mais que outros, por que nascem uns na miséria e outros na opulência, nem por que “os homens virtuosos sofram, ao lado dos maus que prosperam” (ibid.). Por esse gargalo entra a revelação espírita:

“Logo, as vicissitudes da vida derivam de uma causa e, pois que Deus é justo, justa há de ser essa causa. Isso o de que cada um deve bem compenetrar-se. Por meio dos ensinos de Jesus, Deus pôs os homens na direção dessa causa, e hoje, julgando-os suficientemente maduros para compreendê-la, lhes revela completamente a aludida causa, por meio do Espiritismo.” (ESE, cap. V, item 3)

Causas atuais e causas anteriores

Kardec divide as vicissitudes em duas ordens (ESE, cap. V, itens 4 e seguintes):

  • Causas na vida presente — consequência natural do caráter e do proceder do próprio homem: imprevidência, orgulho, ambição, intemperança, uniões de interesse, falta de moderação. “A quem, então, há de o homem responsabilizar por todas essas aflições, senão a si mesmo?” (ESE, cap. V, item 4).
  • Causas fora desta vida — provas ou expiações decorrentes de faltas em existências anteriores, que o Espírito aceitou livremente antes de reencarnar (LE, q. 258–261; ESE, cap. V, itens 6–11). Daí o espírita poder ler, em sofrimentos aparentemente imerecidos, o resgate de uma dívida antiga.

O sentido positivo da aflição

“Por estas palavras: Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados, Jesus aponta a compensação que hão de ter os que sofrem e a resignação que leva o padecente a bendizer do sofrimento, como prelúdio da cura” (ESE, cap. V, item 12). A aflição bem suportada apaga dívidas; a aflição revoltada contrai outras: “se murmurarmos nas aflições, se não as aceitarmos com resignação (…), se acusarmos a Deus de ser injusto, nova dívida contraímos, que nos faz perder o fruto que devíamos colher do sofrimento” (ESE, cap. V, item 12).

Daí a tradução que Kardec oferece da bem-aventurança: “Bem-aventurados os que têm ocasião de provar sua fé, sua firmeza, sua perseverança e sua submissão à vontade de Deus, porque terão centuplicada a alegria que lhes falta na Terra, porque depois do labor virá o repouso” (ESE, cap. V, item 18).

Contrapeso: “Ai de vós, ricos!”

A versão de Lucas traz a contrapartida: “Ai de vós, ricos! que tendes no mundo a vossa consolação. — Ai de vós que estais saciados, porque tereis fome” (S. Lucas, 6:24–25; ESE, cap. V, item 2). Não se trata de condenação material da riqueza, mas da falsa consolação terrena que dispensa o progresso moral. Quem acha neste mundo sua saciedade já recebeu o que procurou e nada lhe resta a colher na vida futura.

Desdobramentos

Contra a mística do sofrimento pelo sofrimento

Jesus não diz que todo sofrimento é bom; diz que o sofrimento bem suportado é fecundo. Daí a resposta de Kardec à pergunta sobre mortificações voluntárias: “há grande mérito quando os sofrimentos e as privações objetivam o bem do próximo (…); não, quando os sofrimentos e as privações somente objetivam o bem daquele que a si mesmo as inflige, porque aí só há egoísmo por fanatismo” (ESE, cap. V, item 26). A bem-aventurança legitima a aceitação da dor imposta pela vida, não a busca deliberada do padecimento.

”Aflitos” não significa todos os que choram

“Quando o Cristo disse: Bem-aventurados os aflitos, o reino dos céus lhes pertence, não se referia de modo geral aos que sofrem, visto que sofrem todos os que se encontram na Terra, quer ocupem tronos, quer jazam sobre a palha. Mas, ah! poucos sofrem bem; poucos compreendem que somente as provas bem suportadas podem conduzi-los ao reino de Deus” (ESE, cap. V, item 18). A bem-aventurança descreve os aflitos resignados, não os revoltados — ainda que sofram o mesmo fato.

Consolação que não é anestesia

A consolação prometida não suprime a dor imediata; esclarece-a. O espírita sabe que a aflição tem causa, sentido e termo; que a morte não encerra a conta; que o sofrimento bem carregado adianta o Espírito muitos anos. Essa compreensão já é, por si, metade da consolação — a outra metade é a certeza do reencontro e do reajuste.

Ressonância em Paulo: Romanos 5 e 8

Paulo, em Romanos 5:3–5 e 8:18, oferece a formulação paulina direta da mesma chave interpretativa espírita:

“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.” (Rm 5:3–5)

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada.” (Rm 8:18)

A cadeia paulina — tribulação → paciência → experiência → esperança — ecoa ponto a ponto o item 12 do ESE cap. V: “Jesus aponta a compensação que hão de ter os que sofrem e a resignação que leva o padecente a bendizer do sofrimento, como prelúdio da cura”. E Rm 8:18 (“aflições não são para comparar com a glória”) é formulação direta do que Kardec retoma como consolação maior: a breveza do sofrimento presente posta em perspectiva com a eternidade do Espírito. Ver epistola-aos-romanos.

Ressonância em Paulo: 2 Coríntios 1 e 4

Em 2 Coríntios, Paulo retoma o tema com duas formulações decisivas. A primeira institui a consolação como vocação ministerial:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda a consolação; que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus.” (2 Co 1:3–4)

A consolação paulina não é anestesia: é capacitação para consolar. Quem foi consolado torna-se ministro da consolação — o sofrimento atravessado é capital ministerial. Princípio operacional para a casa espírita: o expositor ou trabalhador da assistência só consola autenticamente o que ele próprio já viveu e foi acolhido.

A segunda formulação articula o peso eterno de glória:

“Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente; não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.” (2 Co 4:17–18)

Eco direto de Rm 8:18, com a chave hermenêutica adicional: invisível eterno > visível temporal. A “leveza” e a “momentaneidade” da tribulação não banalizam a dor — são afirmadas em perspectiva com a eternidade do Espírito. Ver segunda-epistola-aos-corintios.

Aplicação prática

Esta bem-aventurança sustenta a fala do expositor diante de lutos, doenças e injustiças na casa espírita. Não se consola negando a dor, nem prometendo milagre imediato: consola-se explicando a dor à luz da justiça divina e da pluralidade das existências. Praticar a bem-aventurança é, do lado de quem sofre, manter a prece e a resignação ativa (não a passividade); do lado de quem acompanha, oferecer presença, esclarecimento e silêncio — jamais chavões.

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Fontes

  • Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB. Cap. V (“Bem-aventurados os aflitos”), itens 1–27.
  • Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. FEB. Q. 258–261 (escolha das provas); q. 919–921 (sofrimentos como meio de progresso).
  • Novo Testamento. S. Mateus 5:4, 6, 10; S. Lucas 6:20–25; Epístola aos Romanos 5:3–5 e 8:18; Segunda Epístola aos Coríntios 1:3–7 e 4:17–18.
  • Ver também epistola-aos-romanos (caps. 5 e 8) e segunda-epistola-aos-corintios (caps. 1 e 4).